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Turismo: Qualificar o “eldorado”

Nuno Botelho

Portugal, se quer continuar a ter um “eldorado” no turismo tem um enorme triplo desafio pela frente

Estará Portugal preparado para continuar a ser um dos melhores destinos turísticos do mundo?

Nos últimos anos as boas notícias sobre os números e prémios na área do turismo têm-se sobreposto. Um dos últimos galardões que recebemos foi o de melhor destino no mundo para férias, prémio atribuído pelo World Travel Awards, tornando-se o primeiro país europeu a conquistar esta distinção.

Portugal beneficiou nos últimos anos de uma série de eventos e incidentes internacionais (alguns bastante negativos como a instabilidade política no Norte de África e ataques terroristas em alguns países europeus) que levaram a um aumento significativo da procura pelo nosso País. Mas também houve muito mérito da estratégia nacional seguida e que nos posicionou, a tempo, como um dos destinos de eleição, e só assim foi possível este crescimento. Esta súbita evolução levou, nos últimos anos, à criação de mais 100.000 novos postos de trabalho. Em 2017 as receitas chegaram as 15 mil milhões de euros, contribuindo assim para 18.3% das exportações portuguesas.

Outro dado, não menos importante, é o de Portugal voltar a constar na lista dos 10 melhores locais do mundo para expatriados (ranking global elaborado pela InterNations, a maior comunidade de expatriados do mundo). É verdade que desceu um lugar, de quinto para sexto classificado, mas numa era em que muitas pessoas já têm a capacidade de escolher o local a partir do qual desenvolvem a sua actividade profissional é fundamental ter este reconhecimento para estar na lista de países a visitar e onde viver.

O lado menos positivo é a clara dependência da economia portuguesa em relação a este sector. O próprio FMI já alertou para este facto, pois Portugal fica mais vulnerável a circunstâncias que não controla, como o renascer de outros destinos turísticos ou tão somente uma questão de “moda” que, pode ser, naturalmente, passageira. Por isso cabe-nos a nós fazer algo pelo que conseguimos controlar, ou seja, a qualidade da experiência que os turistas vivenciam quando nos visitam. Só assim poderemos ter mais e melhor turismo.

Para elevar a qualidade: reconverter e qualificar

São muitas as mudanças neste sector, quer a nível tecnológico, quer em termos de padrões de procura dos consumidores/turistas. As diferentes empresas e grupos hoteleiros em Portugal têm de conseguir acompanhar todas as alterações e desenvolvimentos, mas não o vão conseguir sozinhos. Ou seja, estas mudanças exigem novas competências e skills, e para tal será necessário reconverter e qualificar muitos profissionais.

De acordo com dados do INE, em finais de 2017, existiam 424 mil desempregados em Portugal, mas só os sectores da construção, hotelaria e restauração necessitam de quase 147 mil trabalhadores. Porque não vão então estas pessoas para este sector? Será por falta de especialização ou por baixos salários?

Em relação à especialização essa é uma das lacunas, o que será, certamente, um dos problemas futuros. De facto, e seguindo outros dados do INE do início deste ano, 60% dos trabalhadores não têm mais do que o 9º ano de escolaridade. 29% detinham o ensino secundário ou cursos profissional e somente 11% têm uma qualificação superior.

Estes dados revelam duas realidades: i) uma enorme falta de pessoal qualificado; ii) uma oportunidade para muitos desempregados e para quem quer mudar de carreira.

Para tal será necessário um programa de reconversão destas pessoas, que pode passar por uma política concertada pelo Governo, mas aliando-se aos privados que investem no sector e que tanta dificuldade têm em recrutar pessoas qualificadas. Por outro lado, as Universidades terão de ser capazes de formar mais alunos em consonância com as necessidades do mercado. De forma a garantirem a sua empregabilidade têm de incorporar nos seus currículos os skills fundamentais para esta nova indústria do turismo.

Um outro ponto de melhoria tem de ser colocado em prática pelo próprio sector, ou seja, pagar salários mais competitivos, caso contrário será difícil atrair talento. A Associação da Hotelaria de Portugal referiu recentemente que em 2016 os salários médios foram de 1035 euros/mês (multiplicando por 14 meses), excluindo subsídios. Mas para esse mesmo ano o INE indica vencimentos médios de 614 euros. Agora quais os números mais fiáveis? Em fevereiro deste ano, Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal, numa entrevista ao Diário de Notícias explicou: "Muitos trabalhos têm um ordenado de mil, mil e quinhentos euros, o que equivale 80% a 90% do seu rendimento base. No turismo não é nada disto. O ordenado-base, e é este que conta para as estatísticas, não tem nada que ver com o ordenado total". Ou seja, como a maior parte das empresas têm uma actividade constante (24 horas por dias e 365 dias por ano) foram obrigadas a acrescentar ao salário-base diversos subsídios, e a alimentação, que normalmente também está incluída. Assim, poderemos perceber a discrepância dos números. Independentemente disso, e empiricamente reconhece-se que os salários neste sector necessitam de melhorar, até porque muitas vezes as condições de trabalho são difíceis e extenuantes.

Portugal, se quer continuar a ter um “eldorado” no turismo tem um enorme triplo desafio pela frente: i) aumentar a qualificação de muitos profissionais actuais e reconverter outros de forma a atrair mais e diferente talento aumentando assim a qualidade do serviço e da experiência turística; ii) continuar a desenvolver as campanhas que têm resultado na atracção de turistas mas tendo atenção à concorrência e às novas tendências dos consumidores-turistas; iii) conseguir canalizar turismo para outras zonas fora dos três principais centros (Lisboa, Porto e Algarve), mostrando que Portugal tem outras experiências para serem vividas, logo vale a pena voltar.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.