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Infeção urinária em bebés e crianças – quando pensar e como diagnosticar?

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Hugo Rodrigues

PhotoAlto/Ale Ventura/ Getty Images

O pediatra Hugo Rodrigues diz o que deve ser feito quando os mais novos têm uma infeção urinária

O que é?

O termo infeção urinária é um pouco vago, pois compreende, pelo menos, duas situações distintas: a cistite (também chamada infeção urinária baixa ou da bexiga) e a pielonefrite (situação mais grave, em que já existe um atingimento dos rins e que se associa a febre). Na prática, trata-se de uma infeção que vai atingir o sistema urinário ou parte dele. É relativamente comum em pediatria e, ao contrário do que acontece com os adultos (em que se faz o tratamento com antibiótico e não se justifica mais nenhum procedimento), é sempre necessário tentar perceber se existe algum factor de risco ou malformação que justifique o seu aparecimento. Para isso, é normal fazer-se uma ecografia aos rins depois de uma destas infeções, para ver se está tudo bem. Há outros exames que se podem fazer também, mas a sua realização depende geralmente do resultado da ecografia.

Como se diagnostica?

O diagnóstico destas situações é feito sempre com recurso a uma análise de urina. Existem 3 tipos principais de análise: a tira-teste, que fornece resultados praticamente imediatos, mas sem grande precisão diagnóstica; a urina tipo II, ligeiramente mais precisa; e a urocultura, mais demorada (demora cerca de 3 dias até ter o resultado definitivo), mas é a única que dá um diagnóstico fiável sobre a infeção urinária.

Enquanto as crianças usam fraldas, o método de recolha ideal é a algaliação ou, nos bebés mais pequenos, a punção vesical (com uma agulha pica-se a parte inferior da barriga para chegar diretamente à bexiga). São métodos um pouco invasivos, pelo que geralmente se tenta uma primeira colheita por saco (que se cola diretamente na pele dos bebés). De qualquer forma, este tipo de colheita acarreta um risco de contaminação que pode chegar aos 65% e torna-se imprescindível a confirmação dos resultados positivos por algaliação.

A suspeita de uma infeção urinária é outra das dificuldades com que nos deparamos, pois os sintomas clássicos do ardor ao urinar, o urinar «às pinguinhas» e, muitas vezes, dor na parte inferior da barriga, só são valorizáveis nas crianças mais velhas, particularmente a partir do momento em que conseguem controlar a urina. Assim, a suspeita em bebés mais pequenos assenta sempre em sintomas menos específicos, tais como a irritabilidade, a febre sem causa aparente, a recusa em comer ou a má evolução de peso, entre outros. Se houver antecedentes de malformação renal ou de outras infeções urinárias, a hipótese deste diagnóstico torna-se mais provável e deve ser investigada, se clinicamente relevante.

Como se trata?

O tratamento implica antibiótico, mas a sua duração varia consoante o caso. Também a decisão de internamento vai depender de inúmeros fatores, nomeadamente:

• tipo de infeção (pielonefrite vs. cistite)

• idade da criança (abaixo dos 3 meses implica sempre internamento)

• outros sintomas acompanhantes, nomeadamente os vómitos, que impossibilitam o tratamento por via oral

O seguimento destas crianças pode implicar o recurso a um antibiótico em baixa dose, para prevenir novas infeções urinárias, particularmente naqueles com malformações significativas ou então com infeções urinárias de repetição. No entanto, cada vez se limita mais o recurso a esse tipo de tratamento, pois os estudos demonstram que parece ser menos eficaz do que se estava à espera, com o risco real de induzir o surgimento de resistências.

O risco de fazer uma infecção urinária aumenta significativamente sempre que existe alguma malformação do aparelho urinário ou então quando existe uma história prévia de infecção urinária. Por esse motivo, qualquer criança que pertença a um destes grupos deve realizar uma análise de urina sempre que fizer febre, enquanto usar fraldas, para descartar este diagnóstico.

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Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues

PEDIATRIA

Hugo Rodrigues é pediatra no hospital de Viana do Castelo e docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto e na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Pai (muito) orgulhoso de 2 filhos, é também autor do blogue "Pediatria para Todos" e do livro "Pediatra para todos"