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Carla Isidoro

Carla Isidoro

Consumo Consciente

As marcas, os plásticos e o alterconsumidor

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O futuro dos plásticos descartáveis tem estado a ser discutido pelos partidos políticos e pela sociedade. São a ponta do icebergue de um problema maior chamado hiperconsumo que se desdobra em sub-problemas e ameaças à sobrevivência das espécies no planeta. Que mudanças qualitativas virão dos governos, da indústria e do retalho para invertermos a insanidade da produção de lixo e do consumo desenfreado?

Há dias uma amiga publicou um post no facebook desafiando os amigos a participarem na campanha da Quercus que propunha uma quarentena ao uso de plástico descartável durante a Quaresma. Percebi que ela estava entusiasmada, mas pessoalmente não achei a ideia viável. E sem querer reduzir a campanha a uma iniciativa vaga, prefiro vê-la como inspiradora para a mudança de comportamentos que inevitavelmente terá que acontecer no futuro breve face ao uso de plásticos descartáveis, reutilizáveis e recicláveis, entre outras práticas que terão que mudar no processo de compras. Porque é que a considerei inviável? Pensei de imediato nas compras que fazemos em hipermercados, por exemplo, onde em geral encontramos a grande maioria ou totalidade dos produtos que precisamos para a alimentação e casa. E ao analisar o meu papel enquanto consumidora em hipermercados vi desde logo vários obstáculos ao uso racional do plástico. Apesar de me preocupar com o excesso de embalagens e sacos, acontece esquecer-me de levar o saco de pano que destinei para as compras de supermercado ou híper. Logo aqui sou obrigada a pagar por um saco grande de compras para transportar os produtos. Se estes sacos custassem cinco euros a unidade (que para mim seria o preço justo), mudaríamos de comportamento num ápice e não nos esquecíamos de levar sacos de casa. Mas como custam alguns cêntimos, o consumidor não se sente incomodado pelo preço nem compelido a mudar de hábitos. Por outro lado, apesar de usualmente colocar 2 ou 3 tipos de legumes juntos no mesmo saco de pesagem, ainda assim sou obrigada a usar alguns destes que inevitavelmente irão parar ao lixo assim que chego a casa. Se multiplicarmos esta ação específica pelos milhares de pessoas que todas as semanas compram frutas e legumes de norte e a sul do país em hipermercados, dá para perceber que estamos loucos e não sabemos ou não queremos saber. Não consumo laticínios, mas é costume ficar pasmada a olhar para esta secção enquanto percebo as centenas e centenas de pequenas embalagens de iogurte empilhadas em prateleiras de vários metros de comprimento que todas as semanas são devoradas e repostas. Devemos demorar 4 ou 5 minutos a consumir um iogurte e o frasco demora segundos a entrar no circuito do lixo ou reciclagem. E quem fala em iogurtes fala em pacotes de leite individuais para o lanche, saquetas de bolachas para o lanche, embalagens de fiambre fatiado, cuvetes disto e daquilo, e todos aqueles produtos subdivididos em saquetas e pequenos compartimentos, ou vendidos com embalagem dupla, que supostamente existem para facilitar a vida atarefada do consumidor. É um ciclo doentio de hiperdesperdício e hiperdesresponsabilização.

Voltando à iniciativa da Quercus, como havemos de ficar 40 dias sem comprar ou usar sacos de pesagem, por exemplo, quando a indústria compele o consumidor a não ter que pensar razoavelmente no processo de consumo nem a encontrar alternativas sustentáveis dentro do retalho? Vamos munidos com frascos de vidro e vários sacos para as compras? Vamos ao

hipermercado e deixamos as embalagens à porta em forma de protesto? Optamos por fazer as compras em locais de venda diferentes para podermos aceder a produtos a granel e assim minimizar o uso de sacos ou outras embalagens? Nada disto é prático ou viável e o impacto positivo no ambiente é mínimo.

Não é o consumidor que vai resolver este excesso. O problema terá que ser resolvido a montante, pelos governos em sintonia com a indústria e o retalho, e em paralelo o consumidor deverá ser ensinado a consumir e saber fazer escolhas através de campanhas eficazes de educação e reeducação cívicas (tal como aconteceu quando fomos ensinados a separar os lixos, por exemplo).

Ontem mesmo passei por uma situação de provação neste contexto. Encomendei uma pizza e uma dose de batatas diretamente ao balcão da loja, e quando a encomenda ficou pronta vejo o empregado a dirigir-se a mim com duas caixas enormes de cartão. A da pizza (inevitavelmente igual às embalagens comuns de pizza) e outra de formato retangular só para as batatas de forno. Peço ao rapaz para passar as batatas para um saco de papel, “caso os tenham”. Ficou atrapalhado e pergunta-me, em jeito de confirmação, se quero mesmo levar as batas num saco. Entra entretanto o supervisor e pergunta-me se há algum problema. Respondo-lhe que está tudo bem mas prefiro levar as batatas num simples saco de papel porque assim que chegar a casa as duas caixas de cartão irão diretas para a reciclagem e não vale a pena desperdiçar duas embalagens grandes. Abana a cabeça afirmativamente e ele próprio trata do processo.

Até quando vamos ter excesso de soluções de embalamento que privilegiam a desresponsabilização de quem compra quando podemos encontrar soluções práticas que vão ao encontro da sustentabilidade do planeta, de uma reduzida produção de lixo e das necessidades do consumidor?

O alterconsumidor está a ser convocado a pronunciar-se no momento da compra ao invés de comprar de forma cega, a pedir alternativas sustentáveis ao mercado, a exigir esclarecimentos às marcas sobre os ingredientes e processos que empregam no fabrico, e a procurar soluções e produtos que se adequem à ética ambiental e social na qual se revê e opera enquanto cidadão, muitas vezes pagando a diferença por encontrar um produto ou serviço consciente, amigo do ambiente, que não retire dignidade aos animais, e socialmente responsável. Este não é o típico consumidor compulsivo, pois ele não suporta a ideia de comprar para deitar fora de seguida, não se identifica com marcas nem faz questão de exibi-las ou comprá-las. É exigente e informado e segundo Gilles Lipovetsky chega a constituir 15% a 20% dos consumidores.

Qual é o próximo passo? Em que campanhas podemos participar e que hábitos razoáveis podemos aplicar sabendo que o impacto positivo da nossa intenção é expressivo no meio ambiente e na qualidade dos seres vivos em geral? Que mudanças de qualidade trará a indústria e o retalho neste sentido? Que ideias sanas virão da governação?

Remato esta reflexão com algumas palavras de Gilles Lipovetsky sobre o conceito do alterconsumidor retiradas do seu livro «A felicidade paradoxal – ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo»: “Privilegiando a qualidade de vida, ansioso por escapar ao condicionamento publicitário, determinado a deter o controlo sobre a sua vida quotidiana e emancipando-se doconformismo de massa, os «alterconsumidores» não se opõem à sociedade de hiperconsumo: são, pelo contrário, uma das suas manifestações características que sem dúvida tenderá a amplificar-se”.

Carla Isidoro

Carla Isidoro

Consumo Consciente

Fui jornalista de cultura contemporânea, culturas africanas, viagens, comportamento e tendências de consumo em media nacionais e internacionais. Do jornalismo passei para a assessoria e hoje trabalho para organizações e projetos culturais que querem a sua comunicação otimizada. Sou pós graduada em Antropologia na vertente de Cultura Material e Consumo, e especializada em Comunicação Ambiental. falaterra@sapo.pt