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O homem sem nome

A minha família só deu conta do que se passou quando me viu chegar à praia, desmaiada nos braços daquele homem desconhecido

Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma, de noite e de dia. Em criança, ao deitar, a minha mãe ajeitava-me os lençóis e rezávamos em uníssono, Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma, de noite e de dia. Onde está o anjo?, perguntava-lhe. A resposta era sempre a mesma, Está contigo.
(…)
Mudei-me para esta casa em outubro de 2015. Quase quatro anos depois, seria de esperar que já tudo nela tivesse encontrado o seu lugar,
as coisas e eu, mas não é assim. Talvez nunca seja assim. Só há umas semanas, ganhei coragem para trazer de casa da minha mãe a tralha com que fui atafulhando o meu quarto de solteira, como ela gosta de lhe chamar. A primeira invasão do quarto por restos da minha vida foi há dez anos, depois de me ter divorciado. Ao que lá deixara em solteira juntou-se o que sobrou de catorze anos de casada. Depois disso, de cada vez que mudava de casa, aconteciam outras invasões, mais ligeiras, que estratificaram a vida que o meu quarto de solteira guardava de mim.
Durante estes anos, fui-me desculpando com os afazeres do dia a dia para adiar a empreitada 
de me adentrar pelo quarto-arrecadação, receosa de me perder em passados fragmentados, caóticos, descuidadamente amontoados, tão diferentes do passado oficial, cuja lisura permite que seja contado 
de uma penada. Ali, o tempo baralhava-se e eu existia sem outra cronologia que não a do acaso: a que escrevera notas jocosas acerca dos professores nos códigos de Direito encontrava-se com a que, uma década antes, copiara as novelas da Corín Tellado para aprender a ser escritora, com a criança que, de Luanda, na ponte aérea de 1975, trouxe apenas dois livros da Anita, com as outras que fui sendo em cadernos onde apontava mais sonhos do que tristezas, nas fotografias em que me desconheço, nas cartas relidas vezes sem conta, nos postais que não cheguei a enviar, cromos do Sandokan, fascículos da Gabriela, um dispensador Pez com o Yoda enviado dos Estados Unidos pelo Shane.
Foi já aqui em casa, ao esvaziar uma das muitas caixas trazidas do meu quarto de solteira, que descobri a fotografia do tropa, uma fotografia a preto e branco, em formato de passe, de um homem nos seus vinte anos que me olha agora de uma das prateleiras da estante, na sala onde quase sempre escrevo. O cabelo, penteado com risco ao lado, faz uma discreta onda na franja e as patilhas são pequenas para o que então se usava. Então eram os anos setenta do século passado, como atestam os exagerados colarinhos da camisa. Uma cara quase redonda, olhos de tamanho e formato regulares, nariz afilado, lábios bem desenhados. Talvez possa descobrir-se no seu olhar a tal saudade que dizem ser portuguesa. No verso, o tempo apagou parte das letras do carimbo com o nome do estúdio de fotografia. Tento adivinhá-lo. Começo por pensar Foto Pureza, mas acabo por aceitar com mais convicção Foto Beleza. Por baixo um número, 9 725, precedido pelo algarismo cinco, acrescentado à mão, e mais abaixo, sem lugar para dúvida, a localização, Luanda. Rodando o verso da fotografia, a esferográfica azul, na minha caligrafia larga e desajeitada, igual à dos cadernos do ciclo preparatório, O tropa que me salvou.
(…)
In extremis. Nos últimos instantes da vida, diz 
o dicionário. O tropa estava sozinho, de pé, em cima de uma rocha que se erguia sobre o mar. O olhar que passeava distraído lá por baixo esbarrou com o meu corpo de criança a debater-se na água. A corrente levara-me para longe e eu estava a afogar-me. Prontamente, o tropa despiu a farda e lançou-se 
ao mar. Salvou-me. In extremis.
A minha família só deu conta do que se passou quando me viu chegar à praia, desmaiada nos braços daquele homem desconhecido. O seu ato de bravura valeu-lhe uma medalha e a redução do tempo 
de serviço militar. Dias depois, ainda sem suportar a água no meu corpo, nem mesmo a do chuveiro, tal o susto que apanhara, pensei que o tropa era o meu anjo da guarda. Ou alguém mandado pelo meu anjo da guarda.
Apesar de o tropa se ter tornado visita de nossa casa, quase não me lembro de nada que lhe diga respeito. Tenho ideia de o ouvir gabar a carne assada da minha mãe num almoço de domingo e de o ver ajudar o meu pai a mudar o pneu do Mazda, mas talvez tenha inventado uma coisa e outra. Também não sei se ele deixou de ir a nossa casa por ter acabado o serviço militar ou se foi a guerra civil, o assalto ao nosso bairro e o regresso atabalhoado à metrópole que nos fez perdermo-nos para sempre. Nunca o esqueci. Nunca o esquecemos. Mas, no pouco que trouxemos de Luanda, da sua existência física sobrou apenas a memória. E a fotografia encontrada. Nem eu nem a minha mãe nem a minha irmã nos lembrávamos dela, mas não acredito que outro anjo da guarda – ou ele próprio – tenha vindo agora entregar-me de forma tão labiríntica este retangulozinho de papel. Ao longo dos anos, sem que desse conta, a imagem do tropa foi-se esbatendo e, antes ou depois de já nada dela sobrar, o seu nome desapareceu também. Não sei como se chama o tropa. Não sabemos. Há dias, ao virar a fotografia daquele desconhecido que me tinha vindo parar à mão, sobressaltei-me com O tropa que me salvou e comovi-me com aquela formulação na minha letra de criança. Comoção e estranheza. Foi preciso algum tempo para lhe reconhecer sabedoria, uma sabedoria instintiva, infantil: se eu tivesse escrito o nome do tropa, possivelmente não saberia agora que aquele homem era ele.
No passado me perco, no passado me encontro. O passado é o pântano que habito.
(…)
Vigiada, de novo, pelo meu anjo da guarda, ali na estante, percebo que a descrição do meu salvamento foi criada por mim. Ainda que o tropa, ou alguém que o tenha visto sobre a rocha, nos tenha contado como as coisas aconteceram, duvido de que tudo se tenha passado como existe na minha cabeça. Reconheço, aliás, que as imagens com que fui construindo a descrição do meu salvamento já lá estavam antes daquele domingo em que quase morri. E o tropa não é o tropa, não é sequer o anjo da guarda. Ele é Deus, que me vigia distraidamente lá do alto, o mesmo Deus que ora nos salva ora nos mata.
Há uma história que diz que se perdeu há muito a maneira certa de pronunciar o nome de Deus, uma maneira tão poderosa, que aquele que a conseguir formular de novo – o seu corpo feito veículo do desconhecido, a articular-se em perfeita sintonia com o todo – salvará o mundo. E de repente, tudo parece certo. Deus é o homem sem nome.

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