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Estrangeiros no rugby português: Um investimento sem retorno?

Bolsa de Especialistas

Miguel Portela

Se há uns anos (muitos), jogadores estrangeiros eram um mal necessário para o rugby português, essa necessidade é, hoje, cada vez menor, senão mesmo prejudicial

Numa altura em que o investimento em jogadores estrangeiros está a ganhar novo fôlego em muitos dos nossos clubes, sob o argumento de que os mesmos trazem um aumento de qualidade, não só à capacidade desportiva da equipa, mas também ao próprio campeonato, tenho defendido que os jogadores estrangeiros são cada vez menos necessários para o rugby nacional.

Sendo que há uns anos (muitos) escrevi que os estrangeiros eram um mal necessário, essa necessidade, hoje, é, para mim, cada vez menor, senão mesmo prejudicial.

Num momento em que a maior parte dos clubes tem a capacidade de criar e fazer crescer um número razoável de jogadores, para todas as posições, a necessidade dos jogadores estrangeiros deixou de ser uma questão objetiva: isto é, ao contrário de tempos passados, a contratação de jogadores estrangeiros deixou de ser para preencher lugares específicos para os quais o clube não tinha jogadores.

Atualmente contrata-se estrangeiros porque se considera que eles são melhores do que aqueles que estão no clube (muitos cresceram ali). Ora, sendo que nem sempre se verifica esta melhoria de qualidade de jogo, a pergunta que deixo é: será que a melhoria que trazem compensa os danos que causam?

E quando falo em danos, falo no facto de se estar a impedir que os jogadores preteridos ganhem minutos de jogo, experiência de jogo (que não se ganha nos treinos mas sim no campo, lidando com pressão, velocidade de jogo, rapidez de tomada de decisão, etc.…). Quando falo de danos, falo nos abandonos prematuros de muitos desses jogadores que foram preteridos. Quando falo de danos, falo no elevado investimento que se faz nesses jogadores que, além do eventual ganho desportivo imediato, nada mais acrescentam à história e vida do clube.

Pergunto: Quantos jogadores estrangeiros que já jogaram em Portugal contribuem, neste momento, para o desenvolvimento dos respetivos clubes? Quantos desses jogadores dedicam, de forma voluntária, tempos às escolas do clube que tanto investiu neles? Quantos jogadores estrangeiros ajudam com patrocínios os seus clubes? Quantos jogadores estrangeiros levam os seus filhos para as escolas dos seus clubes?

Para todos aqueles que defendem a contratação de jogadores estrangeiros, a resposta a estas questões é angustiante… Pois arrisco-me a dizer que a resposta àquelas perguntas é: ZERO! E indo mais fundo na ferida, se prestássemos contas do dinheiro que é direcionado para os salários destes jogadores (em vez de se investir em estrutura), a angústia é ainda maior.

E concluindo esta análise, peço para refletirem no vazio que é criado pelos muitos jogadores que, ao longo dos tempos, perdendo lugar para estes estrangeiros, abandonam o clube e diminuem e sua vontade de, um dia mais tarde, devolverem ao clube (seja como treinadores a título benemérito; seja como dirigentes; seja como patrocinadores; seja como adeptos; seja como pais; etc.) tudo aquilo que o clube lhes deu…

Mas não tenho dúvidas que o são cada vez menos….. e ainda bem!

As nossas escolas de rugby são boas! Os resultados das nossas Seleções jovens provam isso. Os clubes, cada vez mais, estão com capacidade de formarem em quantidade e qualidade necessárias jogadores de rugby.

O investimento da estrutura que possa contribuir para esta evolução é, para mim, muito mais importante e essencial do que o investimento, a fundo perdido, em jogadores estrangeiros que, no máximo, o mais que podem trazer é uma vitória desportiva imediata. O que, nem sendo sempre certo, é muito pouco para aquilo que um Clube de rugby deve estar ao serviço.

A terminar, e porque tem tudo a ver com o que acabo de escrever, não posso deixar de salientar a passagem do Grupo Desportivo de Direito às meias finais do Campeonato Nacional.

Num ano em que o clube decidiu investir todos os seus recursos financeiros na construção do novo campo, o GDD socorreu-se da prata da casa para manter-se, com honra e orgulho, na luta pelo Campeonato Nacional.

Miguel Leal e Diogo Coutinho, a título gratuito, aceitaram a missão de “pegar” na equipa e, com uma dedicação excepcional, despenderam todo o seu tempo livre a fazer acreditar uma Equipa, 100% portuguesa e sem um único jogador profissional, que é possível manter um nível competitivo suficiente para se ser respeitado e admirado.

Uma equipa que passou por uma época com inúmeras lesões e contra tempos está na luta. A vitória no derradeiro jogo da época que colocou o GDD nas meias finais não teve qualquer influência de um jogador estrangeiro...

Por seu turno, nos balneários, nos telemóveis de cada jogador, nas bancadas, nas conversa ao longo da semana, a presença dos ex-jogadores, que representaram de forma amadora e apaixonada a camisola do GDD ao longo dos anos, foi uma constante e, penso eu, um elemento importante para a ALMA como que estiveram em campo no último jogo…

O GDD é a prova de que o que referi ao longo deste artigo é defensável e realista. O investimento na alma e nas gentes do Clube tem retorno e tem FUTURO!

Por seu turno, será que é possível continuar a pensar-se que o investimento em jogadores estrangeiro também tem?

NOTA: Há muito que estou para escrever um artigo sobre arbitragem no rugby. Depois dos acontecimentos no Belgica vs. Espanha, fica o compromisso do próximo artigo ser sobre o tema.

Miguel Portela

Miguel Portela

RUGBY

Advogado e ex-jogador de rugby. Foi 63 vezes Internacional da Selecção de XV, Lobo no Mundial 2007, participou em dois mundiais de 7s e sagrou-se nove vezes campeão nacional ao serviço do Grupo Desportivo Direito. Casado, pai de 4 filhos, diretor da Formação do GDD e treinador da escalões juvenis do GDD.