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A automação do trabalho: perder ou ganhar empregos?

Ekkasit Keatsirikul / EyeEm/ Getty Images

Devemos preocupar-nos com a automação? Sim! Vamos perder postos de trabalho? Sim! Vamos ganhar outros? Sim!

Estas foram algumas das conclusões de um estudo apresentado em Janeiro pela CIP (Confederação Empresarial de Portugal), denominado “Automação e o Futuro Do Trabalho Em Portugal”, que foi desenvolvido em parceria com o McKinsey Global Institute e a Nova SBE. Este estudo teve como objectivos perspectivar o impacto da automação no futuro do trabalho e avaliar o potencial de automação da economia portuguesa até 2030. Para tal analisaram 800 profissões, 2000 tarefas desempenhadas em diversos sectores de actividade, identificaram 18 competências de base necessárias para desempenhar qualquer posição e a capacidade de automação de cada uma delas.

Portugal tem um elevado potencial de automação e, consequentemente, risco de perda de empregos. A nossa economia conta ainda com alguma indústria transformadora, mas nem sempre actualizada face a novas tecnologias, pelo que com a implementação destas continuaremos a assistir à substituição de homens por máquinas.

Mas este não será o maior desafio para Portugal, será antes o da reconversão de trabalhadores. Desafio esse que não poderá ser enfrentado somente pelos trabalhadores, individualmente, ou pelo sector privado, o Governo terá, obrigatoriamente, de ter um papel muito activo nesta matéria. Sobretudo, por estarmos numa fase em que a segurança social está numa situação de “pré-falência”, pelo que será impossível financiar todas as pessoas que fiquem desempregadas e as que optem pela reforma. Em anteriores vagas tecnológicas, como eram mais lentas e o estado tinha maior capacidade financeira, a reforma antecipada era um dos caminhos a seguir sem que isso fizesse tocar o “alarme social”.

Conclusões do Estudo

- Cerca de 50% do trabalho realizado em Portugal já o pode ser através de inteligência artificial, automação e robótica;

- Com a implementação da tecnologia, até 2030, Portugal pode perder até 1,1 milhões de postos de trabalho, com grande impacto no comércio e na indústria transformadora;

- A mesma tecnologia poderá criar, até 2030, entre 600 mil a 1,1 milhões de novos empregos, com especial incidência nos sectores da saúde, assistência social, ciência, profissões técnicas e construção;

- Pelo menos 700 mil trabalhadores necessitarão de melhorar as suas competências ou mudar de emprego até 2030.

A implementação de novas tecnologias tem como objectivos: aumentar a produtividade, melhorar o lucro das empresas e, concomitantemente, melhorar a vida das pessoas. O verdadeiro impacto da tecnologia ainda está para chegar aquando da proliferação de sistemas de inteligência artificial.

Este processo está a levar ao desaparecimento de profissões e ao nascimento de outras. O problema principal é que as profissões novas requerem novos skills e competências que muitas vezes não existem nas profissões que desaparecem, pelo que terá, obrigatoriamente, de existir uma reconversão profissional de muitos trabalhadores.

Decisão estratégica: liderar ou seguir?

O cenário base exibido na conferência de apresentação deste estudo foi o de apenas de 26% (do potencial total de 67%) do tempo de trabalho a ser automatizado, ou seja, o cenário que projecta a perda de 1,1 milhões de postos de trabalho poderá ser uma estimativa em baixa, caso a tecnologia evolua mais rapidamente ou a existente seja aplicada de forma mais célere. Também se pode argumentar o contrário, mas com base no estudo existe uma correlação negativa entre as funções criadas e as que desaparecem.

Este estudo ajuda-nos a perceber o “estado da nação”, mas, por outro lado, também devíamos perceber porque estamos a demorar tanto tempo a adoptar novas tecnologias. Deveríamos tirar mais partido da automação e da tecnologia, sendo líderes na implementação e na inovação, não ficando somente na expectativa e esperar que outros o façam.

A tónica do discurso deveria estar no “como Portugal pode liderar este processo transformacional e como podemos ter uma economia mais tecnológica”. Para quê? Para poder libertar as pessoas para tarefas de maior valor acrescentado e não ter milhares de pessoas em tarefas meramente repetitivas e transacionais. Só assim poderemos melhorar os nossos rácios de produtividade face a outros países. Caso não o façamos vamos continuar sempre a crescer menos e a aumentar o fosso para os países que mais se desenvolvem, pois são esses que tipicamente lideram estes processos de transformação e automação.

Portugal deverá escolher alguns sectores ou indústrias que sejam estratégicas para o País e criar as condições para as desenvolver. Não vamos conseguir ser bons em tudo, pelo que será fundamental ter um plano estratégico que defina quais os sectores tecnologicamente avançados que queremos, e podemos, liderar. Temos de ter a coragem de sermos agentes de mudança e deixarmos de ser seguidores. Haverá, obviamente, sectores em que vamos seguir outros, mas esses não devem os estratégicos para o nosso crescimento e posicionamento como País e sua correspondente proposta de valor. No mínimo devemos ser o que se apelida por fast follower, ou seja, aqueles que apesar de não serem os criadores são os que mais rapidamente adoptam as novas tecnologias, e os Portugueses têm uma excelente capacidade de adaptação, somos, por exemplo, um País onde algumas multinacionais testam os seus produtos por forma a perceberem se têm aceitação de mercado.

Liderar na automação pode ser um caminho para o sucesso, mas precisamos de ter gestores e governantes com visão a médio e longo prazo, pois esta transformação nunca poderá ser efectuada numa lógica de gestão a curto prazo, até porque aí o impacto poderá ser, aparentemente, negativo e os resultados só serão possíveis de quantificar mais à frente.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.