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Dina e o fraquinho por Manuel Monteiro

Dina, em 1995, com Manuel Monteiro (então líder do CDS-PP) e António Lobo Xavier

António Xavier

Uma crónica onde o festival da canção se torna secundário. Aqui, o que conta são os palcos da campanha eleitoral para as legislativas de 1995

Dina pôs fim a 40 anos de carreira e tem-se falado o suficiente da sua saída de cena, de não ter fôlego para cantar e das novas vozes que querem homenagear uma vida cheia de música. Aqui vai, portanto, falar-se mais daquela tarde, há mais de 20 anos, em que começou por ver o Manuel Monteiro na televisão e acabou por dar uma perninha na política.

Quando se aproximou do CDS, "caiu o Carmo e a Trindade", disse, numa entrevista à SIC. Tinha nascido (a 18 de junho de 1956, no Carregal do Sal) numa família de esquerda, que não lidou bem com a sua queda para o partido mais à direita do plenário parlamentar. Mas ela, assumindo-se "humanista", sentiu o apelo do então líder do CDS-PP. As suas palavras fizeram-lhe sentido. E não encontrou outra explicação para o efeito se não "Manuel Monteiro conseguiu chegar... a mim", como confessou à SIC.

Daí à participação na campanha do CDS-PP foi um instante. Ligou para o Largo do Caldas. Não falou com Monteiro, mas deixou recado, para que lhe dessem os parabéns. Era o que lhe bastava. Uns tempos depois, retribuíram-lhe a chamada. Queriam a sua opinião sobre o hino do novo CDS. Foi recebida na sede do partido por Jorge Ferreira, braço direito de Manuel Monteiro, a quem deixou tudo em pratos limpos: que vinha de uma família de esquerda, que não pensava da mesma forma que eles em questões centrais, nucleares, que não tinha ligações nenhumas àquele partido, mas que Manuel Monteiro lhe tocara fundo e isso lhe bastava, conta hoje, à VISÃO, o então líder do CDS. "É a prova de como as pessoas se podem relacionar, respeitando-se na diferença", conclui Monteiro. Quando este saiu do CDS, Dina seguiu-o e fez-lhe novo hino, para a Nova Democracia.

Regressando ao largo do Caldas. Dina acedeu ao pedido e acabou por oferecer um hino novo ao partido. Com música sua e letra da "Rosinha" Lobato Faria, como habitual. Dina e Rosa eram, nessa altura, uma dupla – mas nem sempre tinha sido assim. Na sua primeira participação num festival da canção, em 1980, Dina apresentava-se com Guardado em mim – letra de Eduardo Nobre e música de Ondina Veloso (aka Dina). A participação, antes mesmo de lançar o seu primeiro álbum (Dinamite, 1982), valeu-lhe o Prémio Revelação. Mais tarde cantaria com letras de Cristiana Kopke e Ana Zanatti, mas são as de Rosa Lobato Fara que ficaram.

Amor de Água Fresca, com que ganhou o Festival da Canção de 1992, é obra desta dupla. Portanto, em 1995, o hino do CDS - Para a Voz de Portugal ser Maior - acaba por ser obra (e oferta) das duas. "A letra refletia [e reflete ainda, já que o hino nunca foi mudado] um contexto, aquela época, o espírito de mudança que se vivia quer no CDS quer no panorama nacional", lembra Manuel Monteiro.

Dina cantou o tema durante toda a campanha para as legislativas de 1995. Pelo voto em urna, o CDS (já munido de PP - de Partido Popular, o nome que o partido esteve para adotar, deixando cair o CDS que vinha desde a sua fundação) triplicou o número de deputados na Assembleia. Entre os 15 eleitos estava Paulo Portas, estreante na Assembleia da República. Dina e Portas entraram juntos "na política". É, portanto, irónico que a cantora anuncie o fim da sua carreira nos palcos ao mesmo tempo que Paulo Portas diz estar na hora de se afastar da política.

Com uma fibrose pulmonar diagnosticada há quase 10 anos, Dina deixou de ter fôlego para cantar mas, como diz numa das suas canções, haverá "sempre música entre nós" e, sobretudo, dentro dela. Apesar de não atuar desde 2012, os seus temas voltaram aos palcos pelas vozes de Ana Bacalhau, B Fachada, Best Youth, D’alva, Da Chick, Márcia, Mitó, Samuel Úria e os Tochapestana. Ontem (terça) no Teatro S. Luiz, em Lisboa. Amanhã, quinta feira, no Teatro Rivoli, no Porto