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Novas profissões: Humanos peritos em inteligência “não humana”

A oferta de empregos não tem correspondência com a oferta de profissionais qualificados, pelo que se espera uma verdadeira “guerra por talento”. Saiba como preparar-se

Nos últimos três anos mais que duplicou a procura por funções relacionadas com Inteligência Artificial (IA). As três funções mais procuradas têm sido: “Data Scientist”, “Software Engineer” e “Machine Learning Engineer”. Esta é uma das conclusões de um estudo efectuado pelo Indeed (ver gráfico abaixo), um portal de emprego nos Estados Unidos, e um dos maiores do mundo, com mais de 200 milhões de visitantes todos os meses.

Como se pode verificar foi nos últimos 18 meses que esta procura acelerou, o que demonstra o presente dinamismo à volta desta área, onde não só as grandes empresas tecnológicas procuram integrar inteligência artificial nos seus negócios. De facto, e de acordo com a Gartner, prevê-se que em 2020 a maioria dos softwares incorporem tecnologia IA, cobrindo assim a maior parte dos sectores, sendo o maior destaque para as áreas: saúde, serviços financeiros e legais, agricultura e retalho.

Tomando como exemplo uma empresa de investimentos que adopte tecnologia IA. Esta irá desenvolver um sistema central que depois irá desenvolver-se de forma customizada pelos diferentes negócios em que tenha participação, sejam eles de saúde, retalho, comércio online. Dada a necessária adaptação dos softwares aos negócios será necessário parametrizar e ajustar os modelos, através de software engineers e depois alimentar os mesmos com informação de qualidade (através de data scientists). Logo a necessidade de profissionais aumenta, certamente, privilegiando-se os que têm experiência no respectivo sector. Um outro relatório, da IBM, prevê que nos próximos 3 anos a procura por data scientists aumente 28%.

Guerra por talento

Uma das conclusões do estudo da Indeed foi que a oferta de empregos não tem correspondência com a oferta de profissionais qualificados, pelo que se espera uma verdadeira “guerra por talento”.

Aliás, já hoje se verifica essa “guerra”, o que tem provocado um aumento significativo dos salários das pessoas mais experientes e já com competências de liderança. O CEO da plataforma de aconselhamento de carreira, Paysa, indicou que são vários os profissionais seniores de IA que recebem de centenas de milhares de dólares por ano. Este pacote que inclui salário base, bónus de assinatura, acções teve como valor médio 314.000 dólares, sendo que em alguns casos chega mesmo aos milhões de dólares (o salário médio de um software engineer sem a componente IA é de 82.000 dólares). Para estes valores muito têm contribuído empresas tecnológicas como a Google ou Facebook, ou outras como a Morgan Stanley e Citadel, que têm procurado principal scientists e engenheiros com mais de 10 anos de experiência, que já lideram equipas de desenho e desenvolvimento de soluções. Não deixando de serem valores dos Estados Unidos são sempre demonstrativos da falta de pessoas nesta área.

Poderá existir uma tendência de concentrar nas maiores empresas os profissionais mais seniores, não só por estas terem maior capacidade financeira para os recrutar, mas sobretudo por algumas, como a Amazon estarem a abrir ou a criar modelos de licenciamento das suas plataformas (ou parte destas), o que poderá levar as pequenas e médias empresas a necessitarem de recrutar somente software engineers, não tão seniores.

Como se preparar

Para quem quer estar nesta área, uma licenciatura em Engenharia Informática, Robótica ou algo semelhante, numa Universidade de referência, é certamente uma vantagem competitiva, contudo, não é estritamente necessária. É sim, imprescindível, adquirir skills relacionados com IA que já são hoje pedidos mas que no futuro serão ainda mais, sobretudo em áreas como: machine learning, natural language processing, computer vision, visual recognition, deep learning, neural networks e reinforcement learning.

E já são muitos os que estão alerta para esta temática. Na Universidade de Stanford, aconteceu um fenómeno demonstrativo disso mesmo quando a Universidade, decidiu abrir um pequeno curso sobre um tópico específico dentro da área de investigação em Deep Learning e que seria ministrado por um aluno da faculdade. Surpreendentemente, tiveram 350 alunos interessados, quando só existiam 20 vagas. Conhecendo esta necessidade do mercado de trabalho, e dos próprios alunos, a universidade já lecciona outros cursos em diferentes tecnologias de base IA.

Funções em IA e Empresas a recrutar

Voltando ao estudo da Indeed o mesmo apresenta uma lista das funções mais procuradas, sendo que será sempre importante referir que agruparam algumas funções com conteúdo semelhantes mas que tinham nomes diferentes. Aliás, aquando de uma busca por este tipo de funções deverá sempre ser muito preciso com as palavras-chave que usa para não ter de analisar centenas de ofertas de emprego onde a sua experiência não seja relevante.

As dez funções mais procuradas pelas diferentes empresas são:

  1. Data scientist
  2. Software engineer
  3. Machine learning engineer
  4. Software architect
  5. Data analyst
  6. Data warehouse engineer
  7. Full stack developer
  8. Research scientist
  9. Front end developer
  10. Product manager

As empresas que mais ofertas de emprego publicaram foram: Amazon, Booz Allen Hamilton, KPMG, Microsoft, e Apple. Mas outras também têm sobressaído na procura de talento para estas áreas, como a Google, Baidu e Facebook. Em Portugal também são várias as empresas que estão a recrutar estas funções, como por exemplo: Farfetch, Feedzai, Outsystems, VisionBox, Talkdesk, Accenture, Altran, Spring, Bold, BNP Paribas.

Muitas novidades surgirão com o desenvolvimento de tecnologias com base em IA. Se é verdade que este é um excelente exemplo de novas profissões que surgem devido ao desenvolvimento tecnológico também não será menos interessante seguir os que estes novos softwares nos vão trazer, nomeadamente se não serão eles próprios a criar, e a ocupar, as novas funções por si criadas. A melhor forma de a inteligência humana não ser ultrapassada é ter a capacidade de liderar esta evolução.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.