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Vacinas extra-Plano Nacional de Vacinação

Bolsa de Especialistas

Hugo Rodrigues

Jose Carlos Carvalho

Como é lógico, a última opção é sempre dos pais, mas é fundamental que as pessoas tenham conhecimento sobre este assunto

O Programa Nacional de Vacinação português é um óptimo exemplo de sucesso. Para além da ampla cobertura contra um número significativo de doenças (algumas das quais potencialmente muito graves), podemos orgulhar-nos de ter uma das melhores taxas de cobertura vacinal de todo o Mundo, o que coloca Portugal num lugar de destaque a nível internacional.

No entanto, para além das vacinas que compõem esse Programa, há ainda outras vacinas que podem ser adquiridas e administradas em determinadas situações. A Comissão de Vacinas da Sociedade Portuguesa de Pediatria emitiu em Janeiro deste ano um documento que visa reforçar algumas recomendações para essas vacinas, que vou tentar resumir de forma prática e objectiva neste texto.

No entanto, é importante reforçar a ideia de que qualquer decisão de administração de vacinas deve ser discutida com o respectivo Médico Assistente, de forma a perceber se não existe nenhuma contra-indicação para o efeito.

Vacina contra o meningococo do tipo B

(Bexsero®, Trumenba®)

O meningococo é uma bactéria que pode existir transitoriamente nos narizes de pessoas saudáveis e, daí, propagar-se a outros indivíduos. Os principais “reservatórios” desta bactéria são os adolescentes e os adultos jovens. Tem uma capacidade grande de invadir as nossas células e pode originar infecções muito graves, como sépsis (infecção generalizada do organismo) ou meningite, por exemplo.

Existem 13 grupos diferentes, mas os mais frequentemente causadores de doença são o A, B, C, W, X e Y.

Em Portugal, a maior parte das situações são provocadas pelo meningococo do grupo B. Relativamente à vacinação contra este microorganismo, as recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria são as seguintes:

1. Todas as crianças dos dois meses aos dois anos devem, idealmente, ser vacinadas com Bexsero®

2. As crianças com idades entre os dois anos e os 10 anos devem, se possível, ser vacinadas com Bexsero®

3. A partir dos 10 anos os adolescentes devem também ser vacinados com Bexsero® ou Trumenba®

Vacinas contra os meningococos A, C, W e Y

(Nimenrix®, Menveo®)

Com a introdução da vacina contra o meningococo do grupo C no Programa Nacional de Vacinação em 2006, a taxa de infecção por esta bactéria reduziu drasticamente, estando praticamente ausente nos últimos anos em Portugal.

O meningococo do grupo W tem aumentado bastante a sua frequência na América Latina e também na Europa, particularmente no Reino Unido. Também os casos de infecção pelo meningococo do grupo Y têm aumentado nos últimos anos no nosso continente.

Assim, a Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda a vacinação contra os meningococos do grupo A, C, W e Y a:

  1. Todas as crianças com alterações da imunidade que aumentem o risco de infecção por estas bactérias
  2. Viajantes com estadias prolongadas ou residentes em países onde esta doença é muito prevalente e sempre que exigido pela autoridade local
  3. Às crianças e adolescente saudáveis, se possível

Vacina contra o papilomavírus humano no sexo masculino

(Gardasil 9®)

O HPV é um vírus que infecta algumas células do nosso organismo e que tem capacidade de provocar dois grandes tipos de lesões:

- malignas – é o segundo agente carcinogénico mais frequente, logo a seguir ao tabaco, responsável por diferentes tipos de cancro (cabeça e pescoço, colo do útero, pénis, vagina e ânus, entre outros)

- benignas – é responsável pelos condilomas (as chamadas “verrugas”), que podem existir na pele e na região genital

A vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) está incluída no Programa Nacional de Vacinação para todas as adolescentes do sexo feminino, mas não para o sexo masculino.

Por esse motivo, a Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda que:

  1. Sejam vacinados os adolescentes do género masculino como forma de prevenir as lesões associadas ao HPV.

Vacina contra o rotavírus

(Rotateq®, Rotarix®)

A gastroenterite aguda é uma infecção extremamente comum nos primeiros anos de vida, responsável por uma percentagem significativa dos internamentos nessa faixa etária. Pode ser provocada por vírus ou bactérias, mas o rotavírus é o agente mais frequentemente implicado.

Apesar da gastroenterite ser, geralmente, uma infecção com uma baixa taxa de complicações, o impacto na qualidade de vida das crianças e famílias é bastante significativo.

A vacina para o rotavírus tem que ser administrada nos primeiros meses de vida, sendo que as idade-limite variam um pouco entre cada uma das vacinas.

Por esse motivo, a Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda que sejam vacinadas:

1. Todas as crianças saudáveis, reforçando a importância do cumprimento das indicações quanto à idade de vacinação.

Vacina contra a Varicela

(Varilrix®, Varivax®)

A varicela é uma infecção extremamente comum em crianças . Apesar de poder acarretar algumas complicações, a sua taxa é baixa na infância. No entanto, as complicações são mais frequentes quando a varicela surge em adolescentes, adultos jovens ou grávidas, pelo que se trata de uma situação a evitar nestes grupos.

Em 2014 a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um documento no qual recomenda que a vacinação contra esta doença seja efectuada apenas nos casos em que se consiga obter uma cobertura vacinal superior ou igual a 80% da população, ou seja, se for incluída no Programa Nacional de Vacinação. Se a cobertura vacinal for inferior corre-se o risco de provocar um desvio dos casos de varicela para idades mais velhas, onde a taxa de complicações é maior, o que é evitável.

Assim, a Sociedade Portuguesa de Pediatria recomenda que:

1. Sejam seguidas as orientações da OMS, não recomendando a vacinação de crianças saudáveis fora de um programa nacional de vacinação

2. Sejam vacinados os adolescentes sem história prévia de varicela, porque são mais suscetíveis a doença grave e porque a vacinação deste grupo não acarretará o risco de modificação da doença para idades mais velhas (nas adolescentes do sexo feminino deve ser sempre excluída possibilidade de gravidez)

3. A vacina seja administrada a crianças que contactam habitualmente com doentes imunodeprimidos

Vacina contra a Hepatite A

(Havrix®, VAQTA®)

A hepatite A é uma infecção vírica do fígado. Até aos anos 80 era extremamente frequente, mas com a melhoria das condições socioeconómicas e sanitárias do nosso país a sua frequência reduziu-se drasticamente desde então.

Actualmente é uma infecção pouco frequente, embora tenha um potencial de contágio bastante significativo.

As recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria indicam que esta vacina deve ser administrada a:

  1. Candidatos a transplante hepático
  2. Hemofílicos
  3. Viajantes para países onde esta infecção é frequente
  4. Crianças ou adolescentes com doença hepática crónica
  5. Crianças ou adolescentes com infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH)
  6. Crianças ou adolescentes com contacto próximo com doente com hepatite A
  7. Adolescentes com comportamentos sexuais de risco para transmissão deste vírus, em particular no contexto de surtos

Conclusões

Estas recomendações são normas orientadoras que faz sentido conhecer. Como é lógico, a última opção é sempre dos pais, mas é fundamental que as pessoas tenham conhecimento sobre este assunto. Qualquer informação adicional sobre cada vacina ou sobre a doença que protege pode e deve ser discutida com o Médico Assistente, de forma a ponderar sempre a melhor estratégia a adoptar.

Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues

PEDIATRIA

Hugo Rodrigues é pediatra no hospital de Viana do Castelo e docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto e na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Pai (muito) orgulhoso de 2 filhos, é também autor do blogue "Pediatria para Todos" e do livro "Pediatra para todos"