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Contra a ditadura da excecionalidade

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Se nós não somos super-homens e supermulheres, porque exigiremos das nossas crianças que sejam supermiúdos?

Para muitas famílias portuguesas como a minha, a bonomia do verão acaba agora. Na próxima semana, a vida reconquista a sua rotineira acidez: horários, regras, lancheiras, trabalhos de casa, testes, atividades… vem aí o implacável contrarrelógio dos afazeres familiares que acompanha o ano letivo. Uma panela de pressão que coze em lume brando alunos, pais e professores e que só alivia completamente no verão seguinte.

O ano escolar também se mede em níveis de stresse, e eles estão hoje absurdamente altos. A pressão, essa pressão omnipresente de ser bom – o melhor, o mais bonito, o mais esperto –, é condição incrustada na cultura contemporânea, e perpassa para as crianças mal saem do berço. Até ao ano começam a andar, senão começa a ser tarde. “Hum, o bebé tem 13 meses e não anda? Tens de ver isso.” Aos dois anos, idade da minha filha mais nova, vem a etapa seguinte de tensão: tirar as fraldas e a chucha. Depois, é a pressão para aprender as letras e os números. “Ah, o filho da minha amiga tem cinco anos e já sabe ler. O teu não?”

Na escola, querem-se notas excelentes ou lá perto. Bons não são bons, têm de ser muito bons ou então não chegam. Suficientes estão longe de ser suficiente. São coisa de fracos, e dos fracos não reza a história escolar nem para eles se guardam lugares nos quadros de honra. Ficou-me gravada uma reunião com a diretora de turma da minha filha mais velha, no final do quinto ano. Lastimei-me, confesso, que ela tinha descido de notas e deixado de ter muito bons a tudo. A resposta da professora, tão simples e tão óbvia, despenteou-me as convicções. “Entre um quadro de honra e uma filha bem formada, generosa e feliz, eu preferia certamente a segunda hipótese. A senhora não?” Mas como não? Claro que sim. Se um quadro de honra acarreta ansiedade e stresse, se obriga a passar os melhores anos da vida em privação e esforço, se fizer dela um ser competitivo e insuportável, que se lixem os muito bons.

Tive, nestes anos, de rever as minhas prioridades como mãe e educadora. Estimulo-os para que deem o seu melhor, empurro-os para irem mais além e zelo para que se apliquem. Mas não exijo que sejam os melhores nem os empurro ao limite. Valorizo cada vez mais outros valores que não apenas as notas – a habilidade social, a criatividade, a solidariedade (aliás, características cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho). Afinal, se nós não somos super-homens e supermulheres, porque exigiremos das nossas crianças que sejam supermiúdos?

O problema do stresse na escola não é novo, nem é só nosso. Este ano, a revista francesa L’Obs optou por tratar o tema do regresso às aulas por este prisma. A Atlantic dedicou-lhe no ano passado um texto com um sugestivo título (High Stress, High School), onde dava conta que mais de metade dos alunos do 11º ano em escolas privadas de referência está com níveis crónicos de stresse, em risco de burnout e de vir a ter danos psicológicos e físicos pelo efeito corrosivo que tem no sistema imunitário. A revista Time deu um passo à frente (num país, note-se, onde a competitividade é a regra e a escala do sucesso se mede em conquistas e zeros na conta bancária), com um texto “em defesa das crianças normais”. “É tempo de repensar o que significa ser excecional e se vale sequer a pena tentar ser o número um”, lia-se neste texto. Dei por mim a pensar onde estão os melhores alunos com que me cruzei na escola e na Faculdade de Direito, e se quereria estar no lugar deles...

Felizmente, há um crescente número de especialistas, psicólogos, professores e pais que começam a insurgir-se contra esta ditadura da excecionalidade. As crianças não têm de fazer três desportos, tocar dois instrumentos, ganhar medalhas e ter notas exemplares. Não os temos de atafulhar de objetivos, prazos e compromissos. Podem e devem ter tempos livres. Podem e devem – imagine-se! – entediar-se e não ter nada para fazer (isso estimula a criatividade). Podem e devem ser normais. “Normalinhos”. Imperfeitos, sim, mas felizes. Fernando Pessoa, corroído (ou seria inspirado?) pelas infinitas contradições humanas, tinha razão: ninguém aspire à perfeição, que ela não traz coisa boa. Para lá chegar é “preciso uma frieza de fora do homem e não haveria então coração de homem com que amar a própria perfeição”.