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Catarina Marcelino

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CIDADANIA E IGUALDADE

Mulheres em marcha

Andrew Lichtenstein/ Getty Images

O movimento #Metoo criou uma dinâmica que é difícil de parar, porque é um movimento que insere em si uma carga fortemente libertadora que está a influenciar toda uma sociedade. Mas tem que se evitar, firmemente, riscos de uma “caça às bruxas”, porque a injustiça e a perseguição só servirão para desvirtuar as origens do movimento que se pretende benéfico e transformador

Há uma nova vaga de feminismo a surgir e é inequívoco que as mulheres estão em marcha. Estamos perante um movimento de reação feminina e feminista ao retrocesso político que se vive no mundo em matéria de direitos, liberdades e garantias. Este retrocesso, tem uma onda de oposição com uma força nova, revigorada, que está apostada em fazer frente à misoginia, ao machismo, ao racismo, à homofobia.

A verdade é que as mulheres se tornaram voz ativa pela liberdade, compreenderam que têm poder, que podem decidir e ser determinantes. As manifestações de mulheres proliferam nos Estados Unidos contra a política da Administração Trump, no Brasil o movimento #Elenão trouxe para a rua milhares de mulheres em declarada oposição ao candidato de extrema-direita, Bolsonaro.

Este movimento no Brasil tem trazido as mulheres e a sua luta pela igualdade para o centro das eleições Presidenciais, sendo o eleitorado feminino um dos principais focos de disputa dos candidatos. As mulheres brasileiras reagiram assim ao medo da perda de liberdades e de direitos civis e sociais num país que está fraturado entre o progresso e o retrocesso.

O movimento #Metoo que nasceu o ano passado com a denúncia de assédio e violação de mulheres no mercado cinematográfico de Hollywood pode ser um dos acontecimentos mais revolucionários deste século, contra as representações e os códigos de poder interiorizados socialmente e que, assumidamente, rompem com a dominação e o abuso encapotado pela misoginia vigente.

A verdade é que todo este pensamento dominante, que nos traz à atualidade, é claramente uma forma de justificar o controlo masculino sobre a sexualidade feminina, que se concretiza ao nível das interdições sociais e do exercício do poder sobre o corpo das mulheres.

A libertação desta dominação patriarcal tem um forte teor simbólico e o movimento #Metoo criou uma dinâmica que é difícil de parar, porque é um movimento que insere em si uma carga fortemente libertadora que está a influenciar toda uma sociedade. Mas tem que se evitar, firmemente, riscos de uma “caça às bruxas”, porque a injustiça e a perseguição só servirão para desvirtuar as origens do movimento que se pretende benéfico e transformador.

Ainda esta semana foi conhecido o Prémio Nobel da Paz 2018, atribuído a Nadia Murad, uma jovem mulher Yazidi que se tornou a voz das mulheres desta comunidade escravizadas sexualmente pelo estado islâmico e a Denis Mukwege, médico congolês que se dedica a salvar a vida a mulheres barbaramente violadas. Também o júri do Nobel quis juntar-se a este movimento chamando a atenção para a violência sexual em contexto de guerra.

Em Portugal, esta dinâmica que cresce no mundo contra a violência sexual exercida contra as mulheres vive-se com timidez e, para além do caso que envolve Cristiano Ronaldo que nos arrastou para dentro do #Metoo, a sua expressão tem sido revelada na reação à atuação da Justiça, em particular de acórdãos que são fundamentados através de juízos de valor misóginos e moralismos inaceitáveis de culpabilização das vítimas e de desculpabilização dos agressores.

Aconteceu com o acórdão do Juiz Neto de Moura que justificava a razão da agressão com uma marreta de pregos a uma mulher, invocando a condição de adultério e a Bíblia como justificação. E nas últimas semanas o caso conhecido como o acórdão da dupla sedução que desculpabilizava os autores da violação de uma jovem inconsciente numa discoteca em Vila Nova de Gaia.

A diferença entre o nosso país, os Estados Unidos da América, o Brasil e até a vizinha Espanha, em que um caso de cinco violadores conhecidos como “a manada” foram libertados sob fiança por um juiz de Navarra e gerou uma onda de indignação nacional que levou milhares de pessoas para as ruas de várias cidades, é a falta de mobilização social contra estas aberrações de quem tem o dever de garantir os direitos, liberdades e garantias de todos e todas em igualdade de circunstâncias.

Nas ruas em Portugal, para além dos movimentos feministas que se organizam e que se manifestam e de alguns Partidos através das suas representantes mais ativistas, não se verifica uma mobilização em massa transversal à sociedade portuguesa.

As mulheres estão em marcha, mas marcham de forma mais expressiva nuns sítios do que noutros, e no nosso país ainda temos uma sociedade que se retrai quando se trata de ir para a rua repudiar este tipo de comportamentos, porque ainda há a ideia de que ir para a rua é radicalizar o discurso e a intervenção.

Catarina Marcelino

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CIDADANIA E IGUALDADE

Nasceu no Montijo. Licenciou-se em Antropologia pelo ISCTE. Construiu o seu percurso de ativismo cívico e político através de experiências de voluntariado na AMI, Comunidade Vida e Paz, na Liga Portuguesa Contra a Sida e como dirigente das Mulheres Socialistas. Trabalhou em Câmaras Municipais, foi Adjunta do Secretário de Estado da Segurança Social e Presidente da CITE. Foi Secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade e é Deputada à Assembleia da República pelo Partido Socialista.