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As muitas formas e a necessidade de expressar o amor (e o desamor também)

Tetra Images/ Getty Images

A expressão é o contrário da contenção. Expressar traz abertura, contacto e conexão ao outro. A não expressão traz fechamento, isolamento e desconexão. Expressar dá saúde e a contenção traz doença (mental e física)

Ainda mais verdade quando se trata de emoções. Quando queremos comunicar uma emoção, aquilo que o outro recebe nunca é exatamente o que eu quero comunicar. Aquilo que o emissor expressa é depois interpretado pelo recetor e essa interpretação é feita com o seu aparelho cognitivo que é uma lente de leitura da realidade e do mundo. Esse aparelho cognitivo resulta da nossa experiência de vida e com ele damos significado ao mundo. O que eu recebo do outro, daquilo que ele me diz, é sempre uma aproximação, influenciada por todo o meu background de vida e também pelas minhas necessidades. Encontrar palavras para transmitir as coisas do coração foi e será sempre difícil. E no que toca ao amor, ainda mais. Por isso é que existe a poesia.

Algumas pessoas têm mais facilidade do que outras para expressar amor. Algumas são introvertidas, reservadas, “frias” e pouco hábeis no uso de palavras amorosas. Mas as palavras não são a única forma de expressão do amor. Gary Chapman1 defendeu uma teoria sobre as cinco linguagens do amor, segundo a qual as pessoas tendem a expressar o amor da mesma forma que gostariam de o receber. Mas muitas vezes os parceiros usam linguagens diferentes o que gera mal entendidos e frustrações. A cinco linguagens do amor são, (1) Palavras de afirmação, ou seja, tecer elogios e reconhecimento à outra pessoa; (2) Dedicar tempo de qualidade, oferecer a sua presença, passar tempo juntos e dedicar atenção plena; (3) Dar presentes, oferecer coisas materiais, independentemente do valor económico (sejam flores roubadas ou diamantes); (4) Formas de servir, isto é, oferecer ajuda e participação em tarefas como, preparar refeições, limpar a casa, tratar da roupa, lavar o carro, trocar fraldas, tratar da manutenção do carro, etc; e (5) Toque físico, ou seja, procurar o contacto físico sem ser necessariamente sexual. O ser humano é antropologicamente feito para o contacto da pele, mas esta pode não ser a primeira linguagem para algumas pessoas que têm dificuldade com o toque.

Muitas vezes, a primeira linguagem para um, não é a mesma para o outro. E surgem desentendimentos e desencantos. Por exemplo, um dos parceiros expressa o seu amor oferecendo ajuda e serviços, ao tratar do carro do outro e ocupar-se de tarefas domésticas. Mas ao contrário, o companheiro está à procura de sinais de amor muito diferentes destes. O companheiro está a precisar de ouvir palavras e expressões verbais para se sentir amado e desejado. Mas não lhe vai pedir porque assume que o outro sabe o que ele precisa e, se não dá é porque não quer ou não é capaz. E como não recebe da maneira que gostaria, não se sente amado. E está assim montado o desencontro. Noutro exemplo, ele traz uma prenda cara e bonita mas ela quer atenção e ajuda com a casa e com os papéis do IRS. Quando recebe o presente fica irritada e sente-se “comprada” e desvalorizada. E ele sente-se mal tratado, apesar de ter trazido um presente cuidadosamente escolhido para lhe agradar. Porque somos pessoas diferentes, os parceiros podem ter ideias diferentes sobre o que constitui expressões de amor. O que um mais valoriza pode não ser o que o outro valoriza.

Talvez valha a pena uma boa conversa com o/a parceiro/a sobre estas questões. Como é que eu gosto de receber amor? E qual é a minha forma mais frequente de expressar amor? Qual é a linguagem de amor preferida do meu parceiro? Comunicar ao parceiro o que preciso, as minhas necessidades e saber quais são as dele. Dizer-lhe o que gosto de fazer para lhe mostrar o meu amor, ou que tenho feito pouco, ou muito ou nada. Perguntar-lhe como é que lhe chega tudo isto que tenho dado ou não dado.

E quando o amor acaba?

Um dia perde-se o encantamento, desligam-se os fios, o interesse esfuma-se, o desejo desaparece. Pode acontecer quase de repente ou de modo gradual. O fim do amor é um tema para outra crónica - ou várias -, por isso não vamos escrever sobre isso agora.

Quando um se desliga do outro e deixa de amar, a rutura antecipa-se. E é preciso comunicar isso ao outro. É essencial expressar o desamor. Se antes o amei, agora devo-lhe essa verdade. E por favor evitem as desculpas e os clichés do tipo “Eu não estou preparada… Eu é que não sou capaz…. O problema está em mim… etc”. E não mandem um SMS, nem usem o whatsapp ou outros canais digitais para o fazer. Comunicar o desamor faz-se offline, olhos nos olhos, frente a frente, da mesma maneira que antes lhe disse que o amava. Pode ser difícil, por várias razões. Porque não se quer magoar o outro e porque se trata de um confronto. Um confronto com a desilusão, com a perda e com o insucesso. Dizer ao outro “já não te amo, não te desejo” é um ato de coragem que não se pode deixar de ter. Comunicar o desamor de forma clara e inequívoca para não deixar o outro preso.

1 Gary Chapman, “The Five Love Languages: How to Express Heartfelt Commitment to Your Mate”, Northfield Publishing.

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Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, é psicóloga clínica, licenciada pela Universidade de Cpombra e doutorada pela Universidade de Salamanca. É professora e investigadora no William James Center for Research, ISPA – Instituto Universitário. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997. É Terapeuta Sexual formada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica em 1997, da qual foi presidente em 2013/14. É membro da International Academy of Sex Research e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar. www.anacarvalheira.com