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A propósito da tremenda vitória de Espanha sobre a Roménia

Bolsa de Especialistas

Miguel Portela

Análise de Miguel Portela ao atual momento do rugby português

Espanha conseguiu, no passado fim-de-semana, uma importante e decisiva vitória frente à Roménia.

Em 33 jogos esta foi apenas a segunda vitória dos espanhóis sobre os romenos, conseguindo com uma série de Records, dentro e fora de campo. Um record de assistência onde se contou mais de 15.000 adeptos a apoiar, emotivamente, os Leones. Um record de pontos e ensaios marcados.

Espanha está a um passo do Mundial… O rugby é notícia por todo o lado no país vizinho… Vivem dias idênticos àqueles que nós, em Portugal, vivemos em 2006/2007, quando o muito improvável foi alcançado e um grupo de valentes homens, liderados por Tomaz Morais, alcançou o feito inédito do apuramento para o Mundial de 2007.

Para mim, que fiz parte desse percurso, não tenho dúvidas nenhumas em afirmar que o grande feito, o caminho heroico, a proeza foi mesmo o caminho para o apuramento. O Mundial foi folclore e, embora com momentos marcantes e genuínos, poderia ter sido muito melhor do que na realidade foi. Se algum dia houver uma análise objetiva aos nossos jogos, facilmente chegarão a essa conclusão.

Tenho dito com regularidade que, do ponto de vista de consolidação da nossa Seleção Principal, desde o dia do apuramento, têm-se cometido inúmeros erros. E aqui vem a propósito o momento atual da seleção espanhola. Porque a enorme valia desta seleção, que apaixona um País (as imagens do jogo são tremendas), pouco tem a ver com a evolução do campeonato interno, com as Academias de Alto Rendimento que existem em Espanha, ou a profissionalização do rugby espanhol, mas sim com uma política acertada de capacidade de reunião dos melhores jogadores para jogarem pelo seu País….

Uma capacidade que os responsáveis do rugby nacional (e muitos deles são os mesmos que, meritoriamente, conseguiram o apuramento) foram incapazes de alcançar e, até pelo contrário, contribuíram para a sua falência.

Sempre lutei contra o endeusamento das Academias de Alto Rendimento que, a partir de 2007 até cerca de 2013, se tentou implementar em Portugal. As Academias, tal como foram implementadas (essencialmente só jogava na Seleção Nacional quem fazia parte dessas Academias), criaram duas realidades que, no dia de hoje, ainda afetam consideravelmente a qualidade da nossa Seleção Portuguesa:

1 - Afastarem os jogadores que, por motivos profissionais e académicos não tinha disponibilidade para se adaptar aos treinos e horários dessa Academias;

2 - Criaram o tremendo erro de acreditarmos que seria no rugby interno e nas Academias que seriam feitos os grandes jogadores e desvalorizando a necessidade de termos na Seleção jogadores que, no dia-a-dia, jogassem e vivessem a realidade dos melhores campeonatos europeus.

O afastamento destes dois tipos de jogadores tem hipotecado a valia da nossa Seleção e é, para mim, a grande e principal justificação porque é que Portugal não tem conseguido lutar por apuramentos para novos mundiais.

A culpa não é, com toda a certeza, na formação de Jogadores (os resultados das nossas seleções Sub20, Sub28 e por aí fora provam que sabemos formar jogadores).

Não é, também, a competitividade do Campeonato Nacional – esta foi a que sempre foi, com melhor ou pior qualidade. E a prova de que não é a qualidade do nosso campeonato é o facto dos jogos entre os campeões Ibéricos serem sempre muito disputados (mesmo quando jogamos sem um único profissional e os espanhóis jogam inundados deles - a Final do ano passado em que o GD Direito perdeu mesmo no final é a prova disso).

Sei que não é fácil mas, de uma vez por todas, a FPR (e o rugby português em geral) deveria assumir uma política diferente para a Seleção Nacional…

Investir de forma estruturada na captação, motivação e possibilidade (porque muitas vezes os jogadores veem-se impedidos pelos Clubes de representar Portugal) de todos os jogadores que jogam lá fora virem jogar pela Seleção.

Gastaram-se milhões nas Academias…. Sem frutos. Com menos investimento e em menos tempo conseguir-se-ia organizar uma armada de luxo que, a cada jogo internacional, iria encher os nossos estádios.

Com estes e com os jogadores internos que realmente são diferentes (o Marta do Belenenses; o Cortes da Agronomia; Rosa do Direito; Abecassis do CDUL; Mascarenhas do Cascais; entre outros), rapidamente voltaríamos a ter chama e qualidade na Seleção…

Reconhecer o erro das Academias (tal como foram implementadas) e assumir este rumo seria um passo importante…

Não é fácil… mas, para mim, é o caminho…

Miguel Portela

Miguel Portela

RUGBY

Advogado e ex-jogador de rugby. Foi 63 vezes Internacional da Selecção de XV, Lobo no Mundial 2007, participou em dois mundiais de 7s e sagrou-se nove vezes campeão nacional ao serviço do Grupo Desportivo Direito. Casado, pai de 4 filhos, diretor da Formação do GDD e treinador da escalões juvenis do GDD.