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Prepare-se para ser entrevistado por um robô

Vantagens e desvantagens da introdução da inteligência artificial nos processos de recrutamento das grandes empresas

Existe uma “guerra” ou uma “corrida” por talento? A primeira expressão tem sido recorrentemente utilizada, sobretudo, na área de recrutamento, mas a analogia “renovada” é de Kevin Parker, CEO da HireVue, uma empresa de inteligência artificial (IA) que desenvolveu um software para ajudar as organizações a recrutar melhor e mais rapidamente.

As grandes organizações e as empresas de recrutamento estão, constantemente, à procura das metodologias e ferramentas ideias para atrair os melhores candidatos de forma rápida e eficiente. Com a evolução tecnológica têm surgido várias empresas que desenvolvem ferramentas de recrutamento inteligente, o que lhes permite reduzir de semanas para dias, ou mesmo horas, o prazo de análise dos processos, ao que acresce ainda conseguirem atrair candidatos que estariam fora do “radar” num processo de selecção tradicional. Além da HireVue outras start-ups têm surgido neste novo espaço do recrutamento, como por exemplo a Mya e a Montage. Em 2017, a Deloitte publicou um estudo que indicava que 33% das empresas questionadas já usavam ferramentas de IA nos processos de recrutamento com o objectivo de pouparem tempo, dinheiro, e diminuírem a discriminação.

Estes novos softwares têm por base algoritmos predictivos e de machine learning que estão a ser usados para identificar os candidatos. Depois entra em campo a IA, usada para efectuar as primeiras entrevistas. Neste processo, os candidatos ou assistem a uma gravação que lhes coloca perguntas ou podem interagir com o programa/robô. Durante o tempo de resposta dos candidatos os softwares, efectuam um diagnóstico, tendo por base não só o conteúdo da mesma (através de análise de vocabulário), mas também através da análise da voz e do reconhecimento facial. Ou seja, os pormenores que podem eventualmente escapar a um recrutador humano dificilmente deixarão de ser analisados, já que os olhares, expressões variadas e o próprio entusiasmo são tidos em consideração.

A solução está já a ser usada por várias multinacionais – Unilever, IBM, Dunkin Donuts, Goldman Sachs, JP Morgan, Vodafone, Nike, Carnival – sobretudo, numa fase inicial dos processos de recrutamento para aferir algumas das competências dos entrevistados.

Vantagens

Embora possa parecer ainda um cenário bizarro, em muitos casos, os entrevistados nem percebem que estiveram a conversar com um robô. A empresa Mya, num recrutamento específico, revelou que 73% dos candidatos pensavam que tinham sido entrevistados por um recrutador humano e não por um robô, ou seja, a experiência, para esses candidatos, não terá sido estranha.

Existem assim vantagens em usar estes sistemas, tais como:

- Conveniência: quer para o empregador quer para o candidatos, pois permite que estes sejam entrevistados quando têm disponibilidade, bem como permite aos recrutadores analisarem as entrevistas selecionadas no momento mais oportuno e de forma sequencial, não perdendo a visão de conjunto do grupo de candidatos.

- Diversidade / Não discriminação: Uma das multinacionais que utiliza um destes softwares afirma que esta nova abordagem contribuiu para o aumento de 16% da diversidade dos candidatos, sobretudo no campo étnico. Embora bem-intencionados, os seres humanos estão sujeitos a preconceitos inconscientes, algo que a IA, bem treinada, será capaz de evitar. Bem como evita ser influenciada pelas “primeiras impressões” que, muitas vezes, decidem o resultado de uma entrevista de horas.

- Diversidade socioeconómica: Não só os candidatos com acesso a uma educação nas melhores universidades serão recrutados, já que a mesma multinacional percecionou um aumento de 840 para 2600 faculdades na proveniência dos candidatos, o que permite atingir uma maior diversidade neste âmbito.

- Redução de custos: Poupa tempo e dinheiro às empresas, mas também aos candidatos, pois evitam deslocações, esperas e horas em entrevistas preparatórias.

- Eficácia: a empresa consegue identificar, contactar e entrevistar os melhores candidatos antes da concorrência.

- Aumento do número de candidatos: alguns softwares têm a possibilidade de contactar candidatos que não estão activamente à procura de mudar de emprego, mas que têm uma experiência adequada à função em aberto. A empresa Mya, para além disso, está também a desenvolver um sistema de apoio aos candidatos que os auxilie na preparação das entrevistas.

- Possibilidade de corrigir erros: Em alguns casos, o entrevistado pode rever a sua resposta e, caso detecte algo errado, pode voltar a re-gravar a mesma.

Desvantagens

Contudo, há igualmente desvantagens em usar estes sistemas de base IA:

- Desconforto: ter um software a analisar as suas expressões, vocabulário e tom de voz para determinar a sua aptidão para uma função é, no mínimo, desconfortável.

- Contextualizar: Nestas entrevistas não será possível contextualizar as emoções ou estado de humor. Imagine que tem mesmo de fazer a entrevista num dia em que tem uma forte dor de dentes, ou acabou de bater com o carro, ou simplesmente não conseguiu dormir? Numa entrevista com um recrutador humano teria, pelo menos, a possibilidade de se explicar. Para além disso como analisará o software cicatrizes faciais, um derrame ocular ou uma pessoa com estrabismo?

- Limitativa e impessoal: Para quem não esteja à vontade com tecnologia, poderá ser difícil e inibirá certamente as respostas e a forma de responder. Pode dar-se o caso de ser uma pessoa extraordinária na presença de outra pessoa, mas que fique inibida perante um mero ecrã e um software.

- Possível adulterar? Esta pergunta surge recorrentemente e a resposta é sim, ainda que teoricamente seja menor a probabilidade de sucesso com esta abordagem do que numa entrevista pessoal, em que o candidato também procure enganar o entrevistador.

Ainda não será esta a sua fórmula final, mas certamente a IA está para ficar nesta área e irá mudar significativamente a forma de recrutar. Para as grandes empresas que, tentam contratar muitas pessoas rapidamente, esta é uma ferramenta útil. Além disso, se assim se conseguir aumentar a diversidade dos candidatos, talvez seja mesmo uma ferramenta fantástica, apesar do desconforto que possa eventualmente causar.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.