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Está desesperada/o para encontrar o Amor?

Konstantin Sud / Eyeem/ Getty Images

Sente que o Amor nunca mais chega? Talvez seja mesmo isso que atrapalha tudo: O desespero!

Imagine que está num deserto e há algumas horas não bebe água, não come, nem dorme. De repente, ao longe, vislumbra um oásis, com enormes lagos, vegetação, um sítio idílico, o paraíso.

Apesar do intenso cansaço, faz um enorme esforço e corre na sua direção.

À medida que se aproxima começa a ter a sensação de que o que parecia ser um oásis não passa de uma densa, escura e labiríntica floresta com alguns lagos lamacentos.

Ainda assim, decide correr o risco e entrar, apesar de todas as campainhas da sua mente gritarem: “Nãoooo entres!”.

Assim que dá o primeiro passo, sente vontade de voltar para trás. Olha ao redor, e quase volta. Mas a sede, a fome, a fadiga e o desespero impõem-lhe continuar, mesmo sabendo que se pode perder e que a água pode estar contaminada.

Caminha apressadamente floresta dentro, mas não resiste a olhar para trás, e, quando o faz, apercebe-se que, afinal, naquele deserto existiam muitos mais oásis por descobrir.

No entanto, não consegue voltar para trás porque a floresta se adensou mais e mais e mais…e, então, pensa que o melhor é começar a desbravar aquele lugar inóspito, acreditando de todo o coração que um dia nele nascerão árvores de fruto, encontrará deslumbrantes cascatas e fontes de água cristalina.

A sede e a fome de Amor fazem milhões de pessoas reféns e leva-as a entrar nas mais frias e temerosas “florestas”, procurando incessante e desesperadamente sentirem-se menos sós.

Apesar do frio gélido provocado pela ausência de afetos e de Amor, muitas delas, em vez de focarem a sua atenção em descobrir a saída, e correr dali para fora, teimam em continuar a andar em círculos, em beber água estagnada, em construir uma casa sem projeto, em respirar ar puro, num sitio onde irrompem sucessivos incêndios que tentam apagar, serenar, desculpar, negar…tudo para não voltar ao deserto da sua própria companhia.

Mas, pergunto: a companhia que fazemos a nós próprios tem de ser um deserto? Precisa mesmo de entrar “floresta” dentro a alta velocidade?

A epidemia de programas televisivos dos últimos meses mais não é do que a irrefutável revelação/prova de que o desespero para encontrar companhia (não Amor, porque, desculpem-me, recuso-me a acreditar que vão encontrar quem amem e quem as ame num programa de televisão casando com desconhecidos!) está na ordem do dia e faz milhões precipitarem-se “floresta” a dentro com medo de ficar solteiros e/ou sozinhos.

Sim, há cinquenta anos a pressão e estigmatização era ainda pior! Aos vinte e poucos anos, quem não tinha namorado ou não era casado, corria o risco de ter o rótulo de “encalhado”, embora no que respeita aos homens a pressão fosse menor.

Hoje, a pressão social, cultural, os estereótipos, as crenças e preconceito continuam. A mentalidade mudou muito pouco. Mulheres e homens sentem essa pressão. A sociedade continua a alimentar a ideia de que apenas as pessoas que tem uma relação são “completas”. A auto-pressão de ter um namorado/a, independentemente de se conhecer as razões para o querer ter, nasce e cresce de forma desmedida dentro da mente de muitas pessoas, impondo-se a si próprias conseguir encontrar um Amor em tempo recorde ( ou será companhia?!) com uma desmedida exigência que chega, em certos casos, a tornar-se obsessiva, como se fosse completamente impossível sentir-se bem ainda que não tendo um companheiro/a.

Muitas pessoas impõem-se, exigem-se, pressionam-se a ter um companheiro/a, ainda que seja tudo menos companheiro/a. A pressão familiar continua a ser grande e muitos pais pressionam os seus filhos para encontrarem namorado/a, casarem e terem filhos, como se de um dever se tratasse.

Muito para além de ser amado e amar, impera a filosofia de não estar só, sob pena de ser “esquisito”, “estranho”, ou qualquer coisa se passar.

Ter uma relação por ter! Ter uma relação para ser! As duas hipóteses são uma realidade e motivo para começar uma relação. Não admira que a maior parte acabe tão depressa.

Este desespero de ter de encontrar alguém porque se teme ficar sozinho pode, inclusivamente, transformar-se numa fobia! Aliás, até já lhe inventaram o nome: chama-se anuptafobia e traduz-se no medo, senão pânico, de não conseguir encontrar um companheiro e de ficar solteiro/a o resto da vida.

Muitas pessoas chegam mesmo a verbalizar não se sentirem completas e sentirem-se condenadas a ficar sozinhas, como se de uma profecia se tratasse.

E, quanto menos jovens são, mais esta pressão se agrava, o que não significa que não existam mulheres e também homens na faixa dos vinte e trinta a experienciá-lo. Existem, e cada vez são em maior número as pessoas que acordam a pensar “mais um dia sozinho” e se deitam a pensar “mais uma noite na solidão”, “não estou a procurar bem!”, “tenho de fazer algo”, ou “o que tenho de errado?”.

O perigo que estas pessoas correm quando conhecem outras, nas redes virtuais, em saídas à noite com amigos, ou mesmo quando se aproximam de alguém, é o de a sua voracidade em ter companhia, carência afetiva e dificuldade em estar sozinho “engordar” tanto as suas expectativas, que passam a ver príncipes e princesas em lagos onde só vivem sapos e rãs.

Mais perigoso ainda é o medo da perda e do abandono que alimenta a sua permanência nessas relações e os leva a esquecerem-se de si, a fazer o que não querem e a aceitar o inconcebível e inaceitável só para não ficar sozinhos. E isto é grave!

E pergunto: O que será pior? Estar sozinho ou ter alguém na sua vida que não ama ou não sabe amá-lo e o faz sentir ainda mais sozinho?

Qual das duas solidões será a pior?

Será que a zanga consigo próprio de estar onde não quer estar, com a pessoa que não quer estar, aliada à solidão que sente, ainda que acompanhado, não é razão mais que suficiente para se perdoar, dar meia-volta e voltar, ainda que ao deserto, pois é lá que se encontram verdadeiros oásis?

E vai perguntar-me: E se não encontrar? Vou morrer sozinho no deserto?

Sabia que mesmo no deserto a sua companhia é uma boa companhia?

Sabia que no deserto, existe a possibilidade de se sentir admirado, valorizado, acompanhado e muito amado? Sabe por quem? Por si!

E quando isso começar a acontecer, não vai mais entrar em “qualquer coisa” que lhe parecer um oásis. Vai contorná-lo e observá-lo primeiro, conhecê-lo e só depois escolher entrar, ou escolher partir, acreditando que muitos outros oásis existem.

Sabe quem escreve o argumento desse filme passado no deserto?

Você! No dia em que decidir mudar o “cenário” vai começar a escrever uma outra história e a sentir que quem decide é o seu “eu”, não o seu desespero.

E, nem pense em ser perfeito para corresponder e não ficar sozinho, porque não vai resultar. Ninguém quer namorados perfeitos, porque também não o são, e isso além de criar irritação, cria insegurança no outro e propicia paradoxalmente o abandono.

Pergunte-se:

Para que quero um namorado?

Quer uma companhia ou quer estar numa relação?

Será que essa pessoa está a ser apenas uma “bengala” para o seu desamparo existencial? Ou será que é o seu “troféu”?

Pode ter acontecido ter experienciado situações de perda, abandono, negligência ou outras experiências que lhe deixaram marcas profundas e o fizeram acreditar que não é ninguém se não tiver uma companhia. A sua mente acreditou nisso e agora impõe-lhe essa “mentira”. É preciso saber de onde vem, desconstruí-la e trabalhar a forma de se vincular de forma saudável sem precisar de uma “boia de salvação”. Aprender a nadar no mar das suas emoções, deitar o lixo no lixo, inclusive a dependência, porque você não precisa na sua vida de pessoas e amores tóxicos que o façam sentir menos só, mas de pessoas mentalmente saudáveis, capazes de construir uma relação de afeto, partilha e cuidado emocional, assente no respeito e no Amor, não em medos, receios e apegos.

Dê tréguas à procura de um companheiro, vire-se para si, ame-se e cuide-se com um amor genuíno, invista em si, aprenda a relacionar-se consigo e a fazer-se companhia.

Estamos aqui para crescer em Amor, não para depender do Amor dos outros.

Precisamos dele? Sim, mas para o conquistarmos primeiro temos de nos conquistar.

Comece por aprender e desafiar-se a respirar sozinho, a andar, a passear, a alegrar-se sozinho. Estar solteiro é bom, não é o fim do mundo. É o início de tudo!

Permita que a vida aconteça dentro de si simplesmente. Deite os desesperos, dependências e vitimização pela janela. Pensar precisar de alguém para sentir-se amado é apenas uma mentira inventada pela sua mente ou por alguém, e, além de não lhe fazer bem algum, pode fazer-lhe muito mal.

Confronte os medos e desenvolva habilidades para lidar com eles.

Não é por estar euforicamente à procura que vai encontrar o Amor. Pelo contrário, o que vai encontrar são pessoas igualmente desesperadas na ânsia de resolverem todos os seus fantasmas na primeira oportunidade que lhes aparecer.

Não se deixe cativar (ou será deslumbrar?!) por meia dúzia de elogios ou palavras bonitas. Dê-se valor!

Lembre-se: Amor e desespero são realidades inconciliáveis.

Para o Amor acontecer é necessário conhecer, e conhecer requer tempo, não desespero.

Dê uma oportunidade ao Amor, não ao desespero!

Se for Amor sentirá e será, se for desespero apenas terá, ou nem isso, e a fantasia essa… não durará!

www.margaridavieitez.com

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Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .