Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O dia seguinte

Bolsa de Especialistas

Carmo Machado

Horacio Villalobos/ Getty Images

Depois das eleições de domingo, nada voltará a ser como era. Explico porquê. Após o jogo do gato e do rato levado a cabo pelos principais partidos no que aos professores diz respeito, constatámos duas possibilidades preocupantes: ou os professores gostaram deste jogo ou então, dada a percentagem de abstenção (45,5%) ter sido recorde nestas eleições, os professores não foram sequer votar. Então, o que nos resta agora?

Não ficaria surpreendida se me dissessem que muitos professores tinham votado PS ou se nem se tivessem dignado ir votar. Há muito que me habituei a uma atitude desistente por parte de muitos professores que, como qualquer funcionário administrativo, se limitam a cumprir horário e a função quase burocrática atribuída, sem criticar, sem ripostar, sem refletir, passando intocáveis pelas gotas de uma chuva que já não os molha. Mas aqueles que, como eu, ainda se molham, o que nos move?

De que se queixam os professores, afinal, perguntam muitos? Pressinto que o futuro será pouco feliz para quem ensina por vocação e faz desta profissão a sua vida. Uma coisa parece certa: não interessa às políticas educativas uma classe docente forte, unida e pensante. Pelo contrário, os políticos que nos governam congratulam-se com aquilo que somos: a classe profissional mais apatetada que este país deve possuir, criticando pelas costas e sorrindo pela frente, sem pingo de solidariedade pelo outro e, sobretudo, incapaz de se impor numa sociedade aniquilada pelo vazio cultural crescente.

Referindo em seguida apenas alguns tópicos de uma infindável lista, esquecidos que parecem já estar para muitos os congelamentos das carreiras, a sobrecarga do trabalho burocrático, a redução das horas letivas após determinado número de anos de serviço (de que muitos já não usufruíram), o aumento das áreas de zona pedagógica, a anormalidade dos mega-agrupamentos, a aumento da idade de reforma, a municipalização do ensino gerido por gente que nem falar sabe, quanto mais escrever, o que nos resta?

É claro para mim, neste momento - perdida a esperança de recuperar os anos que nos espoliaram - que resta lutar com unhas e dentes por três direitos fundamentais:

(i) Reforma antecipada;

(ii) Redução do número de alunos por turma;

(iii) Recriação da escola como espaço de criatividade.

O rejuvenescimento da classe docente impõe-se. Urge negociar novas possibilidades de reforma antecipada para que docentes – cumpridos determinados requisitos - se possam reformar sem penalizações. Sem esta renovação geracional dos professores, dificilmente conseguiremos a mudança que se exige. Depois, importa que nos batamos fortemente por uma redução clara do número de alunos por turma que, em muitos casos, atinge dimensões ridículas e despropositadas, dificultando e impossibilitando mesmo o trabalho de qualquer profissional de ensino. Por último, importaria que o professor voltasse a ser livre. Dispam aos professores os coletes de forças burocráticos em que os aprisionaram e deixem-nos exercer o seu verdadeiro papel: o de criar e renovar gerações para uma sociedade que saiba pensar e inovar.

Por tudo isto, excelentíssimo Primeiro-Ministro, senhores deputados, devolvam aos professores a liberdade de que eles necessitam para criar!

Carmo Machado

Carmo Machado

ENSINO

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).