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Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

O sentido da Espuma

Sobre o livro 'Desfazer da Espuma', de Pinto Sancho

Desde pequeno que a espuma algarvia faz parte do meu imaginário. Pensar em Algarve é um misto de Dom Rodrigo com a rebentação controlada das vagas nas praias. Se a areia não me cativava de forma clara, a branca espuma detinha sobre mim uma força de atracção desmedida que ainda hoje guardo na memória. Baste ver ao longe uma nesga de mar que oiço de imediato o som do marulhar das pequenas vagas que se espraiam na areia.

A Espuma Desfaz-se. Mas a espuma mantém-se na forma de olhar o mar, seja o de vagas, seja o de gentes. No Desfazer Espuma, de Pinto Sancho (Ed. Universitárias Lusófonas), Alfaquete é um mar, vasto de tempo, de vidas, de memórias e de futuros, vasto na forma como umas e outras vagas se desfazem, dando, assim, espaço e lugar para outras vagas e outras espumas, que também desaparecerão nesse correr do tempo.

Desfazer Espuma é um passeio inquieto pela vida imaginada das gentes dessa vila algarvia, num misto de realidade e ficção, numa mistura entre as memórias e as leituras do próprio autor e o que ele ficciona. Alfaquete é uma vila inexistente de um Algarve existente, tal como Jaime e as restantes personagens, fruto do pensar de J. Pinto Sancho, são caricaturas, personagens-modelo da vida de um Algarve onde se cruzam gentes, passado, presente e futuro.

E este livro é essa ideia de constante cruzamento num mundo que muda sempre, queiram-no as suas personagens, ou não. Pinto Sancho, qual investigador do social, municia-se das malhas mais variadas de leitura para construir esse constante tempo de mudança materializado na vida de Alfaquete e dos alfaquetenses.

Ao longo deste livro, diante dos nossos olhos, correm tempos diferentes, com roupagens muito diversas. Seja o tempo das Descobertas, das teias de relação do Infante e do tráfico de escravos, seja o tempo dos navegadores, de Sebastião Seremenho, pai do apelido ainda hoje usado pela elite de Alfaquete, seja o tempo das lutas liberais ou, mais próximo, o tempo da Guerra Colonial, do 25 de Abril, ou do momento quase presente, o ano de 2017 onde parte da acção decorre. Mas há uma constante: a mudança.

Desfazer Espuma não é desfazer “a” espuma. A natureza de ser espuma é desaparecer e voltar a aparecer, nessa voragem de tempo que se desfaz para que outro lhe tome o lugar, aguardando o mesmo destino de mudança. A espuma que se desfaz, nos olhos de Jaime Fóia, é a mudança, é a verificação de que tudo o que se constrói pode implodir, qual edifício robusto que com uma única detonação regressa a um amontoado informe de caos. Tudo se pode desfazer num desastre de automóvel, ou numa avidez sôfrega que não percebe os limites da ambição.

Como todos os textos, mesmo que implicitamente, este livro tem uma “moral”. Não é uma moral pequenina, moralizante, criticadora ou inquisitorial. É dignificante esta moral porque é construtora de tempo. É desenvolvimentista, é espectadora, mas também analista, da mudança. Uma mudança que, mais que ser vista como inevitável, é vista como desejável. Sem ocultar nem esquecer a memória, Alfaquete é, no olhar de Pinto Sancho, um laboratório da nossa História Mental, da nossa forma de ver o mundo e o desenvolvimento, de gerir e gerar as expectativas.

Alfaquete é o Algarve na sua história, mais recuada e recente. É um presente que não é só algarvio, mas é de todo um colectivo que se irmana numa História de mudanças sucessivas. Somos cada um dos leitores que ao longo da sua vida tem, quer de fazer as suas mudanças, quer de categorizar as mudanças que lhe são externas, dando-lhes valor.

“Adaptem-se. Marchem!”, diz o nosso autor, mais biograficamente que ficcionalmente, nas últimas linhas. Simples. Sigamos em frente.

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.