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O dinheiro cresce mesmo nas árvores

Editorial

Mafalda Anjos

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É preciso zelar para que o turismo cresça, garantindo, a quem nos visita, experiências autênticas. Sim, isso traz retorno

Uma coisa são as boas intenções e compromissos que saem dos grupos de trabalho, plasmadas em relatórios extraordinários com os quais toda a gente concorda, mas que ninguém se preocupa realmente em fazer cumprir. Outra bem diferente é ver os modelos a serem aplicados na prática pelas populações e a surtirem efeitos concretos positivos na vida das pessoas. Quando se fala em sustentabilidade e economia verde, o tema que dá o mote a esta edição especial, a Costa Rica é um exemplo extraordinário a ter em conta. Tive a sorte de visitar o pequeno país da América Central no início deste ano, e a experiência é bem reveladora de uma atitude inspiradora em relação à ecologia e à conservação na Natureza. Basta dizer que mais de quase 30% do território nacional é área protegida, e que lá se encontra 5% do total da biodiversidade do planeta.

Na Costa Rica, o compromisso com a Natureza não é superficial nem é de agora. Ali, as práticas sustentáveis têm várias décadas e estão genuinamente integradas na cultura nacional. Tudo começou com uma decisão histórica de, na década de 40, abolir o exército. Com o dinheiro poupado com esta medida visionária (que garantiu, além disso, a ausência de golpes de Estado militares tão frequentes naquela zona do planeta), o governo investiu na educação das populações, construção de infraestruturas públicas e na conservação e recuperação das florestas tropicais. Quando a economia verde ainda era pouco comum como estratégia, já a Costa Rica tinha projetos pioneiros para promover o desenvolvimento sustentável.

Na década de 90, o Presidente José María Figueres fez deste assunto um tema central da sua administração, tendo como certo que a atitude traria crescimento económico. 
Não se enganou. Em 25 anos, a Costa Rica triplicou o seu produto interno bruto graças sobretudo a um turismo de qualidade, ao mesmo tempo que duplicou a cobertura florestal, que tinha sido dizimada no início do século passado com grandes plantações industriais americanas, primeiro de banana e depois de palmeira. Sim, é caso para dizer que o dinheiro cresce mesmo das árvores. Essenciais foram os “pagamentos por serviços ambientais”, em que os cidadãos recebiam para conservar e proteger as florestas, tal como o uso inteligente da fiscalidade para penalizar quem aumentasse a pegada ecológica e assim alcançar o objetivo de ser a primeira nação do mundo a tornar-se neutra em carbono até 2021. Não sei se lá chegarão, com o aumento da circulação dos carros a combustíveis fósseis, mas ainda assim os resultados desta estratégia sustentável de longa data são notórios por todo o lado e percebe-se na conversa com qualquer “tico”. Seja nos fantásticos ecolodges no país, nos mais pequenos bares e restaurantes ou nos variados programas turísticos, a preocupação com a sustentabilidade traduz-se em muitas pequenas coisas, sejam as simples palhinhas de bambu e não de plástico, o consumo de produtos locais ou o emprego garantido para os funcionários dos estabelecimentos turísticos para todo o ano e não apenas para a época alta.

Andei na Costa Rica pelos vulcões, rios e albufeiras, pelas florestas tropicais e pelas praias desertas e testemunhei este genuíno envolvimento das populações nesta missão por todo o lado. Em muitos destes sítios, foi irresistível comparar com as tão ou mais espetaculares paisagens portuguesas: os mágicos Açores, os 850 km de praias, a biodiversidade riquíssima das Beiras, as paisagens do Alqueva, o verdejante Gerês, os socalcos do Douro… somos um país privilegiado. Um longo caminho tem sido feito na construção de uma economia verde portuguesa, cada vez mais sólida e sustentável. Precisamos agora de incentivar por todas as formas as boas práticas, exigir bons exemplos da administração pública, reforçar o envolvimento de todos os cidadãos e apostar cada vez mais na educação, ao mesmo tempo que, e este ponto é essencial, zelamos para que o turismo cresça, garantindo, a quem nos visita, experiências autênticas e genuínas em paisagens naturais intactas. É mais fácil dizê-lo do que fazê-lo, mas é o único caminho.

Artigo publicado na edição 1264 da VISÃO (Especial Verde), de 25 de Maio

Mafalda Anjos

Mafalda Anjos

Diretora

Germanófila por educação, entranhou-se-lhe o método e uma certa ética alemã. Estudou para advogada e chegou a pensar que ia ser constitucionalista, mas viu a luz no jornalismo, que continua a apaixoná-la todos os dias. Desde 2015 na VISÃO, esteve antes 10 anos na economia, nos quais passou por vários títulos, e depois no Expresso, onde editou a revista durante sete anos. Gadget freak, atenta às tendências globais, devoradora de revistas, precisa de wireless como de água potável. Quatro filhos, um marido, um cão e uma pão de forma chamada Marisol. Sim, é loira, e então?