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O espírito do Rugby está vivo!

Bolsa de Especialistas

Miguel Portela

Foto de José Vergueiro

O Rugby e todo o seu património moral não desaparecem por causa de um dia mau. Ou melhor, momentos menos bons

Porque desajustadas, empoladas e absolutamente injustas para a grande, grande maioria da comunidade rugbystica portuguesa, venho pelo presente denunciar, criticar e considerar absolutamente inacreditáveis a forma e a medida com que se colocou em causa os valores e espírito do Rugby em Portugal, a propósito da meia-final do campeonato realizada entre Agronomia e GD Direito.

As imagens espalhadas de forma viral (um mal incontornável na sociedade atual) deram azo a comentários, artigos, opiniões e comunicados altamente críticos à comunidade rugbystica, colocando em causa os valores e espírito do rugby.

Não concordando com tais artigos, opiniões, comentários, comunicados, desde já identifico um denominador comum sobre os seus autores: A grande maioria, senão a unanimidade dessas mesmas pessoas, não estiveram presentes no dia do jogo.

E pelo facto de não terem estado presentes, não podem ser testemunhas de tanta coisa boa que se passou e que, contrariamente ao que muito se apregoou, demonstram que o espírito e valores do rugby estão vivos e estão para durar…

Não presenciaram um jogo de alta tensão no qual os clubes, a bem do rugby português, acordaram em realizar dada a absoluta inabilidade para organizar demonstrada pela Federação Portuguesa de Rugby que não garantiu as condições mínimas para a realização do mesmo.

Digam-me um único desporto (cuja modalidade já esteve representada num Mundial) onde, sem que a respetiva Federação tivesse tido a competência de arranjar equipa de arbitragem; arranjar delegado ao jogo; etc., os clubes semifinalistas, na pessoa dos seus Presidentes, de modo a não denegrir a imagem da própria modalidade, hajam decidido levar avante o jogo….

Digam-me um único desporto onde, apesar de milhares de espectadores, bancadas cheias, e havendo a ausência total de qualquer tipo de entidade policial ou de segurança, ninguém tenha sentido a necessidade da presença dos mesmos….

Digam-me um desporto da alta competição onde, durante todo o tempo, crianças, mulheres, miúdos e miudagem circulassem livremente sem qualquer tipo de incidente, constrangimento ou ameaça. Onde, durante o intervalo, miúdos de ambos os clubes, entram para dentro de campo e fazem jogos entre eles, prevalecendo sempre um elevado espírito de desportivismo….

Não quero esconder nem escamotear que, durante o jogo (de 80 minutos), houve dois momentos em que os jogadores se excederam e, para além do espírito e valores do rugby, trocaram agressões entre si.

É verdade que, no final do jogo, errada e condenavelmente, de entre os milhares de espetadores presentes, meia-dúzia se tenham envolvido em confrontos físicos.

As agressões dentro de campo quer os confrontos fora de campo são condenáveis…. Muito. Erraram os protagonistas…. Tal como todos nós já errámos.

E esses erros têm sanções previstas nos regulamentos e, garanto-vos, todos os envolvidos não fugirão às suas responsabilidades. Mas pegarem nestes erros relevantes e correrem para a praça pública a proclamar o fim dos espírito e valores de rugby em Portugal é pura ignorância.

O jogo terminou com todos os jogadores a formarem o corredor, cumprimentando-se mutuamente, sendo os jogadores da Agronomia felicitados pelos jogadores do Direito (num jogo em que terminou quando o Direito tinha uma hipótese de empatar o jogo e depois das agressões);

O jogo terminou com o campo cheio de miúdos dentro do campo a cumprimentarem todos os jogadores;

O jogo terminou com os treinadores a cumprimentarem-se respeitosamente;

No topo onde houve o confronto físico entre a meia dúzia de pessoas, essas mesmas pessoas rapidamente se aperceberam do erro que cometeram e, como pessoas de bem, sem necessidade de intervenção de terceiros, apressaram-se em pedir desculpas pelos seus atos e ali fazer as pazes.

Se isto não é uma prova válida de que os valores e princípios do Rugby (Desporto e vida em geral) estão vivos, então não sei o que outro exemplo se pode dar. Estão vivos e colocados à prova todos os dias. Não queremos nem ambicionamos ser perfeitos. Errar todos erramos e falhas todos temos.

Na meia-final ocorreram falhas evidentes que, sendo condenáveis, não são episódios únicos e muito menos circunscritos a Portugal (convido-vos a verificar no link em anexo situações semelhantes, mesmo ao nível das mais prestigiadas seleções mundiais):

O espírito e valor do rugby (deporto e vida em geral), não se limitam a tentar a ausência do erro. Eles vão muito além disso. Ensinam-nos a viver com o erro. Saber superá-lo. A tornar-nos melhor…

Aqueles que vieram a terreiro considerar o episódio da meia final como único, excecional, inaceitável, nunca visto, só o fizeram por maldade, aproveitamento, sede de protagonismo, ou pura ignorância.

E se essa ignorância é aceitável nos opinadores de redes sociais (que muitas vezes se servem delas para tentar algum protagonismo que a sua incompetência diária não lhe permite ter nos seus trabalhos, grupo de amigos, família).

Se essa ignorância é normal nas noticiais postas a publico pelos diversos meios de comunicação que, sem a preocupação de investigar, relatam uma boa história sempre cativante para mentes menos iluminadas. Essa ignorância é absolutamente inaceitável na pessoa do Presidente da Federação Portuguesa de Rugby que, demonstrando uma total irresponsabilidade e fraquíssima defesa dos interesses da modalidade a que preside, veio a terreiro com declarações e decisões absolutamente irresponsáveis, as quais apenas contribuíram para um empolamento ainda maior de tudo o que ocorreu.

Suspender o campeonato, sugerir queixa-crime contra incertos e prometer sanções exemplares para uma situação sobre a qual não estava presente e nem poderia ter a certeza do que se tratava soou a declarações de quem, em vez de ter preocupação primordial da defesa da sua Família, se preocupa com a sua imagem e caminho político a percorrer.

Não teria muito mais sensato afirmar que ia averiguar o que havia ocorrido e, em sede própria, tomar as devidas medidas? Não teve o Presidente um mínimo peso de consciência de isto ter ocorrido num jogo cuja organização a FPR se demitiu em absoluto? E por considerar, do fundo do coração e de plena convicção de que aqueles estão errados, convido, sem qualquer maquilhagem, qualquer pessoa na nossa sociedade a assistir a um treino de formação em qualquer clube português.

Convido todos a assistirem aos inúmeros convívios de rugby onde, milhares de pequenos grandes guerreiros deixam em campo coragem, superação, amizade e respeito. Convido a testemunharem o dia a dia da grande maioria dos nossos jogadores de rugby que, por amor à camisola, ao espírito de equipe, paixão ao clube, repartem as suas vidas de estudantes, trabalhadores, pais de Família, etc., com horas de treinos, viagens e jogos.

Não é marketing nem são técnicas de comunicação. Venham ver com os próprios olhos o ambiente absolutamente fantástico que se vive e sente no nosso RUGBY!

O espírito e os valores do Rugby estão bem vivos…. Sólidos e para durar por muitos e bons anos! Não duvidem!!!!

Viva o Rugby!

Miguel Portela

Miguel Portela

RUGBY

Advogado e ex-jogador de rugby. Foi 63 vezes Internacional da Selecção de XV, Lobo no Mundial 2007, participou em dois mundiais de 7s e sagrou-se nove vezes campeão nacional ao serviço do Grupo Desportivo Direito. Casado, pai de 4 filhos, diretor da Formação do GDD e treinador da escalões juvenis do GDD.