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Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Slow living, vagar para viver

O que é isto do slow living e de ter uma vida pausada e orgânica dentro da cidade? É saber cortar com os aspetos negativos da vida urbana privilegiando a integração e conexão com a natureza, ou baixar apps e consumir produtos que montam à nossa volta um cenário que nos faz pertencer a esta tendência? É modinha passageira ou integração?

Que truque nos faz parar ou abrandar a passada diária libertando-nos das rotinas cíclicas que cumprimos dia após dia, muitas vezes de forma mecânica como se fossemos mais máquina do que gente? Como é que instalamos um novo sistema operativo dentro de nós que nos faça viver de uma maneira mais orgânica, empática, saudável e lenta dentro da cidade? Tenho andado com estas perguntas na cabeça desde que passei alguns dias de descanso fora de Lisboa com amigos que revelaram não saber abrandar nem descansar porque passaram o tempo a procurar atividades para fazer, registar, e mostrar nas redes sociais ao invés de desligar. Deixar o tempo passar era coisa que não estavam dispostos a experimentar.

Reparo que, mesmo quando ansiamos por momentos ou dias vagarosos e ignoramos determinadamente a função do relógio, nem sempre é fácil controlarmos a tentação de preencher o dia com ocupações, fúteis ou não. Parece que só elas nos conferem uma certa saciedade de dever cumprido ou afastam a ideia de nos sentirmos inúteis aos olhos dos outros, mesmo que esses olhos estejam somente nas redes sociais a alimentar a nossa dependência do julgamento alheio. Saber parar ou abrandar é uma arte que nasce da necessidade e requer força de vontade. E é entrar num novo paradigma de vida, difícil de instalar em primeiro lugar, e muito difícil de desinstalar quando vivemos de acordo com ele e sentimos as vantagens que traz ao nosso bem-estar.

Sou adepta do chamado movimento slow living há alguns anos mas não foi da noite para o dia que passei a conduzir esta nave espacial. Chamo-lhe nave espacial porque ainda há momentos em que os outros me fazem sentir como um alien pelas opções de vida que tomo, ou sou eu que os vejo como aliens acelerados a correr para o nada. Seja como for, cada vez encontro mais pessoas que vibram com a ideia de respeitar o vagar da vida, deixar o tempo das coisas determinar os acontecimentos, desligar o mais possível das redes sociais, da TV e dos gadgets, e aceitar o silêncio como prática de higiene mental. A peça-chave que nos leva a querer abrandar e ter um estilo de vida mais natural é a perceção de que os tempos da natureza existem e são cíclicos, e que desde sempre o ser humano viveu de acordo com eles porque a vida é cíclica. No fundo, é percebermos que quem manda nisto tudo é a Terra, ela determina as regras e providencia abundantemente para mantermos a nossa sobrevivência, e que o seu tempo é o verdeiro relógio que nos deve servir de guia, até porque é com ele que o nosso organismo ressoa. Algures depois da revolução industrial este tempo cíclico foi abafado pelo tempo linear ditado pelas fábricas e pautou as regras da existência social… até agora. Grosso modo, o horário nine-to-five é a moldura dentro da qual temos de saber viver, conviver, produzir, provar resultados, estudar, e por aí diante. A cisão entre vida pessoal e profissional foi criada aqui, criando também uma divisão interna dentro das pessoas que separa o prazer da vida pessoal do sacrifício do dever profissional.

O nosso organismo não ressoa com tempos lineares mas sim com os circulares, e são cada vez mais as pessoas que optam por trabalhar sozinhas de maneira independente e por conta própria para poderem melhor integrar a vida pessoal com a profissional, gerindo as responsabilidades com maior flexibilidade. Picar o ponto para começar a trabalhar às 9 da manhã e depois picar virtualmente o ponto para começar a viver depois das 18h é coisa do passado e cada vez faz menos sentido. Somos seres unos e é desta integridade que brota o nosso potencial e criatividade, e se só podemos ser criativos depois das 18h é natural que a espontaneidade e abertura para criar diminua ou nem apareça.

Como é que resolvemos esta dicotomia que nos afasta na nossa natureza, do tempo circular e da Terra? A meu ver a solução passa pelo regresso ao tempo circular, instalando-o cuidadosamente dentro de nós como se fosse a app mais rara e preciosa. Podemos tomar pequenos passos para que isto aconteça de forma gradual e sustentada: um deles, que considero prioritário, é passarmos tempo regular em contacto com o meio natural, seja andando de pé descalço no campo sem smartphone na mão, entregando o corpo e os sentidos ao momento e lugar onde estamos de preferência em silêncio, ou fazer atividades que nos tragam conhecimento e paixão pela vida natural e animal (não humana) e nos conduzam a querer fazer e saber mais. Retiramos impacto positivo da criação e manutenção de novas rotinas positivas. Recentemente tive a curiosidade de perguntar ao Tiago Pereira do projeto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, e a Diogo Batalha, responsável do projeto de turismo rústico da Aldeia da Mata Pequena, qual é o elemento que diferencia de facto a forma de estar citadina da do campo. Ambos passam tempo ou vivem no campo e em contacto com uma forma de estar natural e pausada, e pelas respostas concluí que viver de acordo com a sazonalidade e o tempo próprio da terra é a chave para um slow living a rigor. Passa por respeitar e aceitar o tempo na Natureza e aquilo que ela produz em cada uma das fases do ano, aceitando com humildade esta relação, vivendo num templo circular que nos revela orgânicos, intuitivos e naturais.

Vejo acontecer em Lisboa, na loucura do cumprimento do tempo linear, a indisponibilidade das pessoas para saírem da cidade e largar os seus hábitos contaminados pela rotina. Apanhar um cacilheiro e fazer um passeio por Almada Velha, ou apanhar o comboio para ir dar uma caminhada numa praia da linha de Cascais parecem planos absurdos que retiram tempo precioso às pessoas, quando na realidade este ‘tempo precioso’ depois é passado a fazer mais do mesmo dentro de um estado cerebral mediado por smartphones, apps e redes sociais que pouco ou nada acrescentam ao bem-estar mental e físico. Comecei a cortar as amarras á cidade quando tomei consciência de que o vórtice energético da cidade que nos suga tem que ser rompido à força pela vontade genuína de querermos implementar novas rotinas de bem-estar integradas na natureza. É como se vivessemos dentro do olho de um furacão sem percebermos que andamos a alta velocidade sem sair do mesmo lugar, numa cegueira inconsciente. Para fechar esta reflexão, deixo a sugestão de irem ver a exposição Agricultura Lusitana que inaugurou agora no Museu de Arte Popular e nos remete para lugares, formas de pensar e estar que revelam o tempo circular da natureza e a relação do ser humano com a pertença orgânica à sua terra e à Terra. Esta exposição é um projeto das Aldeias do xisto da Beira Baixa - território largado ao Deus-dará por sistemáticas políticas de abandono e fogos dantescos - que cruza o design contemporâneo com muito do saber fazer tradicional que está em vias de extinção em Portugal. O potencial criativo que abunda a partir da relação com o campo e da sabedoria que emerge do uso sustentável e íntegro aquilo que a natureza dá, será das lições mais importantes que temos a aprender neste momento com quem ainda sabe viver em relação de humildade para com a casa-mãe, a Terra, para assim podermos reduzir a forma abusiva como temos andado a delapidar as terras e a descartar os seus recursos como se fossemos crianças caprichosas agarradas à mama da mãe há anos sem largar nem saber dar de volta.

Para crescer, há que largar a mama.

Carla Isidoro

Carla Isidoro

TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Comecei a trabalhar em 1995 na revista do jornal A Bola enquanto tirava a licenciatura. Tive um ótimo editor que me pôs a entrevistar figuras de destaque da cultura portuguesa e a escrever sobre assuntos diversos, e esta experiência foi de extrema importância porque me deu confiança para escrever sobre (quase) qualquer coisa. Colaborei para diferentes media sobre viagens, música, cultura contemporânea, culturas africanas, comportamento, tendências de consumo, etc. Hoje sou gestora de comunicação independente para negócios, marcas e projetos artísticos. Defendo a importância de uma boa história na comunicação de qualquer marca e de conteúdos alinhados com os valores da cultura onde ela se insere. O antropólogo Igor Kopytoff diz que os objetos têm histórias de vida apesar de serem coisas. E eu concordo com ele. Se as histórias alimentaram o nosso imaginário em criança, na vida adulta elas continuam a inspirar-nos, a tocar-nos e a dinamizar o mercado. Quem não gosta delas? Sou licenciada em Ciências da Comunicação e pós graduada em Antropologia na vertente Cultura Material e Consumo.