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Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

ESTUDOS ISLÂMICOS

Moçambique vai continuar a precisar de nós

Andrew Renneisen/Getty Images

A solidariedade não pode ser apenas um ímpeto imediato, enquanto a TV mostra as imagens da tragédia. A ajuda a Moçambique deve traduzir-se na mobilização de recursos para estarem no terreno meses e anos

É uma felicidade ver a mobilização da sociedade civil e dos media, nomeadamente da Trust in News, com quem tenho a honra de colaborar, no sentido de contribuir, de todas as formas, para que os nossos irmãos moçambicanos consigam ultrapassar esta tragédia que se viveu com a passagem do ciclone Idai. Portugal e os portugueses são sempre tão humanos nestas e noutras circunstâncias de dor! É isto, além do clima, de que me vanglorio mais junto dos meus amigos muçulmanos Ismailis de outras nacionalidades.

E é notável também assistir a chamadas de atenção para que: 1) que não se faça negócio com a tragédia dos outros, como fez a Associação Esmabama; 2) que se confie nas agências de ajuda internacional, como a Amnistia Internacional e a Cruz Vermelha Portuguesa.

Às agências devemos pedir: 1) que sejam muito claras relativamente ao uso, objetivos e resultados das suas intervenções no terreno; 2) que reforcem a confiança dos que nelas depositam a esperança de fazer o que individualmente nenhum de nós consegue fazer. É crucial assim proceder para que continuemos a confiar e a acreditar nas mesmas.

Acima de tudo, desejo que a solidariedade não passe de um ímpeto imediato apenas de sermos movidos pela compaixão humana só enquanto a TV mostra repetidamente as poucas imagens conseguidas até ao momento. Sim, porque, temos de ser honestos: as imagens mediáticas podem mexer com emoções humanistas e humanitárias, mas que duram só o tempo das noticias. É preciso que imaginemos que, das cerca de 500 pessoas mortas e outras milhares acidentadas, alguma delas poderia ser um de nós, ou um membro da nossa família imediata, e cujo trauma terá de ser superado mesmo depois de a elas chegar alguma energia, medicamentos, água potável e mais qualquer coisa. Moçambique precisa agora mais de nós, mas tem precisado desde sempre. Os 500 anos de colonização portuguesa não deixaram eletricidade, nem água potável, para não falar de outras condições básicas, em regiões como em Pemba, Bilibiza, Ibo, Inhambane, só para referir algumas, que tive oportunidade de conhecer diretamente, em 2008, num trabalho para o Público, a convite da Rede para o Desenvolvimento Aga Khan. Entre muitas outras coisas, o nível de pobreza e de iliteracia é brutalmente desigual ao dos portugueses deste Portugal.

Que a ajuda a Moçambique não se resuma à ajuda humanitária desde o ciclone Idai e morra quando as imagens da TV se esgotarem. Que a ajuda a Moçambique se traduza na mobilização de recursos humanos e materiais para estarem no terreno, nos próximos meses... e anos... contribuindo, sempre que possível, em regime de voluntariado, e com a mesma generosidade, com o nosso tempo e conhecimento, para ajudar as suas gentes a recuperar desta e doutras tragédias – a maior de todas – a de não ter ainda conseguido viver condignamente. Seremos capazes? Eu acredito que sim.

Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

ESTUDOS ISLÂMICOS

Faranaz Keshavjee nasceu a 11 de Janeiro de 1968, em Moçambique, na então capital Lourenço Marques e chegou como “retornada” a Portugal, em Setembro de 1974, aterrando no Bairro Alto, bem no meio das ruas estreitas e carismáticas por onde passavam o fado, as varinas e os travestis.

O fascínio e o gosto pelo estudo e investigação nas ciências sociais e humanas levaram-na a estudar primeiro para uma licenciatura em Antropologia Social e depois um Mestrado em Psicologia Social no ISCTE, seguindo depois para o Reino Unido onde se especializou em Estudos Islâmicos e Humanidades, no Institute of Ismaili Studies em Londres, e prosseguindo a sua investigação para um doutoramento na Universidade de Cambridge. As questões de género e identidades sociais dos muçulmanos em Portugal fizeram parte dos seus trabalhos académicos. Quando regressou a Portugal trabalhou no Centro Ismaili como consultora académica, e deu aulas nas Universidade Católica, Lusófona e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Traduziu obras académicas sobre o Islão, foi conferencista em debates nacionais e internacionais, cronista no Público e bloguer no Expresso. O 11 de Setembro foi a data a partir da qual passou a ser referência incontornável nas discussões, entrevistas e publicações sempre que se tratasse de questões ligadas ao Islão e às sociedades muçulmanas.