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Primeiro dia de verão

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Primeira crónica de Hugo Gonçalves, jornalista e escritor. Vive no Rio de Janeiro há dois anos. O seu último romance chama-se "Enquanto Lisboa Arde, o Rio Pega Fogo"

Agora sabes que o calor aparece assim que o sol dobra a curva do planeta e as crianças se levantam para a escola. Chega repentinamente, é inamovível, entranhando-se bem cedo no asfalto e no cimento, afligindo desportistas madrugadores e chamuscando passageiros de ônibus que se contorcem por uma corrente de ar entre janelas. Podes escutá-lo, infiltrando-se nas casas e instigando a pele de quem se prolonga na cama em boa companhia; abocanhando cada rua, cada sombra, cada contra curva, fritando a relojoaria interna dos cebolões espalhados pela cidade, que, destrambelhados, passam a decretar 72h98' e 02° de temperatura.

Olhas para cima e vês como o poder do calor não permite estilhaços de nuvens. Tudo é luz limpa, a mata é mais verde e, no fio do horizonte, o mar e o céu distinguem-se com uma nitidez de binóculo. Mas não se trata apenas da súbita fuga da frente fria, porque nem mesmo um boletim meteorológico otimista consegue, por si só, manipular o ânimo de uma cidade inteira. E não importa sequer que o calendário decrete primavera porque aqui há apenas dois estados mentais climáticos - verão e inverno, ainda que chamar-lhe inverno seja um típico exagero carioca.

Mas quando, como esta manhã, a rádio te alerta para 40° de máxima e o ano escolar se acerca do fim, quando os moleques te vendem água gelada nos semáforos e as lojas de eletrodomésticos colocam as ventoinhas em destaque, quando há gente em tronco nu - ou apenas de sunga - circulando pela calçada, quando um mergulho noturno no Arpoador passa a ser um plano e há cada vez mais festas, inaugurações, trocas de número de telefone, visitas a motéis e arrebatamentos românticos, então, alguma coisa, de facto, se altera na disposição dos cariocas. Entre novembro e as águas de março que fecham o verão - com Natal, passagem de ano, férias grandes e Carnaval pelo meio -, a cidade entra num crescendo emocional e só começa a desacelerar na quarta-feira de cinzas. No verão há mais conversas e mensagens escritas; falta a luz, acaba a cerveja, os táxis são mais caros e não apanham passageiros ensopados pela chuva. Tudo é progressivamente mais excessivo e elétrico, a euforia deixa de ser um estado de exceção, há um impulso para se mergulhar de cabeça.

Faltam três minutos para a uma da tarde. Esperas que um cebolão na esquina diga de sua justiça: 41°. Nessas horas de sol a pique, sentes uma asfixia de forno enrolando-se nos pulmões como película aderente. Procuras cruzar a brisa do ar condicionado, que sai das lojas, para encontrar algum alívio. Os gestos demoram-se, as palavras, carregadas de humidade, soam a fundo de piscina, o movimento de rotação do planeta tira um cochilo.

Depois, a tarde amansa e pegas na bicicleta, fazes mira para a praia, concordas com o ciclista que, esperando num semáforo, sugere que o som das buzinas seja substituído por "Oi meu amor", "Te amo" ou "Bom dia meu bem".

E embora esta praia, de maconheiros, skaters e artistas do toque na bola, fique a milhares de quilómetros da costa algarvia e das tardes que cheiram a alfarroba, percebes agora como o calor tem a magia das viagens no tempo. De pouco importa que as garotas do Posto 9 se apresente com piercings, tatuagens ou depilação integral, porque basta a languidez quente ao cair do dia para que estejas de novo a fazer carreirinhas no hemisfério norte, tentando impressionar a Cristina, que tinha doze anos e um palmo a mais do que tu, os teus lábios roxos e a Cristina incrédula com o tempo que aguentavas sem respirar, nadando como o Homem da Atlântida, capaz de fazer dez cambalhotas subaquáticas de seguida.

De pouco importa que o céu escureça agora sobre o areal e um punho fechado de nuvens, fazendo cerco aos morros, antecipe uma trovoada de verão e chuva de inundações. Durante todo o dia, por causa do calor, em vez da kombi que anuncia fruta nas ruas da Gávea, ouviste o amolador na hora da sesta e o altifalante da carrinha do circo que percorria a costa de Julho a Setembro. E o suco de melancia era, afinal, a melancia que teu avô cortava para os netos no final dos almoços na varanda. Pode até chover agora como nunca viste nas férias algarvias, mas, como nas antigas tardes de verão que não anoiteciam nunca, há açúcar de bolas de Berlim nas tuas falanges enrugadas de tantas carreirinhas.

É por isso que acreditas que o calor do verão, com seus efeitos na carne e no espírito, é um feitiço capaz de mover-nos no espaço e no tempo, o escudo contra a castigadora mecânica da cidade grande, o detonador do tédio e a poção dos vivos.

Depois da trovoada e da chuva, escutas o fervilhar de sapos e insetos - a temperatura baixa. Mas o calor do verão veio para ficar. E é graças a ele que poderás passar os próximos meses, tal e qual o Homem da Atlântida, mergulhando nas ondas de Ipanema para só emergir na rebentação de Sagres.