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Sou alvo de bullying

Foi com mágoa que ouvi há dias uma colega afirmar: sou alvo de bullying

Eu, que já me queixei muitas vezes de situações vividas na escola, dentro e fora da sala de aula, que já sofri e chorei à porta fechada perante a minha incapacidade de lidar com determinados comportamentos dos alunos, fiquei primeiro perplexa e depois furiosa. Sim, foi um desabafo mais do que um pedido de ajuda. Foi a constatação de um sistema que nos deixa sós e desamparados. Foi também conhecer a crua verdade de que algumas hierarquias não sabem como lidar com este problema que vai muito para além do aluno e entra pela sua própria casa, sentando-se à mesa com a sua família quantas vezes disfuncional e desestruturada. Sim, há (e são mais do que imaginamos) professores alvo de bullying nas escolas deste país. Conheço alguns!

Habitualmente, quando ouvimos falar de bullying associamos esta prática de alunos para alunos. Porém, alguns professores vivem quotidianamente situações de sofrimento, de angústia, de desespero. E há aqueles que não aguentando a humilhação, procuram ajuda e, por vezes, a baixa médica. Não os critico. É preciso ser muito forte para ser alvo de gozo e não conseguir defender-se. É preciso coragem para ouvir ofensas e palavrões a torto e a direito, dentro e fora da sala, sem nada poder fazer. É preciso ter uma enorme integridade para, dia após dia, continuar a tentar limar arestas que pelas suas deformidades, não podem ser limadas. E é necessário, sobretudo, muita resiliência para, perante atos intencionais e repetidos de violência psicológica que me foram narrados por uma colega, não desistir. Em muitas salas de aula, vivem-se situações de bullying a professores, causadas por indivíduos ou grupos de indivíduos que causam dor e angústia e podem levar è depressão profunda, mesmo ao burnout. Fale com um médico e pergunte-lhe qual é uma das classes profissionais com maior taxa de depressão em Portugal...

O mais caricato de tudo isto é que esta situação surge numa relação desequilibrada de poder entre quem agride e é agredido. Esta desigualdade de poder é claramente verificada entre um docente e trinta alunos repetentes, com perfil de agressividade, muitas vezes já previamente identificados pela CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens). Neste caso, visto que quem agride está em maior número e é mais forte do que a vítima, estamos ou não perante um caso de bullying? Deveria ser o professor a ter poder sobre os alunos mas em muitos casos ocorre o inverso. Ou porque o professor está fragilizado e doente ou possui traços que o transformam num alvo a atingir pelos alunos que, como sabemos, respeitam cada vez menos os professores em geral, quanto mais um professor fragilizado.

A vítima tem alguma característica física que a torna “diferente” dos outros aos olhos dos alunos; o/a professor/a alvo de bullying poderá até ter sardas, usar óculos, ser gorducho/a; porém, o bullying de que é alvo surge associado a fatores de outra natureza: pode dever-se às dificuldades dos alunos na sua disciplina; ao desejo de “boicotar” determinadas aulas; à menor capacidade de interação do docente com os alunos; ou a questões mais profundas de autoestima, de autoridade ou mesmo de motivação. Estes são ingredientes por vezes suficientes para que os comportamentos dos agressores sejam propositados, com o objetivo de assustar, magoar ou mesmo intimidar a vítima. Assim, algumas salas de aula transformam-se em cenários de insultos e assistimos a docentes que são alvo de campanhas vexatórias e constrangedoras do seu bom equilíbrio emocional, levadas a cabo de forma planeada. Estamos perante casos em que os alunos conseguem delinear previamente estratégias para atingir o professor, prejudicar a aula, evitar o seu bom funcionamento, chegando mesmo a que o professor seja obrigado a ausentar-se.

Tudo seria relativamente fácil de solucionar se a escola pública, especialmente aquelas escolas integradas em territórios educativos de intervenção prioritária, conseguissem ter estratégias para resolver este e outros flagelos que a vão minando diariamente. Punir não chega nem resolve o problema. A punição, quando acontece, não se revela eficaz. Tanto os alunos em questão como os seus encarregados de (des)educação não a entendem. Resta ao professor alvo de bullying encontrar forças em si próprio, na sua família e amigos para regressar ao campo de batalha na manhã seguinte. Porque a escola não o salva desta guerra.

Carmo Machado

Carmo Machado

ENSINO

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).