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Dê-se...mais valor!

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Quando alguém conquista algo incrível, alcança resultados extraordinários, tem um surpreendente êxito, existe uma tendência acentuada para falar muito pouco acerca do assunto. Pode até escondê-lo, ou mesmo sentir um certo rubor na face quando alguém se refere ao acontecimento, assim como a imediata necessidade de o desvalorizar

Num país à beira mar plantado, com sol quase todo o ano, vive um povo que aparenta padecer de uma espécie de “Síndrome da humildade castradora”. Muitos dos que nele habitam, parece desconhecerem completamente o seu valor, enquanto outros, têm uma enorme dificuldade em falar sobre o seu talento, capacidades e sucesso.

Mais chocante! Quando alguém conquista algo incrível, alcança resultados extraordinários, tem um surpreendente êxito, existe uma tendência acentuada para falar muito pouco acerca do assunto. Pode até escondê-lo, ou mesmo sentir um certo rubor na face quando alguém se refere ao acontecimento, assim como a imediata necessidade de o desvalorizar e relativizar com afirmações como: “ah isso não é nada!”, “qualquer um faria o mesmo”, “preciso me dedicar muito mais”…

E isto tem passado de geração em geração, de pais para filhos, de filhos para filhos…um povo de conquistadores que precisa acreditar muito mais no seu valor!

Sabe o que contribui decisivamente para o Quaresma e o Ronaldo atingirem resultados brilhantes? Eles conhecem e afirmam o seu valor.

Mas por que razão não podemos falar sobre o nosso valor? É pressuposto que não o tenhamos? Beneficia alguém pensar desta forma?

Por que raio havemos de sentir uma espécie de pudor ou mesmo vergonha em falar sobre as nossas conquistas e sobre as nossas aptidões que as permitem?

O que está por detrás deste “não se dar valor” e desta interpretação tão perversa, quanto sórdida, do que é ser humilde, que se arrasta a todas as relações e faz com que muita gente sinta que nunca é suficiente? Ou talvez faça com que muitas pessoas se sintam sempre insuficientes?

Vou contar-vos uma história que aconteceu comigo há uns tempos:

Fui a um aniversário e era suposto levar algo para comer. Fiz uma salada de frutas com todas as frutas possíveis e imaginárias. Cheguei à festa, coloquei em cima da mesa, e passados alguns momentos, retirei um pouco para mim, e disse: “hummm está uma delícia! Quem quer experimentar?” Alguém que estava próximo respondeu: “Se já o disse, já não precisa que diga nada!” Sorri e pensei: “mas o que é isto???? Porque é que eu não devo dizer que a salada está boa e ficar à espera de que o digam?” Este dever, obrigação, ou espécie de castração para mim não faz qualquer sentido. E pensei: vou escrever sobre isto!

Parece-me que tal como muita gente confunde Amor com desamor, também muita gente confunde humildade genuína com humildade parva e castradora. Humildade genuína é dizer o que se pensa e sente sobre si próprio tendo plena consciência da sua imperfeição, fragilidade e vulnerabilidades. Não é dizer aquilo que os outros querem ouvir e sentir aquilo que os outros querem que sintamos. Isso é limitante e castrador!

A crença que dita que não pode falar sobre como se vê, sobre as suas capacidades e sobre o que faz bem, parece-me completamente retrograda para não dizer estúpida.

Sentir vergonha de o partilhar e esperar que os outros o vejam, o reconheçam e valorizem, pode fazer com que viva a sua vida por um lado, na dependência da atenção dos outros e por outro, dependendo da opinião dos outros para saber quem é, o que lhe garanto que é tudo menos saudável sob o ponto de vista mental.

Não permita que a sua preocupação em ser rigorosamente humilde e cumprir o inventado por alguém que não conseguia gostar do que via quando se via ao espelho, moldem e castrem a sua espontaneidade e a revelação do quanto gosta de si, se sente bem e grato com aquilo que fez, ou acontece na sua vida.

Que sentido faz esconder que tem um talento especial, capacidades raras, aptidões que lhe possibilitam desafiar-se e conseguir fazer coisas bonitas dignas da sua admiração?

Não, não é narcisismo, nem egocentrismo. É dar-se valor!

Por que razão tem de fingir para os outros que o que fez não é assim tão importante, não é assim tão bonito, ou não está assim tão bem-feito?

Sabe quem trai? Sim, a si próprio com todas as consequências daí advenientes! A desvalorização sistemática dessas mesmas pequenas e grandes conquistas, vai influenciar diretamente a sua autoestima e autoconfiança. Quem se sente bem a desvalorizar constantemente tudo aquilo em que investe o seu esforço, afirmando não ter assim tanta importância e negando o seu valor?

O mais importante é você aprender a valorizar essas mesmas competências e resultados, e dar-se ainda mais valor!

Todos os dias conheço mais algumas pessoas que parecem desconhecer completamente o seu valor e que passaram anos a fio à espera de que os outros o reconhecessem. O sucesso tão surpreendente quanto alarmante das redes sociais é a prova mais que óbvia dessa mesma realidade. Nelas, muitas pessoas aferem diariamente o seu valor mostrando o seu corpo. Já pensou porque sentem necessidade de o fazer? Talvez seja porque andam muito distraídas quanto ao seu verdadeiro valor!

Escute-se a si próprio e experimente descobrir ainda melhor o seu valor. O mais importante não é que o grite aos sete ventos, mas que não o esconda. Que se sinta livre para o verbalizar na hora que lhe apetecer, sempre que lhe apetecer, não temendo os comentários de quem quer que seja. Que não se deixe castrar por essas mesmas vozes que lhe impõem uma humildade que não lhe serve para nada, a não ser para eles próprios se sentirem menos ameaçados. A inveja e a pressão sobre os outros, no sentido serem humildes, infelizmente andam de mãos dadas.

Tome nota! Quem não consegue aceitar que você é um ser humano com um valor incrível, não gosta de si. Pelo contrário, quem gosta de si, conseguirá ver esse seu valor, tudo fará no sentido de lhe acrescentar algo e de crescer ao seu lado.

Não esqueça: O seu valor é único, inquestionável, não negociável e ninguém tem o direito de lhe dizer que não está a ser humilde quando expressa e afirma “eu consigo” e “eu sou capaz”!

Liberte-se desse síndrome tão português da humildade castradora e seja genuína e simplesmente humilde. Não precisa esconder que tem orgulho em si e naquilo que consegue alcançar.

Não permita que comentários como “falta-te humildade” lhe usurpem a vontade e a coragem que tem dentro de si e o façam deixar de agir!

Que eles sirvam exatamente para o levarem onde quer e acredita chegar, expressando o que pensa e o que sente, não quando os outros o consentem, mas quando decide que chegou a hora de acontecer!

Faça da sua vida uma salada de frutas multicolorida e afirme especialmente para si, alto e em bom som: “Está Muito Boa!”

www.margaridavieitez.com

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Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .