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O orgasmo no mapa do prazer feminino. Parte II

Arman Zhenikeyev/ Getty Images

Os “gatilhos” que fazem disparar o orgasmo não são ainda completamente conhecidos mas, sabemos já de alguns ingredientes relevantes para esse galope final. A explicação da psicóloga clínica Ana Alexandra Carvalheira

O orgasmo é essa entidade frágil, fugaz e intensa, perseguida na jornada do prazer sexual. Todas o queremos, e quem disser o contrário é porque nunca o conheceu. Essa condição de “vir-se” é muito mais o contrário, ou seja “ir-se”, deixar-se ir, entregar-se e largar o controlo.

Para chegar ao orgasmo é preciso antes de mais um bom nível de excitação sexual. Mas não chega. Depois disto, é preciso fazer disparar o orgasmo. Há como que um “clique” que tem que acontecer, um gatilho que tem que se acionar para a escalada final. Muitas mulheres que me procuram por não conseguirem ter orgasmo dizem-me muitas vezes “Eu sei que estou quase lá mas…. falta um clique, um último passo”. Como se houvesse algum bloqueio nessa fase final e derradeira. E muitas vezes há mesmo. Os “gatilhos” que fazem disparar o orgasmo não são ainda completamente conhecidos mas, sabemos já de alguns ingredientes relevantes para esse galope final.

Ingredientes para a experiência do orgasmo

Em primeiro lugar a mulher precisa de estimulação adequada e suficiente. E estímulos adequados são aqueles que funcionam para aquela mulher. Cada uma precisa do que precisa, e para saber o que é, deve conhecer bem o seu corpo e saber o que acende e mantém a sua excitação sexual. E depois, de alguma maneira, com uma linguagem mais verbal ou corporal, deve ser capaz de transmitir isso ao parceiro/a, porque ele/a não os adivinha. E importa ainda saber que os estímulos que dantes funcionam podem já não ser eficazes agora, anos passados. A sexualidade da mulher muda ao longo da vida, e é um processo contínuo de descoberta. A idade acrescenta maturidade e favorece a perseguição mais livre do prazer. Aliás, é interessante notar que a consistência orgástica aumenta com a idade. Isto significa que a práctica ajuda muito.

Para além disto e não menos importante, o orgasmo exige entrega da mulher, ou seja, a capacidade de “deixar-se ir”. Esta entrega é uma espécie de baixar a guarda e largar as defesas mas, para isto é preciso confiar. A confiança em si própria e no parceiro/a é muito importante. Quando falo de entrega, estou a referir-me à capacidade da mulher se agarrar aos estímulos e permitir-se ao prazer. Este exercício pode não ser nada fácil numa cultura herdeira da tradição Judaico-cristã em que a socialização sexual das mulheres não é no sentido de perseguir o prazer sexual, mas muito pelo contrário, no sentido de contenção e repressão da excitação e do prazer.

Em terceiro lugar na lista dos ingredientes aparece a perda de controlo. Para ter um orgasmo é preciso perder o controlo e isto pode ser difícil e assustador para algumas mulheres. Na gíria e calão popular, para nos referirmos ao acto de ter um orgasmo a pessoa diz “vir-se”, como no inglês “to come”. Mas na verdade é o contrário que é necessário, ou seja, “ir-se”, deixar-se ir, “let go”. As mulheres com uma personalidade mais controladora têm mais dificuldade e na maioria das vezes o medo de perder ou largar o controlo não é um fenómeno consciente para elas. Esta condição está conectada com o aspecto anterior, a entrega. Ter um orgasmo implica entrega e perda de controlo. E mais uma vez isto pode ser difícil para algumas mulheres que estão treinadas para estar continuamente alerta, vigilantes e em controlo.

E por último mas não menos importante, para conseguir o orgasmo é preciso ter uma mente focada e concentrada. Isto significa que a mente não pode estar inquieta, distraída ou cheia de preocupações. Muitas vezes acontece durante a actividade sexual surgirem pensamentos sobre coisas que nada têm a ver com o que está a acontecer naquele momento. Estes pensamentos são invasivos e involuntários e a mulher pode nem dar-se conta deles. Chamamos a isto distração cognitiva durante a actividade sexual e muitos estudos já demonstraram que é uma das causas para as dificuldades com a excitação e o orgasmo nas mulheres. Os estudos revelam que a distração cognitiva afecta muito mais as mulheres do que os homens, talvez pelo facto das mulheres terem maior capacidade se ser multitasking, isto é, serem capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Contudo, esta habilidade tem um custo, que é a menor capacidade de concentração comparativamente com os homens que são mais capazes de colocar o foco na tarefa. E por isso, as mulheres têm mais pensamentos que as distraem dos estímulos sexuais onde deveriam estar focadas. Estes pensamentos podem ser sobre muito variados, por exemplo, sobre um problema no escritório, a reunião com o chefe no dia seguinte, a lista do supermercado, ou o trabalho de casa dos filhos. Um estudo* liderado por nós, com uma amostra portuguesa de 493 mulheres e 595 homens, revelou que a distração cognitiva das mulheres é sobretudo baseada na preocupação com a aparência física e auto-imagem. São pensamentos sobre o medo de não ser suficientemente atraente, de não agradar ao parceiro, de que este possa estar a ver partes do corpo de que ela não gosta, como a celulite e coisas afins. Estes pensamentos intrusivos durante o sexo acabam por impedir a concentração nos estímulos sexuais.

O que pode inibir o orgasmo nas mulheres?

Os factores perturbadores do orgasmo das mulheres podem ser vários e ainda nem todos conhecidos. Falamos basicamente de factores biológicos e psico-sociais. Os determinantes orgânicos que podem afectar o orgasmo são os mesmos que perturbam a excitação sexual. Lesões neurológicas podem interferir com a excitação e o orgasmo, por exemplo, acidentes vasculares cerebrais, esclerose múltipla ou esclerose lateral amiotrófica. Problemas que afectem os nervos periféricos como uma hérnia discal ou neuropatias. Igualmente a patologia endócrina pode afectar a fase de excitação na mulher, ou seja, a diabetes mellitus, doença de Addison ou doenças da tiróide. Alguns medicamentos também interferem com a excitação sexual, por exemplo alguns anti-depressivos (nem todos), hipnóticos, neurolépticos e alguns anti-hipertensores. Outras condições médicas a referir sem sermos exaustivos são traumatismos da medula espinal e uma cirurgia pélvica radical.

Se não houver factores orgânicos, avançamos para os psicológicos e socio-culturais, que são de vária ordem. Para simplificar, o que pode perturbar e inibir o orgasmo nas mulheres é a falta de algum dos quatro ingredientes antes mencionados. Ou seja, o medo de perder o control, o medo da entrega, a falta de estímulos adequados e a distração cognitiva durante a actividade sexual.

O medo é um grande inimigo do orgasmo. Medo de perder o controlo, medo do que vem a seguir, medo da entrega, medo de não ser atraente, entre outros, o medo bloqueia o orgasmo e o prazer. Personalidades muito controladoras também podem ter mais dificuldade com o orgasmo, tal como as mulheres mais ansiosas. A falta de conhecimento do corpo genital e dos estímulos eróticos também podem constituir um obstáculo ao orgasmo. Por um lado, a masturbação facilita a exploração e conhecimento da genitália feminina, e por outro lado, a experiência sexual permite a descoberta dos estímulos eróticos necessários à excitação. Para além disto, uma socialização sexual repressiva durante a infância e adolescência, numa cultura onde prevalecem as crenças religiosas que associam o prazer ao pecado, não ajuda mesmo nada o orgasmo nas mulheres, sobretudo das que são agora mais velhas. Mas há ainda outras variáveis de peso. Sem dúvida alguma, o consumo de álcool que é um inibidor do sistema nervoso central, e alguns fármacos, como por exemplo, alguns anti-depressivos que atrasam ou inibem totalmente o orgasmo e que tantas mulheres tomam. E para terminar esta lista exaustiva, temos que referir a distração cognitiva. Como já dissemos antes, as mulheres distraem-se durante o sexo com pensamentos muitas vezes involuntários. E esta distração fá-las largar os estímulos eróticos e assim a excitação é perturbada.

Com frequência se trata do medo da entrega e de perder o controlo. Isto no contexto de uma socialização sexual com valores machistas que permite a objectificação sexual da mulher. A vinheta da Isabel mostra isso claramente quando ela diz que foi preciso libertar-se de “preconceitos e de uma educação ultra-machista” para do alto dos seus 40 anos se permitir a conquista do orgasmo com um parceiro.

Escrevi sobre este e outros temas da sexualidade no meu livro Em Defesa do Erotismo (http://www.saidadeemergencia.com/produto/em-defesa-do-erotismo/)

* Carvalheira., A., Godinho, L., Costa., P. (2017). The Impact of Body Dissatisfaction on Distressing Sexual Difficulties Among Men and Women: the Mediator Role of Cognitive Distraction. Journal of Sex Research, 54(3): 331-340.

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Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, é psicóloga clínica, licenciada pela Universidade de Cpombra e doutorada pela Universidade de Salamanca. É professora e investigadora no William James Center for Research, ISPA – Instituto Universitário. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997. É Terapeuta Sexual formada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica em 1997, da qual foi presidente em 2013/14. É membro da International Academy of Sex Research e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar. www.anacarvalheira.com

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    Bolsa de Especialistas

    A experiência do orgasmo é subjetiva, variável e é difícil falar sobre ela porque. durante essa experiência, a nossa capacidade de observação está suspensa. Ainda assim, Ana Alexandra Carvalheira, psicóloga clínica, pediu a algumas mulheres uma breve descrição dessa experiência íntima que é o orgasmo