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Será possível trabalhar somente 4 dias por semana?

D.R.

Em Portugal continua a ser prática comum as 10, 12 ou mais horas de trabalho diárias, 5 dias por semana

Numa fase em que este sistema começa a ser colocado em prática, torna-se inevitável a questão: será que em Portugal seria possível fazê-lo? A resposta imediata é: Não! Para que isso aconteça temos de mudar mentalidades, aumentar produtividade, aumentar salários e, claro está, ter empresas lucrativas e uma economia mais robusta.

Em Portugal continua a ser prática comum as 10, 12 ou mais horas de trabalho diárias, 5 dias por semana. Continua a existir o preconceito sobre aqueles que conseguem fazer as suas tarefas e sair a horas (depois de 7 ou 8 horas de trabalho). Continua a confundir-se quantidade com qualidade, e enquanto for assim é impossível pensar em semanas com 4 dias de trabalho ou, até, na “simples” redução para 6h da jornada diária de trabalho (outro sistema que também já se encontra a ser testado).

Os números são, aliás, bastante elucidativos e reveladores que não é por passar mais horas no local de trabalho que a produtividade aumenta. Temos de começar a ser mais orientados à eficiência e eficácia e não às aparências. Analisando o índice de Produtividade do trabalho (informação em pordata.pt), por hora de trabalho nos 28 países da União Europeia, Portugal ocupa somente o 18º lugar, logo o facto de sermos um dos países onde mais horas se trabalha não ajuda à melhoria de produtividade. Aliás, com base num estudo da OCDE, que analisou 35 países, Portugal foi o 14º País em que mais horas se trabalha. Num outro estudo de uma consultora internacional, os portugueses surgem em 3ºlugar no que concerne a levar trabalho para casa, ou seja, para além de mais horas no local de trabalho ainda levam trabalho para casa, abalando ainda mais o equilíbrio da vida pessoal.

É necessário mudar comportamentos e mentalidades

Para se iniciar este processo de mudança pequenos passos podem ser dados, como diminuir o tempo de almoço, o número de intervalos para café, as paragens para fumar, o por a “conversa em dia” com colegas, o ocupar algumas horas de trabalho com temas pessoais. Já para não falar nas interrupções a que as redes socias “obrigam” com as constantes notificações. É um imperativo conseguir medir a performance de forma a poder, justamente, premiar quem cria mais valor e não os que têm durante mais horas os casacos pendurados na cadeira do escritório.

Uma empresa na Nova Zelândia experimentou o sistema dos 4 dias de trabalho por semana, e revelou que os seus 240 empregados mantiveram a performance, reduziram níveis de stress, e aumentaram níveis de satisfação e qualidade de vida. Existem também empresas nos Estados Unidos que estão a permitir semanas de 4 dias de trabalho, como a Deloitte, KPMG e Ryan. Claro que este regime não poderá ser implementado em todas em empresas e em todas as funções mas é uma tendência que se acentua.

Um dos mais reconhecidos empreendedores mundiais, Richard Branson, defende mesmo que só se deveria trabalhar 3 dias por semana, de forma a ter a flexibilidade necessária para fazer o que mais gosta e, simultaneamente, trabalhar com prazer.

Este sistema, a ser implementado, levará necessariamente a um reajuste dos outputs esperados pelos trabalhadores. Há 2 cenários possíveis:

1) aumento de produtividade: em alguns países, como Portugal, onde ainda temos uma baixa produtividade, sobretudo face às horas trabalhadas, seria possível mudar o horário de trabalho sem baixar salário, se aumentasse 20% da produtividade, não provocando assim uma quebra nos lucros e nos serviços prestados;

2) se a produtividade não aumentar será impossível manter os mesmos salários, portanto teria de acontecer um reajuste das equipas e das remunerações.

Prepare-se para ter mais tempo livre

A tecnologia está a mudar quase tudo, mas uma das mudanças mais profundas será a de dar mais tempo livre às pessoas. Com tantas tarefas a passarem do homem para a máquina (sobretudo softwares com inteligência artificial, e aqui jaz a grande diferença para as revoluções industriais anteriores onde a automatização de processos foi mais lenta porque era fisicamente difícil de escalar e não era exponencial) este ficará com mais tempo e isso obrigará a uma mudança de rotinas.

Existem potenciais vantagens em ter mais tempo livre:

1) dedicar-se mais à família;

2) melhor qualidade de vida tornando-se mais saudável através de uma boa alimentação e desporto;

3) dedicar-se aos hobbies;

4) algumas pessoas aproveitam para transformar o seu hobby em função principal;

5) outras fontes de rendimento: a possibilidade de acumular outras funções, surgindo as “segundas profissões” que podem ser conduzir um “uber”, ser baby-sitter, fazer trabalhos domésticos, ser carpinteiro ou chef.

Uma outra opção é a de ganhar novas competências e assim, mais facilmente, conseguir adaptar-se às novas exigências do mercado de trabalho. O sistema educativo está atrasado face às rápidas e constantes mudanças do mercado de trabalho. São muitas as profissões que já existem e que não têm formação técnica ou superior adequada e que só se aprendem on job ou através de cursos específicos. Sem tempo é impossível conseguir voltar a estudar e assim adquirir estes novos skills. Poderá ser necessário fazer algum investimento financeiro nesta fase, mas é também hoje possível ter acesso a cursos online e tutorials sem necessidade de pagar.

(Des)equilíbrio social

Hoje vivemos um momento de alguma tensão social, marcada por greves consecutivas em diferentes sectores e profissões. Se as formas de luta têm evoluído, também por evolução da tecnologia, a verdade é que as reivindicações base mantém-se, ou seja, aumentos salariais.

Mas e se as negociações passassem por outros pontos como as horas de trabalho, a qualidade do mesmo e o equilíbrio vida pessoal / profissional? Ou seja, se fosse possível aumentar a produtividade por hora trabalhada talvez fosse viável todas as partes saírem beneficiadas e estariam, desde já, a antecipar um tema que surgirá mais rápido do que se julga. Será importante alertar trabalhadores, sindicatos e patronato para o novo paradigma social que se avizinha e que poderá ser despoletado, abruptamente, caso chegue uma nova crise.

Se esta crise surgir em 2019 a tensão social irá aumentar significativamente e novas abordagens vão ter de ser testadas. Esta nova crise poderá ser uma oportunidade para novas realidades, tal como aconteceu na última em que a capacidade de adaptação, a criatividade, e o fazer acontecer foram essenciais para superar as dificuldades e o desemprego. Mas será que a última crise serviu de exemplo a todos os Portugueses? Parece que não, pois o nível de endividamento continua em níveis insustentáveis e temos um governo que criou expectativas, também elas pouco sustentáveis, face exactamente ao nível da dívida existente e ao baixo crescimento da economia.

A semana com 4 dias de trabalho poderá ajudar a evitar uma nova crise de emprego, mas para que esta aconteça precisamos de:

1) melhorar níveis de produtividade;

2) manter ou aumentar lucros das empresas, pois só assim qualquer economia funciona, independentemente do número de horas e dias que se trabalhe;

3) aumentar salários de forma a que as pessoas possam suportar os custos de vida e trabalhar menos um dia;

4) mudança de mentalidades onde se privilegie o tempo de qualidade versus os típicos horários de trabalho

Caso não nos adaptemos poderemos ter de trocar as greves dos aumentos salariais por greves para se manterem postos de trabalho. A sociedade tem de repensar o seu modelo não só por questões de qualidade de vida, mas também pelo o aumento infindável da divida de países e empresas. Algo irá acontecer, simplesmente não sabemos o quê nem quando, mas como disse Abraham Lincoln “a melhor forma de prever o futuro é inventá-lo”.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.