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As preparadas, as popozudas, as piriguetes e as raimundas

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No trânsito parado de Copacabana, o taxista olhava pela janela: "Meu deus, que maravilha." Pensei que se referia à paisagem. Ele insistiu: "Que bunda."

1. Quando Monica Bellucci se mudou para o meu bairro, começando a frequentar o ginásio em frente ao meu prédio, não só passei a ter um excelente tema de conversa de algibeira como esperei partilhar com ela a fila do supermercado. Vi o seu marido Vincent Cassel e os filhos várias vezes. Uma amiga, frequentadora do mesmo ginásio, disse-me que se cruzava com a atriz todos os dias. Não tive a mesma sorte. No entanto - a curiosidade obriga -, perguntei-lhe como era Monica Bellucci ao vivo, correndo numa passadeira ou pedalando em seco. Ela respondeu: "Até que está bem para a idade".

Para mim, está muito bem, e embora não garanta que Monica Bellucci jamais tenha feito uma cirurgia plástica ou levado uma injeção de botox na testa, pelo menos, e ao contrário de algumas senhoras a partir de certa idade, não pertence ao grupo que o comediante Bill Burr classifica como "mulheres mais velhas que se parecem com mulheres de 28 anos que se parecem com lagartos". 

Em sintonia com as rugas que tem na cara, Bellucci disse numa entrevista, pouco depois de se mudar com a família para o Rio: "Todos os países têm problemas, mas os brasileiros enfrentam os seus com poesia. E as mulheres exibem-se com qualquer tipo de corpo. É sexy".

Do Brasil espera-se uma certa beleza feminina - a mulata do sambódramo, a bunda dos anúncios da Reef, a "moça do corpo dourado do sol de Ipanema". Mas, tal como aconteceu com a atriz, foi a diversidade de biótipos, e a forma como se exibem despreocupadamente, que mais me impressionou. Velhas com shorts de ganga e tatuagens românticas, negras cheias de pregas reluzindo as nádegas imensas no areal, pancinhas gelatinosas com piercings relevando-se num top curto. Estas mulheres avançam na calçada com mais confiança do que uma modelo pueril desfilando como lhe mandaram. Estas cariocas sentem-se poderosas e apreciadas. E têm a certeza de que um dia alguém escreverá uma música sobre elas. 

2. No trânsito parado de Copacabana, o taxista olhava pela janela: "Meu deus, que maravilha." Pensei que se referia à paisagem. Ele insistiu: "Que bunda." Foi então que vi uma bunda extraordinária, no tamanho e na forma, que contestava os manuais de anatomia. O que para mim era estranho e exagerado, deleitava o motorista de táxi. No resto da viagem, explicou-me o que era uma "mulher fruta" - bailarinas do funk carioca, cujos glúteos, de tão grandes e rijos, parecem a criação de um cientista fetichista. As mulheres fruta celebrizaram-se na cultura popular, foram convidadas para reality shows, desfilaram em escolas de samba.  Entre as preferidas dos tabloides: a Mulher Melancia e a Mulher Maçã.

O universo feminino é rico em definições. Das clássica "raimunda" (feia de cara, mas boa de bunda), passando pelas "popozudas" (bunda grande) e pelas "trinca coxão" - rainhas da bateria das escolas de samba, musculadas como body builders -, existe um sem fim de tribos que, por vezes, nem sequer designam um tipo físico de mulher, mas uma atitude. Uma piriguete - termo que nasceu na Bahia, de "perigosa" - é uma mulher assanhada na postura e no exíguo tamanho da roupa, com saltos de vertigem e uma voracidade hedonista. Já uma "preparada" é uma frequentadora do baile funk que, pronta para o que der e vier, triunfa na pista de dança sem roupa interior a sul do Equador. 

3. O Rio é diverso na oferta e na procura. Como disse Monica Bellucci, há uma certa poesia no quotidiano. E na música, na literatura, na publicidade, na televisão, a mulher carioca é a musa confiante e a deusa sexual. Essa tornou-se a banda sonora oficial da cidade.

Mas o Rio, de extremos e contradições, é também a capital da cirurgia plástica no país onde mais se faz este género de procedimentos - um milhão e meio em 2012, a grande maioria com propósitos estéticos. Não se trata apenas de mulheres que tentam fintar a passagem do tempo. No ano passado, 91,100 adolescentes, entre os 14 e os 18, foram à faca que embeleza e corrige - um crescimento de 140% nos últimos quatro anos. Lipoaspiração e aumento de peito são as intervenções mais procuradas. 

Ainda que a diversidade seja a génese e a cara do Rio, também aqui se vive a tendência para a uniformização dos corpos e das expressões faciais. E talvez chegue o dia em que, para cada nega de cabelo duro rebolando nádegas até ao mar com mais atitude do que Monica Bellucci num anúncio da Martini, exista uma senhora de idade imprecisa e de face arrepanhada, figura de museu de cera igual a tantas outras no seu bairro, com bolas de silicone que impedem o sono de bruços.

Perante o empenho que certas mulheres aplicam na padronização da beleza, a custo de anestesias gerais, dietas mártires e mutilação da carne, só me apetece ir para a rua gritar que uma estria, um peito descaído ou (para muitos no Rio) uma bunda XL têm muito mais apelo do que a robotização das mulheres. E que tudo aquilo que muitas vezes querem cruelmente aniquilar em si mesmas, é o que mais as distingue e lisonjeia. Porque há muito mais tesão e encanto numa mulher de corpo vivido do que numa mulher de corpo encomendado.