Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O amor também congela!

ThomasVogel/ Getty Images

Falou tudo. Deu tudo. Fez tudo. Mas, nada resultou. Quanto mais falava, dava ou fazia, menos Amor sentia, até ao dia em que o procurou e não o encontrou! Tinha deixado um papel pequenino em cima da mesa, apenas com algumas palavras: “Eu, o teu Amor por ele/ela, vou de férias!”

Será que o Amor também “tira férias”, “congela” ou “hiberna” quando não é visto, valorizado, apreciado, cuidado, mimado?

Pode acreditar! Acontece mesmo!

Porque nos últimos tempos tenho acompanhado muitas dessas histórias de vida, que mais não são do que uma pequenina ponta do gigantesco “icebergue” do que se passa em milhões de relações amorosas por esse mundo fora, escolhi escrever sobre este tema.

Sim, a temática dava para escrever vários livros. As histórias são todas diferentes, mas têm muitos pontos em comum, como o cansaço e desgaste emocional e psicológico, a angústia, a ansiedade e o desespero de não saber o que mais fazer, mas pior, de não saber o que aconteceu com todo o Amor que sentia.

Mulheres e homens juram a pés juntos terem falado tudo, em todas as línguas que conheciam, terem dado tudo, terem feito tudo, sem qualquer sucesso, terem “frustrado tudo” na ausência de respostas, no silêncio, na passividade, na “incumplicidade”, no desamor.

Restou-lhes, a alguns, o Amor próprio, e a certeza de que aquela não era vida para o seu Amor. Então, um dia, olharam para ele, o Amor, e disseram-lhe: Vem cá! Vou proteger-te! Vou cuidar de ti! Vou defender-te! Vou congelar-te, hibernar-te, fazer com que vás de férias, sem saber quando voltas, mas a saber que, assim, eu sobreviverei, e tu sobreviverás. E tudo isto pode passar-se, e passa-se, a maioria das vezes, a nível inconsciente.

E assim foi! E assim é! Até que o outro, começa a sentir que algo de estranho se passa. Deixam de falar, deixam de dar, deixam de fazer… e passam a viver à espera de um cartão postal de um lugar longínquo que diga: “Sou o teu Amor! Estou bem! Foi o melhor que te, e me, fizeste! Um dia volto! Bronzeado e pronto para Amar de novo!”

E os dias vão passando, as semanas vão voando e os meses correndo. Na ausência do Amor, a vida corre num corropio entre as mais diversas rotinas, e à noite, cada um deita-se do seu lado da cama, e finge que já dorme.

Também acontece, vezes sem fim, se existir uma coisa que se chama capacidade empática e de Amar, que perante a ausência de qualquer afeto, o outro comece a falar, a dar, a fazer, a colocar o Amor que pensa existir dentro do microondas para o descongelar, a tentar despertá-lo de um sono profundo, a procurá-lo por toda a parte.

Mas, sabe? Nada parece resultar!

Sabe porquê?

Porque o Amor não quer a mesma conversa que conhece de cor, nem afetos, nem passeios, nem jantares, nem flores, nem caixinhas de bombons, nem férias, nem casas novas, nem fazer bebés…

O Amor precisa de algo que nada tem a ver com isso. Nesta fase, nada disso resulta mais, porque ele, o Amor, não acredita mais em nada disso. Aliás, isso até o irrita, enfurece e revolta ainda mais, pois pensa que poderia ter tudo isso, vivido tudo isso, e não teve nem o viveu. E a/o dona/o desse Amor ao pensar sobre isso, zanga-se ainda mais, com quem não teve olhos para a/o ver, mas especialmente, com ela/ele própria/o.

Nesta espécie de labirinto emocional, acredito que o caminho começa no reconhecimento e aceitação de que ao “congelar”, “hibernar” ou meter o seu Amor pelo outro, dentro de um avião e mandá-lo para longe, fê-lo no sentido de se proteger, passa por o aceitar, isto é, aceitar que neste momento não tem a capacidade de amar essa pessoa e pela expressão das suas emoções, dor e sofrimento.

Quanto mais se obrigar a sentir e se culpar por não sentir, menos sentirá e mais se zangará consigo. A aceitação de que não consegue amar essa pessoa neste momento, e a expressão de todas as emoções, vai fazer com que sinta menos pressão e tensão emocionais, maior leveza e maior capacidade de análise.

O facto de neste momento não sentir Amor, não lhe garante que não venha a poder senti-lo de novo. Em muitas situações que acompanhei a verbalização de toda a dor e sofrimento, aliada à capacidade empática e de reconhecimento do outro em perceber todo o esforço, empenho, investimento, dedicação e Amor, resultaram no despertar de um sentimento há muito ou pouco tempo adormecido, no “aquecer de um coração congelado” e no regresso de um Amor há muito não vivido.

E agora pergunta-me: “E o Amor pode não voltar, despertar ou “descongelar”?” Sim, acontece! Mas acredito que, ainda assim, vale sempre a pena tentar. O Amor “hiberna” para o proteger de se magoar. De alguma forma existe uma representação na sua mente que lhe diz: “Dar Amor igual a dor!”. Algumas pessoas podem ficar presas a esta ideia uma vida inteira!

Só quando percebem que não precisam mais proteger-se e podem voltar a amar em segurança com reciprocidade, ele, o Amor, volta!

O perdão a si próprio, por ter dado o seu Amor sem ser visto, o perdoar o outro de coração e o visualizar desta experiência como uma grandiosa aprendizagem a dois, é mais do que uma nova perspetiva, é o que permite a transformação, desenvolvimento pessoal e o crescimento em Amor!

www.margaridavieitez.com

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .