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Catarina Marcelino

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CIDADANIA E IGUALDADE

Tabagismo, mulheres e estereótipos

A campanha explora o amor materno como motivo, o que no modelo de sociedade em que vivemos produz um impacto emocional eficaz, mas não deixa de explorar a culpa que nos condiciona culturalmente e que tem efeitos muito mais exponenciados quando se trata da culpa das mulheres na sua vivência da maternidade

Ministério da Saúde lançou uma campanha intitulada “Opte por amar mais” com o objetivo de sensibilizar as mulheres e raparigas para o abandono do tabaco, que gerou polémica porque reproduz estereótipos de género, nomeadamente através da frase “as princesas não fumam”.

Estes temas são sempre difíceis, uma vez que opõem as liberdades individuais a uma responsabilidade coletiva que, neste caso concreto, se prende com o tabagismo e a adição a um vício que é responsável por 10% das mortes em Portugal. Contudo também é do foro da responsabilidade coletiva não estimular mensagens que veiculem estereótipos de género.

Fumar é um hábito social muito ligado a rituais iniciáticos de passagem à idade adulta e à emancipação, em particular das mulheres que, até à década de 70 do século passado, poucas eram as que fumavam em locais públicos. Este comportamento prevaleceu anos sem qualquer associação a problemas de saúde levando a que, apesar dos esforços que se fazem na prevenção em idades precoces, em 2014, uma em cada cinco pessoas no nosso país, com mais de 15 anos, fumava.

Esta realidade demonstra bem como o consumo de tabaco é um forte hábito social, difícil de combater, apesar da legislação existente que investe no proibicionismo de fumar em locais públicos fechados, junto de escolas e hospitais e que impõe imagens chocantes nos maços de tabaco consideradas bullying social e expondo crianças a essas imagens violentas, mas que, mesmo com estas medidas radicais, continua a ser difícil convencer as pessoas a deixar de fumar.

No consumo de tabaco há uma diferença significativa entre homens e mulheres, sendo que entre os homens se verifica uma diminuição de 4% face ao ano 2001, enquanto que nas mulheres, no mesmo período de tempo, houve um aumento de 7%.

Portugal tem hoje uma estratégia para diminuir o consumo de tabaco, como metas claras para 2020. Reduzir a prevalência de fumadores na população com 15 ou mais anos para um valor inferior a 17% e limitar o aumento do consumo de tabaco nas mulheres.

A campanha lançada pelo Ministério da Saúde dirige-se às mulheres jovens e tem por base uma história verídica, forte e impactante, de uma mulher que está muito doente e que continua a fumar enquanto a filha replica o gesto de levar o cigarro à boca, imitando a mãe nesse ato quotidiano.

Não é fácil ter mensagens fortes que façam a diferença no consumo e que alertem para os riscos do tabagismo. Para deixar de fumar é necessária uma motivação forte e muito pessoal, pelo que a campanha explora o amor materno como motivo, o que no modelo de sociedade em que vivemos produz um impacto emocional eficaz, mas não deixa de explorar a culpa que nos condiciona culturalmente e que tem efeitos muito mais exponenciados quando se trata da culpa das mulheres na sua vivência da maternidade.

Mas o tabagismo é mais do que um gesto social. Fumar provoca uma adição física a uma substância que cria vício, pelo que deve ser encarado como uma doença que precisa de tratamento médico, tal como acontece com o consumo de drogas ilícitas. O tabaco é uma das principais causas de morte prematura por cancro, por doenças respiratórias e por doenças vasculares cerebrais e cardiovasculares.

Em 2017, pela primeira vez, todos os Agrupamentos de Centros de Saúde passaram a oferecer uma consulta de cessação tabágica, o que levou a um aumento de 30% na oferta existente e a um aumento relevante do número de consultas, melhorando a acessibilidade e a equidade em termos nacionais a esta resposta. Nesse mesmo ano foi implementada pela primeira vez a comparticipação de medicamentos antitabágicos sujeitos a receita médica o que levou a um aumento de 93% das embalagens disponibilizadas.

Esta curta-metragem, disponível nos cinemas, é uma peça da campanha dirigida a um determinado público alvo que se vem juntar a um trabalho de prevenção conjunto com o Ministério da Educação, à legislação existente e à disponibilização de um conjunto de respostas antitabágicas no Serviço Nacional de Saúde.

Fumar é um consumo lícito e por isso a escolha cabe a cada pessoa, mas para ser livre tem de ser consciente e informada dos malefícios que provoca. Fumar é sinónimo da reprodução social de comportamentos enraizados da mesma forma que o são os estereótipos de género. No lugar da frase “as princesas não fumam” a mãe podia dizer à filha “as mulheres fortes, corajosas e determinadas, não fumam”, passaria a mensagem contra o tabagismo e, em simultâneo, contribuía para a desconstrução dos estereótipos de género que, tal como o fumo é para a saúde, são um elemento tóxico da nossa cidadania.

Catarina Marcelino

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CIDADANIA E IGUALDADE

Nasceu no Montijo. Licenciou-se em Antropologia pelo ISCTE. Construiu o seu percurso de ativismo cívico e político através de experiências de voluntariado na AMI, Comunidade Vida e Paz, na Liga Portuguesa Contra a Sida e como dirigente das Mulheres Socialistas. Trabalhou em Câmaras Municipais, foi Adjunta do Secretário de Estado da Segurança Social e Presidente da CITE. Foi Secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade e é Deputada à Assembleia da República pelo Partido Socialista.