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Do rigor e da ética em tempos periclitantes

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Reuters

A BBC, a Vodafone, a Sky, o HSBC e a Hyundai andaram a financiar atividades terroristas ou xenófobas sem o saberem, pelo facto de terem contratado campanhas de publicidade com o YouTube

Hoje, eu queria falar do aniversário da VISÃO. É uma data bonita, 24 anos esta semana. Mas há um número que não me sai da cabeça. Vou mesmo ter de começar por aqui. São 290 mil euros. Foi este o valor, segundo contas do Guardian, que empresas de referência doaram recentemente a causas radicais islâmicas ou antissemitas e supremacistas brancas, que promovem online discursos extremistas. Na prática, empresas como a BBC, a Vodafone, a Sky, o HSBC e a Hyundai, entre muitas outras, andaram a financiar atividades terroristas ou xenófobas sem o saberem, pelo facto de terem contratado campanhas de publicidade com a Google, detentora do YouTube, e de terem visto anúncios seus colocados em vídeos com conteúdos de ódio.

A história veio a público com estrondo no Reino Unido na semana passada e está a atingir proporções de escândalo, e não é para menos. Dezenas de grandes empresas já anunciaram que vão deixar de fazer publicidade no YouTube, pelo menos até a gigante tecnológica garantir que consegue assegurar que as campanhas não vão parar a conteúdos impróprios. Até ver, a Google, do alto do seu quase-monopólio global com que esmaga as concorrentes nacionais numa luta desigual, não parece estar muito preocupada: ao fim de mais de quatro dias do caso rebentar, os anúncios continuam lá. Por exemplo, nos vídeos do radical Sheik Wadgy Ghoneim (banido de entrar no Reino Unido desde 2009), na terça-feira de manhã ainda constavam campanhas. E até anúncios para o mercado nacional, de marcas como a Unilever, a Alpro ou a Cofidis portuguesas, doadoras à força para uma causa que evidentemente não apadrinham e da qual querem uma salutar distância. É ver os contadores de euros a somar para o lado dos extremistas (e do YouTube, claro), que encaixam bem à custa de empresas desprevenidas em busca de um lugar ao sol no mundo digital.

O caso é sério e bem sintomático destes novos tempos dos media, desafiantes, mas periclitantes e sinuosos, onde os players globais atuam com poucas 
(ou nenhumas) regras e muito pouca ética e onde as “fake news” estão ao virar de cada esquina. Onde os leitores tropeçam a toda a hora nas redes sociais em histórias que afinal são mentira, e os anunciantes são enganados com propostas que ofendem os seus valores e descredibilizam as suas marcas. Um mundo onde palavras como o rigor, a credibilidade, a responsabilidade, o espírito de missão, o dever cívico ficam cada vez mais enclausuradas nalguns meios de comunicação de referência, que resistem apesar das adversidades, um pouco contra tudo e contra todos.

Nem a propósito, este escândalo é afinal nesta semana uma (in)feliz coincidência. Empresta-me um bom início de conversa para falar dos media e, assim, da VISÃO. Celebramos agora o 24º aniversário, consolidando a liderança inequívoca como a news magazine mais lida do País e o título de informação com mais assinantes, acrescentando mais um ano a uma história de jornalismo independente, isento, rigoroso.

Chegamos aqui com mais de 450 mil leitores semanais, mais de 37 mil dos quais leitores tão fiéis que nos dão o voto de confiança de querer estar connosco todas as semanas, sem exceção, ao longo de um ano. A todos, muito obrigada. Sabemos bem que a cada leitor que somamos, acresce a responsabilidade de fazer mais e melhor. E de resistir, continuando a fazer jornalismo responsável e confiável, seja no papel ou no digital, onde estamos e vamos continuar a crescer com mais e melhor oferta. Este é o nosso compromisso.

(Artigo publicado na edição 1255, de 23 de março)