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O medo de ser traído pelo parceiro

O medo de ser enganado ou traído pelo parceiro pode trazer sofrimento pessoal, ser muito corrosivo da relação e reduzir a esperança de vida do casal

O medo de ser enganado ou traído pelo parceiro pode trazer sofrimento pessoal, ser muito corrosivo da relação e reduzir a esperança de vida do casal. Envolve sentimentos de posse, desconfiança e controlo, num caldo perigoso de insegurança. A incapacidade de confiar no outro pode atrapalhar e muito a nossa vida amorosa.

Temos uma relação de compromisso, és a minha mulher. É óbvio que tenho o direito de saber o que fizeste e com quem estiveste. E há algumas coisas que deves evitar se queres proteger o teu marido”. Miguel, 54 anos, numa relação de 18 meses à distância.

Eu não preciso saber tudo o que a minha mulher faz ou deixa de fazer, onde almoçou ou com quem lanchou. Se eu precisar de saber isso, é porque chegámos a um ponto na relação onde eu não quero estar”. Joaquim, 52 anos, casado há 12, à distância nos últimos dois.

São dois discursos de homens, mas podiam ser de mulheres, que mostram posturas, atitudes e níveis de confiança diferentes. Haverá muitos homens e mulheres que se identificam com Miguel e outros quantos que se identificam com Joaquim. O primeiro precisa do controlo e denota insegurança. A relação é ainda curta e teve sempre a distância geográfica a separá-lo da mulher. O segundo, mais autónomo e seguro, desconsidera a necessidade de controlo na relação, mas esta já é longa e estava consolidada antes da separação física. O Joaquim parece oferecer uma relação de maior confiança, enquanto o Miguel demonstra uma vinculação mais insegura, que pode trazer mais instabilidade.

O que é que faz com que umas pessoas se aproximem da postura do Miguel e outras do Joaquim? Falamos de factores de personalidade, experiências de vida e a influência da sociedade e da cultura que nos acolhe.

A infidelidade é relativamente comum, os estudos mostram que existe em 30% a 65% dos casais. É praticada em todas as culturas e é também condenada em todas elas. Mas se é tão comum, porque é que nos sentimos tão ameaçados pelas consequências da infidelidade?

O sentimento avassalador da traição

Antes de mais, é preciso pensar sobre o que é a traição, porque a traição é uma coisa diferente para pessoas diferentes. Para uns, a traição implica uma relação sexual com outra pessoa, mas para outros, basta uma relação emocional mesmo que não haja sexo. Um simples flirt é uma traição para alguns. Ela ir jantar com amigos, é uma traição para outros.

O sentimento de ser traído é um sentimento avassalador de grande sofrimento. Sentir-se enganado pelo parceiro pode ser demolidor e inviabilizar o futuro da relação. Algumas pessoas sentem-se traídas sem o terem sido. Na situação de dúvida, deixam-se levar pela crença criada por si próprio de ter sido enganado. Este sentimento muitas vezes gera uma agressividade latente, outras vezes, uma agressividade desmedida e manifesta. Vêm as perguntas confrontativas, a espionagem nas redes sociais, a violação do telemóvel do parceiro e uma atitude de questionamento do outro ou, pior ainda, um silêncio contido. Tudo isto alimenta uma desconfiança permanente que pode ser altamente perturbadora para o parceiro e destrutiva da relação. Sobretudo quando não houve nenhuma traição. Actualmente nas relações à distância, cada vez mais comuns, tudo isto é potenciado pela geografia, e as ferramentas tecnológicas de comunicação não ajudam nada, muito pelo contrário.

A origem do medo de ser traído

Muitas vezes o que está na origem deste medo são pensamentos sobre não ser suficientemente bom ou não ser amado pelo parceiro. A pessoa tem crenças negativas sobre si própria (podem não ser conscientes), por exemplo, crenças de insuficiência, de não ser merecedor, ou de não ser amado. Pensamentos do tipo, “Eu não sou assim tão bom parceiro”; “Como é que uma mulher como ela está com um homem como eu?”; “Há muitos outros homens muito melhores que eu”; “Ele já não se sente atraído por mim que estou gorda e velha”; “Ele no fundo não me ama”; “Eu não sou suficientemente…” isto ou aquilo. Estas crenças disfuncionais perturbam a auto-estima e a confiança e geram obviamente insegurança e o medo de ser preterido ou substituído por outro parceiro.

Outra explicação para o maior ou menor medo da traição reside nas experiências prévias. Se a pessoa já foi traída no passado, a experiência dessa dor aguda já deixou marcas que ficaram incrustadas e que agora activam o sistema de alerta ao mínimo sinal. A experiência prévia é bastante determinante dos níveis de confiança. Em grande parte a nossa experiência passada determina o nosso grau de confiança em nós próprios e nos outros. E o pior é que a vivência da traição no passado não ajuda nada a evitar o erro no futuro mas sim a reforçar o medo. Neste caso dificilmente se aplica a ideia de aprender com os erros porque, a desconfiança é reforçada.

Por outro lado, tudo isto está entrosado com factores psicológicos. Uma personalidade mais rígida, com traços obsessivos e tendência à ruminação, constitui um terreno muito mais fértil para o medo de ser traído. Da mesma forma, uma pessoa que estabeleceu um padrão de vinculação inseguro ou ansioso no passado com as figuras de referência, terá menos segurança emocional nos relacionamentos futuros.

E por fim, os factores culturais que facilitam este medo. As sociedades mais machistas onde há maior desigualdade de género potenciam este medo, tanto nos homens como nas mulheres.

Como ultrapassar este medo

Eu vejo duas frentes para combater o medo de ser traído. Uma é individual e a outra é relacional. Por um lado, é preciso um trabalho individual para abordar o que está na origem desse medo. Uma restruturação cognitiva para explorar e desafiar as crenças disfuncionais que a pessoa tem de si própria. Essas ideias negativas de ser insuficiente para o outro (seja ele quem for), ou de nunca se sentir amado, e por isso não ser capaz de se entregar na relação. Por vezes é preciso olhar de frente para a carência emocional e para outras variáveis, por exemplo, a insegurança, a rigidez que impede a mudança, a tendência à ruminação, ou o comportamento agressivo. Por trás da agressividade está o medo e está a dor. E o comportamento agressivo é uma tentativa de afastar a dor.

A outra frente de combate ao medo de ser traído, é relacional, ou seja, envolver o parceiro activamente nesta questão. Expressar e partilhar com o parceiro o medo e a insegurança. Só desta forma o parceiro poderá conhecer a verdadeira dimensão do problema e agir em função das necessidades do outro. Ou seja, oferecer mais segurança. O problema é que expressar ao outro a insegurança é muito difícil porque a pessoa sente-se vulnerável e teme que a vulnerabilidade seja entendida como uma fraqueza. Mas não é de todo assim. Expressar uma vulnerabilidade é sempre um acto de coragem e valentia.

O que habitualmente acontece quando um dos parceiros tem dificuldade em confiar, é um afastamento do casal. A sua atitude de desconfiança de um é devastadora para o outro (que não está sequer a trair) porque causa uma imensa frustração e um sentimento de ser desrespeitado e desconsiderado. E assim, vão-se desencontrando e magoando um ao outro. É ainda necessário uma dedicação especial à expressão do amor. Muitas vezes acontece que a pessoa não expressou o amor assim tanto nem tão bem como lhe pareceu. O que a um parece muito, ao outro parece pouco.

Olhar para o futuro

Ter medo de ser traído leva a pessoa a ter medo de relações futuras e à perda da confiança no outro. Essa desconfiança permanente assemelha-se a uma espécie de stress pós traumático que perdura durante muito tempo e é difícil de curar. Iniciar uma relação com dificuldade em confiar, compromete a entrega ao outro e, por conseguinte a vivência plena da relação. É fundamental estar consciente disto para não arruinar a relação seguinte.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.