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Catarina Marcelino

Catarina Marcelino

CIDADANIA E IGUALDADE

Não sou intolerante, mas….

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É preciso assumir com clareza e sem titubear a posição de partida, para que o debate se faça sem reservas, frontalmente, sem refúgios nos “mas” e nos fingimentos de tolerância e de grande espírito democrático que são só balelas de quem tem pudor de assumir-se intolerante e que contribui para os extremismos e para os retrocessos civilizacionais

É comum ouvirmos comentários do género: eu até tenho amigos negros, não sou racista, mas…., eu conheço muitos homossexuais, mas…, eu não tenho nada contra os ciganos, mas…e assim por diante.

Diz o provérbio popular que o diabo está nos detalhes e aqui o detalhe é o “mas”, e através desta expressão vamo-nos convencendo de que não temos preconceitos, justificando através de um qualquer detalhe a atitude intolerante de muitos e muitas de nós.

Entre os “mas” e esta auto-desculpabilização vai-se justificando uma sociedade repleta de comportamentos racistas, homofóbicos e machistas, encapotados numa ideia coletiva de que somos uma sociedade moderada e branda nos costumes.

É preciso encarar de frente esta realidade e travar o debate que se faz sobre a diferença e a diversidade, com frontalidade e assumindo todos os “mas”. É fundamental que se promova a educação para os valores democráticos e de Direitos Humanos de modo a erradicarmos este mesquinho “mas”.

Esta semana estalou uma polémica, sobre o trabalho que a Rede Ex aequo faz nas escolas no âmbito da educação para a cidadania. Um deputado do PSD insurgiu-se nas redes sociais contra esta organização, acusando-a de impor uma “doutrina” nas escolas e intitulando-a de duvidosa.

Este deputado, depois de afirmar que não é homofóbico, que tem amigos homossexuais, também utiliza o “mas” para fazer afirmações, baseadas na ignorância do desconhecimento sobre o trabalho da Rede Ex aequo nas escolas.

Esta polémica traz à coação um debate profundo que existe na sociedade entre aqueles e aquelas que defendem a liberdade de escolha e os que defendem modelos conservadores de imobilidade nos valores sociais.

E este é verdadeiramente o debate que importa, um debate sobre o modelo de sociedade que queremos. Foi o debate no referendo da interrupção voluntária da gravidez entre os que defendiam o sim e os que defendiam o não, foi o debate na lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a lei da identidade de género, e é o debate da educação para a cidadania, o debate da educação sexual nas escolas, que nas últimas décadas tem dificultado a sua implementação, porque nos últimos 25 anos há sempre “casos” que os intolerantes usam para minar a sua implementação.

A pretexto da liberdade de expressão, a dinâmica de quem tem uma agenda ideológica ultraconservadora vem acusar quem defende a liberdade de escolha de querer impor uma ideologia, de querer impor um pensamento único que atenta contra a liberdade.

A crítica não é uma imposição, é um exercício de cidadania democrática que devia ser assim compreendido. Os arautos do “mas” mascaram-na de ataque à liberdade de expressão, assumindo um papel de vitimização que é inaceitável, como se não fosse tão legítima a crítica que lhes fazem, como defendem ser a sua opinião contra a pluralidade.

Há muita perversidade nesta narrativa que importa esclarecer. Defender os Direitos Humanos, onde se insere a igualdade e a identidade de género, não é ideologia, mas sim um referencial das Nações Unidas e do Conselho da Europa, aceite pelo país, através de tratados ratificados pelo Estado Português.

A demagogia subjacente a este discurso ultraconservador atinge por vezes níveis de extremismo e radicalismo, como por exemplo quando acusam as organizações não-governamentais que trabalham nas escolas no âmbito da igualdade e dos direitos de “doutrinarem” as crianças para a homossexualidade, para serem contra as famílias heterossexuais ou de as incentivar a uma vida sexual ativa.

A estratégia de ataque através das polémicas levantadas, só está na ordem do dia porque a disciplina de Educação para a Cidadania mais estruturada e integrada no currículo e no sistema de avaliação, promovendo o pensamento crítico das crianças e jovens, trazendo referenciais de Direitos Humanos para a educação formal em Portugal, voltou a desafiar esta dinâmica intolerante de alguns setores da sociedade portuguesa em que muitos dos seus correligionários fingem ser liberais nos costumes, mas…

A capacidade de aceitar a diferença e a diversidade é fundamental para uma sociedade tolerante. É fundamental compreendermos que a discussão que está latente é sobre uma visão de sociedade que aceita as diferenças e as escolhas de cada um e de cada uma e outra visão que quer impor comportamentos e modelos únicos que não aceitam a diferença.

É preciso assumir com clareza e sem titubear a posição de partida, para que o debate se faça sem reservas, frontalmente, sem refúgios nos “mas” e nos fingimentos de tolerância e de grande espírito democrático que são só balelas de quem tem pudor de assumir-se intolerante e que contribui para os extremismos e para os retrocessos civilizacionais.

Catarina Marcelino

Catarina Marcelino

CIDADANIA E IGUALDADE

Nasceu no Montijo. Licenciou-se em Antropologia pelo ISCTE. Construiu o seu percurso de ativismo cívico e político através de experiências de voluntariado na AMI, Comunidade Vida e Paz, na Liga Portuguesa Contra a Sida e como dirigente das Mulheres Socialistas. Trabalhou em Câmaras Municipais, foi Adjunta do Secretário de Estado da Segurança Social e Presidente da CITE. Foi Secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade e é Deputada à Assembleia da República pelo Partido Socialista.