Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

As cidades na guerra pelo talento

Getty Images

O talento encontra-se espalhado pelo mundo inteiro, mas as oportunidades não! Se houvesse um equilíbrio económico-social a nível global não existiriam desigualdades que, aliás, se têm vindo a agravar. O continente, o país, a cidade, a família onde se nasce condiciona, positiva ou negativamente, muitas das escolhas que cada pessoa faz e condiciona ainda o acesso às oportunidades que cada um consegue explorar

O mercado global, as novas tecnologias, as novas profissões, as novas formas de ensino podem ajudar a diminuir este fosso e levar a que cada vez mais pessoas tenham acesso às mesmas oportunidades. Assim, evitar-se-ia que apesar de tão ou mais inteligentes, criativas e empreendedoras muitas pessoas não consigam alcançar patamares de sucesso, reconhecimento e riqueza tão elevados, como outros que por acaso nasceram no sitio certo.

Importância das cidades na “guerra” pelo talento

Existe uma “guerra” geoestratégica pelo talento e existe uma “guerra” entre cidades por investimento e, consequentemente, por talento pois é atrás deste que investimento “corre”.

Não são só as empresas que tentam atrair talento, as cidades também o fazem e de forma bastante eficaz. Em Portugal temos sofrido positivamente o impacto das óptimas noticias sobre o nosso País que, recorrentemente, aparece nos primeiros lugares de rankings internacionais. Ainda recentemente, Portugal foi considerado o 3º País mais seguro para se viver, pelo Global Peace Index e de acordo com a comunidade Internations o 6º melhor para expatriados viverem, num ranking que analisou 68 países. Lisboa, por seu lado, entrou no top 10 das cidades com melhor qualidade de vida, de acordo com a famosa revista inglesa Monocle. Noutro ranking, City Life Index, da revista Time Out, o Porto ficou em 2ª lugar como a melhor cidade do mundo para se viver, somente atrás de Chicago, tendo Lisboa ficado em 8º lugar neste ranking.

Independentemente dos rankings e posições, a verdade é que Porto e Lisboa têm consecutivamente ganho prémios e atraído cada vez mais turistas e novos residentes internacionais, sendo hoje verdadeiras cidades cosmopolitas onde se ouvem falar diferentes línguas. Claro que a política fiscal para residentes não habituais também tem ajudado, mas são estes rankings que ajudam a atrair talento, sobretudo pessoas que conseguem trabalhar remotamente e que procuram qualidade de vida, segurança, educação e a possibilidade de continuar a desenvolver as suas carreiras, bem como criar os seus filhos.

Estratégia para potenciar a capacidade de atracção e retenção de pessoas

As políticas de atracção de pessoas e investimento ainda não são implementadas de forma concertada com uma estratégia de desenvolvimento do próprio País ou cidade. As cidades, na sua grande maioria, não têm uma estratégia delineada e coordenada com os governos centrais, onde também seria fundamental consultar as empresas e analisar o mercado de trabalho tentando antecipar profissões futuras e necessidades de educação.

Portugal pode aproveitar a sua notoriedade para atrair pessoas e investimento e com isso criar centros de competências em diferentes cidades. Esses centros seriam suportados por base instituições de ensino que se focassem sobretudo em áreas do mercado de trabalho onde existisse escassez de talento (a nível global ou continental) e isso levaria a que as empresas aí se fixassem para poderem absorver esse talento na fonte.

Não será possível implementar esta estratégia para todas as profissões, mas essa decisão faz parte da equação, ou seja, temos de decidir no que vamos ser verdadeiramente bons e onde poderemos liderar em termos de conhecimento e inovação. E aí temos de ser criteriosos e acima de tudo conscientes que só o vamos conseguir fazer em poucas áreas, mas é preferível ser lider em alguns nichos do que ser um follower (seguidor ou imitador) em todas as áreas.

Para tal será necessário criar condições ao nível do ensino universitário, mas sobretudo ao nível do ensino especializado de profissões técnicas, do politécnico e ainda conseguir de forma eficiente e eficaz reconverter rapidamente muitos dos trabalhadores que já estão com falta de empregabilidade e antecipar aqueles que vão ter o mesmo problema no curto prazo. Nesta área, da reconversão de skills as próprias empresas teriam um papel importantíssimo em, não só garantir emprego para estas pessoas, mas também em ajudá-los a evoluir de forma a não voltarem a estar desactualizados.

Precisamos de mais talento

As empresas andam verdadeiramente “à caça” de talento e por isso temos tido nos últimos anos tantas empresas a aumentarem o número de trabalhadores em Portugal e muitas outas que ainda esperam a sua oportunidade para lançarem as suas operações em Portugal. Consequência disso mesmo é que em áreas tão distintas como as novas tecnologias e áreas de call-center e/ou apoio ao cliente praticamente esgotaram a capacidade de recursos em Lisboa e Porto e já têm de recrutar, inclusivamente, noutros países criando condições para estas pessoas virem viver para Portugal, nomeadamente através do aluguer de apartamentos.

Existe por isso a necessidade de reconverter pessoas de áreas com menor empregabilidade para estas onde existe uma enorme procura de trabalhadores. Aqui, o governo poderá desenvolver mais programas e cooperar com entidades privadas especializadas, ou mesmo com as empresas interessadas em recrutar para desenvolver esses programas.

Talvez por esta razão, num outro índice que mede o talento a nível global (Global Talent Competitiveness Index) e a capacidade de países e cidades atraírem, desenvolverem e reterem talento, Portugal aparece no 29º lugar. Para este ranking, os 4 pontos mais importantes são: sistema educativo que considera as necessidades dos empregadores e se adapta de acordo com as mesmas; um cenário comercial e regulatório flexível; um ambiente de trabalho onde seja possível aos trabalhadores terem flexibilidade de horários e protecção social; e governos que promovam a abertura. Claramente, temos de melhorar na regulação e flexibilidade de contratar e despedir, bem como no sistema educativo, não por causa de mais um ranking, mas acima de tudo para nos tornarmos mais competitivos e capacitados para enfrentar as grandes mudanças que se avizinham. Este índice refere ainda que, neste mundo instável e em rápida mudança, ter acesso a um bom conjunto de talentos não é suficiente. Os países e as cidades precisam de se esforçar para garantir a diversidade do talento e demonstrar compromisso na implementação de cultura de inclusão.

Mas não basta sermos um País fantástico para expatriados ou dos mais seguros do mundo, se depois não tivermos empregos atractivos capazes de atrair e reter talento nacional e internacional e acima de tudo de termos sectores ou nichos de mercado onde sejamos líderes.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.