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Sandra Duarte Tavares

Sandra Duarte Tavares

LINGUÍSTICA PORTUGUESA

A Língua Portuguesa é muito traiçoeira!

A nossa língua tem a fama, mas também o proveito: o provérbio popular “A Língua Portuguesa é muito traiçoeira” faz realmente justiça a este idioma, que é tão encantador quanto complexo

No artigo de hoje, decidi criar algumas perguntas que acredito matutam com insistente teimosia na mente de muitos leitores e que confirmam, a meu ver, que a Língua Portuguesa é mesmo traiçoeira!

1 - Porque é que açoriano se escreve com i, se Açores se escreve com e?

Porque à palavra açor (que designa uma ave) se associou o sufixo -iano, que entra na formação de nomes de naturalidade como canadiano, cabo-verdiano, iraquiano, entre outros. A vogal i é, portanto, do sufixo (tal como flor(es) + inhas = florinhas).

2 - Porque é que o verbo descriminar não é sinónimo de detalhar?

Porque apesar de haver uma semelhança entre as sílabas iniciais, esses verbos não estão semanticamente relacionados. O verbo descriminar significa “absolver de um crime imputado, livrar de culpa ou acusação”, por exemplo: “O juiz descriminou o réu depois de várias audiências”. O verbo discriminar, esse sim, é sinónimo de detalhar e significa “separar, diferenciar, distinguir”: fatura discriminada, por exemplo.

3 - Porque é que a palavra café tem acento gráfico e cafezinho não tem?

Porque ao associarmos qualquer sufixo a uma palavra, o acento tónico passa a recair na primeira sílaba do sufixo (cafezinho), logo, o acento gráfico deixa de fazer sentido, apesar de a vogal continuar aberta.

4 - Porque é que uma assinatura abreviada não é uma rúbrica?

Porque a palavra rubrica, com origem no latim rubrica, rubrus (vermelho), tem o seu acento tónico na penúltima sílaba (bri) e escreve-se sem qualquer acento gráfico, seja qual for o seu significado: “assunto, tópico” ou “assinatura breve”.

5 - Porque é que um sinal gráfico se designa caráter e não caracter?

Porque a palavra caráter, com origem no grego kharákter (sinal distintivo), além de designar o temperamento de uma pessoa, refere também o sinal ou símbolo usado na escrita. A outra forma não está atestada na língua.

6 - Porque é que o verbo relativo a circuncisão não é circuncisar?

Porque são palavras com origens diferentes: o nome circuncisão provém do latim circuncisionis e o verbo correspondente é circuncidar, o qual tem origem em circumcidere (cortar ao redor).

7 - Porque é que não devemos dizer “melhor classificado”?

Porque o advérbio bem tem duas formas para os seus graus comparativo e superlativo: uma forma regular – mais bem – e outra, irregular – melhor. Sempre que modifica um verbo, usa-se a forma irregular melhor: Comemos bem hoje, mas ontem comemos melhor.

Sempre que modifica um adjetivo, usa-se a forma regular analítica mais bem: “A equipa A ficou mais bem classificada do que a equipa B”.

8 - Porque é que a palavra cessão não está relacionada com o verbo cessar?

Porque o nome cessão designa o ato de ceder, dar, conceder alguma coisa a alguém; é sinónimo de transferência, cedência. Por exemplo: “O testamento descrevia a cessão de vários terrenos aos herdeiros”.

O nome cessação, esse sim, designa o ato de cessar, terminar, suspender alguma coisa, por exemplo: “A cessação do seu contrato de trabalho fê-lo emigrar”.

9 - Porque devemos dizer “aonde vais?” e não “onde vais?”

Porque o advérbio aonde significa “a que lugar” e deve ser usado com verbos que exigem essa preposição, como é o caso do verbo ir: “Vou ao teatro, vou à praia”, logo: ”Aonde vais?”

10 - Porque é que devemos escrever “empresa sediada” e não “sedeada?

Porque a palavra sediada provém do verbo sediar, que significa “estabelecer sede num determinado lugar”. Este verbo é formado a partir do nome sede + o sufixo -iar, presente em verbos como chefiar, presenciar, premiar.

A palavra sedeada, por sua vez, tem origem no verbo sedear, que significa “limpar objetos de ourivesaria com uma escova de sedas”. Tem na sua base o nome seda + o sufixo -ear, presente em verbos como cabecear, folhear, nortear. Ao contrário do primeiro sufixo, o sufixo -ear incorpora um valor de movimento. Por exemplo: “A minha aliança nunca foi sedeada.”

Sandra Duarte Tavares

Sandra Duarte Tavares

LINGUÍSTICA PORTUGUESA

Sandra Duarte Tavares é mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras de Lisboa e professora no Instituto Superior de Comunicação Empresarial (ISCEM). É colaboradora da RTP em programas televisivos e radiofónicos sobre Língua Portuguesa e autora de 10 livros técnicos sobre Língua Portuguesa e Comunicação. Conta ainda com 10 anos de experiência como consultora linguística e formadora de Comunicação para Executivos, nas áreas de Effective Communication, Business Writing e Public Speaking.