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Olhar as estrelas

A Noite Estrelada, de Van Gogh

Somos todos nós, jornalistas de hoje, como aqueles que Sophia de Mello Breyner eternizou: “os que avançam de frente para o mar” e “vivem de pouco pão e de luar”

O arranque deste texto foi, confesso-lhe caro leitor, mais difícil do que o costume. Andei para aqui às voltas com o tom: sério e seco? factual e analítico? confessional e íntimo? Como deve ser a carta de apresentação de um novo diretor àqueles a quem serve? O momento entorpeceria os dedos ao mais fluído dos escribas. Não é coisa pouca ter, como dizem os ingleses, sapatos grandes para calçar: nesta cadeira estiveram referências do jornalismo que deixaram uma marca incrustada na VISÃO e que ajudaram a fazer dela uma referência de rigor, isenção e credibilidade. Eu e o Rui Tavares Guedes, diretor executivo e companheiro de viagem, herdamos o terceiro maior título de informação nacional, a newsmagazine mais lida do País e o meio de informação com a maior carteira de assinantes em Portugal. Não há fórmulas nem referências infalíveis nesta matéria, e decidi que o que lhe trago aqui hoje é uma espécie de desabafo e troca de ideias.

Perdoar-me-á pois que hoje, só hoje, encontre aqui um tom ligeiramente diferente: impõe-se falar da VISÃO, de quem a dirige, dos caminhos da imprensa e do futuro dos media. O tema dá para um tratado, as respostas certeiras valem milhões de euros e, infelizmente, não é certo que alguém as tenha encontrado. Somos todos nós, jornalistas de hoje, como aqueles que Sophia de Mello Breyner eternizou: “os que avançam de frente para o mar” e “vivem de pouco pão e de luar”.

O mar é bravo e a noite é escura, já o sabemos. Os media vivem tempos de convulsão, agitados pela chegada disruptiva da internet que veio mudar hábitos de consumo e, por consequência, os modelos de negócio e as formas de trabalhar. O gratuito impôs-se como regra (que tem, como todas as regras, honrosas exceções) e, por causa disso, por todo o mundo, caem jornais que nem tordos. A verdade é que ainda são muito poucos os que conseguem compensar a erosão dos lucros nas vendas em banca e da publicidade em papel. Ainda, na semana passada, a Mother Jones, uma referência do bom jornalismo americano, dava conta deste infeliz paradoxo dos media contemporâneos. A grande investigação que publicou sobre o mundo secreto das prisões e dos abusos dos guardas prisionais (um texto XL com mais de 175 mil carateres e vídeos), para o qual o grande repórter Shane Bauer esteve infiltrado durante quatro meses e que lhe valeu aclamação geral (um milhão de pageviews, dezenas de milhar de partilhas nas redes, e um dos mais fortes candidatos na shortlist para Pulitzer) custou cerca de 350 mil dólares. Nada de extraordinário: o bom jornalismo custa caro – na maioria das vezes, o barato ou é copiado ou é inconsistente e fruto do acaso. O que espanta é o que vem a seguir: online, o título só arrecadou, em anúncios e banners, cerca de 5000 dólares com essa investigação – não chega a 1,5% do custo do artigo. Se dependesse apenas destas receitas, bem que a Mother Jones podia fechar as portas ou dedicar-se, apenas, aos vídeos de gatinhos e de bebés.

Felizmente, eu sou daquelas que gosta de olhar as estrelas. É que o luar, esse, nunca foi tão extraordinário. As estrelas nunca foram tantas e tão brilhantes. A internet abriu portas só antes sonhadas pelos utópicos. Democratizou a informação, o saber e a cultura. Revolucionou hábitos e encurtou distâncias físicas e sociais. Nunca ganhámos tão pouco por fazer bom jornalismo, mas a verdade é que nunca tivemos tantos leitores como agora. Nem tantas oportunidades para dar largas à imaginação. Um aparte a propósito: a VISÃO bate recordes sucessivos online – ainda este fim de semana registámos o melhor dia de sempre no nosso site (e não foi graças a vídeos de gatinhos e bebés). Somos hoje muito mais do que a revista que lhe chega em papel às mãos. Fazemos edições especiais fora de linha, produzimos a VISÃO História e a VISÃO Júnior, temos uma forte presença online e vários canais autónomos, newsletters, uma app, organizamos conferências e outros eventos de interesse. Em breve vamos estrear mais um canal online e uma rubrica de informação promovida pela VISÃO Sete no Jornal da Noite, da SIC. O caminho não é fácil, mas o céu está estrelado.

Comecei com Sophia, prossigo com Régio. Não sei, ninguém sabe ao certo, por onde vamos nem para onde vamos, mas sei bem por onde não queremos ir: pelo caminho do facilitismo, do “jornalismo de empacotamento” e dos compadrios com os poderes. E não contem connosco para branquear imagens, dourar pílulas ou simplificar a vida de quem está em cargos públicos. Temos – perdoa-me o tom coloquial? – as “costas quentes”. A sorte de fazer parte de um grupo onde a liberdade de imprensa está, graças ao seus fundadores, gravada no ADN. (Outro “a propósito”: acabámos de ganhar no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem um processo contra o Estado Português por violação deste princípio, por causa de um processo instaurado, há uma década, contra a VISÃO por Santana Lopes)

É a primeira vez que um diretor da VISÃO se senta nesta cadeira aos 40 anos. Quando fundou a VISÃO, o enorme Carlos Cáceres Monteiro tinha 45 anos. Pedro Camacho sucedeu-lhe, aos 44 anos. João Garcia, que me antecedeu e com quem vim para esta direção, tinha 62. E esta é também a primeira vez que uma mulher assume esta função. Gostava que isso não fosse um facto digno de nota, mas infelizmente ainda é (só há uma mulher entre os CEO das empresas do PSI-20, por exemplo). Lembro-me do extraordinário livro Cartas a Um Jovem Jornalista, de Juan Luis Cebrián, ex-diretor do El País, que devorei há quase há duas décadas. Li-o com admiração até à página em que escrevia: “Sempre achei que o poder e a luta para o obter é algo completamente masculino e não paro de me assombrar, na minha idade, do pouco apreço que por ele têm as mulheres. Se pusessem na sua perseguição todo o empenhamento que mostram na hora de defender o território amoroso, não há dúvida que governariam o mundo”. Tinha eu 20 anos e tive de me conter para não lhe escrever uma carta a chamar-lhe machista e paternalista…

Não o fiz na altura, mas assino, agora, respeitosamente esta página, com tanta história e memória dos que me antecederam. Chego aqui com um olhar (feminino?) sobre o mundo, mas sobretudo com ideias, garra e juventude. Já citei Sophia e Régio e dou por mim, de repente, a rever o Ensaio de Orquestra, de Fellini, uma obra-prima sobre a inteligência na liderança. E foco-me, sempre, nas estrelas.

Texto publicado na edição 1226 de 1 de setembro.