Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Centeno, Maradona e o défice do século

Cumprir a meta do défice é como a seleção ganhar à Hungria. Vale três pontos, mas não garante o apuramento para a fase final do Mundial

Já quase ninguém se lembra de ver Héctor Enrique jogar, mas muitos recordam, com prazer e satisfação, a frase que ele proferiu, nos balneários, após a vitória da Argentina sobre a Inglaterra no Mundial do México, em 1986: “Com o passe que lhe dei, o difícil seria ele não marcar golo”. Era uma brincadeira, claro. O passe de que ele fala, apenas se vê – e mesmo assim só por quem estiver muito atento – no primeiro segundo do vídeo de uma das jogadas mais célebres da história do futebol. O relevante foi tudo o que se passou nos doze segundos a seguir àquele passe, e que foi mais ou menos isto: a dez metros da linha de meio-campo, Maradona recebe a bola, de costas para a baliza adversária, controla-a com o pé esquerdo, pisa-a e rodopia, fugindo a dois ingleses, Beardsley e Reid. Acelera para a área contrária e, com dois toques, finta Butcher, primeiro, e Fenwick, depois. Sem abrandar, dribla o guarda-redes Peter Shilton e marca golo – o “golo do século”.

Quem diria que 31 anos depois, a frase de Héctor Enrique ia fazer escola em Portugal? Noutras circunstâncias, claro, e sem o humor e ironia do jogador argentino. Mas a verdade é que perante a confirmação, na semana passada, pelo Instituto Nacional de Estatística, de que tivemos, em 2016, o défice público mais baixo dos últimos 46 anos (2,06% do PIB), de imediato se levantou um coro a desvalorizar esse bom resultado. Com argumentos parecidos com os que se usam nas discussões sobre futebol – e daí a inspiração para este texto. Que, afinal, já tinha havido outro défice do mesmo valor (o de Miguel Cadilhe, em 1989, no ano em que se cobrou, em simultâneo, o Imposto Profissional e o IRS); que tudo só foi possível à custa de “medidas extraordinárias”, que para atingir este resultado foi preciso estrangular o investimento público, e outras evidências do mesmo género – como também é verdade que Héctor Enrique passou mesmo a bola a Maradona antes do “golo do século”.

Longe de mim, podem acreditar, querer comparar Mário Centeno a Maradona. Mas os bons resultados são o que são – e nisso o desporto é sempre muito mais transparente e linear do que a economia. E não podemos passar anos e anos a ouvir que são precisos sacrifícios para fazer baixar o défice e, finalmente, conseguimos cumprir as metas europeias, e poder sair da “lista negra” do défice excessivo da União Europeia, e achar que isso, afinal, não tem assim tanta importância.

É verdade que é só um bom resultado. Cumprir a meta do défice é como a seleção ganhar à Hungria (como fez no sábado). Vale três pontos, mas não garante o apuramento para a fase final do Mundial. Ter o melhor défice do século também não faz com que a nossa economia melhore instantaneamente, por que esta encontra-se estrangulada por um endividamento gigante. Para isso, é preciso mais crescimento económico, maior investimento, mais emprego, apoiar a inovação, atrair talento. E podemos continuar, para não nos restringirmos apenas aos números e à economia, porque não é só disso que se faz um país: ter uma população mais qualificada, um serviço de saúde eficiente, uma justiça que funcione de forma célere, um clima social que potencie a criatividade.

No fundo, também o “golo do século” de Maradona não teve outra consequência prática do que a de carimbar a vitória sobre a Inglaterra – quatro anos depois da Guerra das Malvinas. Mas até mesmo os seus adversários concordaram que tinham acabado de assistir a um momento extraordinário. “Até me apeteceu bater palmas”, reconheceu um dos defesas ingleses. Chama-se a isso “fair-play”. Algo que falta cada vez mais em Portugal. Na política e no futebol.

(Editorial publicado na VISÃO 1256, de 30 de março de 2017)