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Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Um cão por dia, não sabe o bem que lhe fazia

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Carla Isidoro

Parece que no futuro, quando vivermos inundados em realidade virtual e serviços de inteligência artificial que nos distanciarão ainda mais uns dos outros e da nossa natureza, os animais de estimação é que vão estimar-nos e salvar-nos da loucura

Muitas vezes em conversa com amigos sobre o valor precioso que encontro nos animais e em particular nos cães - porque tenho cães desde criança e cresci com eles - uso esta frase como lema «Um cão por dia, não sabes o bem que te fazia.». Criei-a porque acredito mesmo nela. E, também digo, em brincadeira, que o contrário de God é Dog por alguma razão. Brincadeiras à parte, sou apaixonada por animais e reconheço-lhes o valor e a dignidade próprias de qualquer ser que vive e tem um papel a cumprir na Terra. Há milénios que criamos animais dentro de casa ou nas imediações da casa e com eles estabelecemos relações de proximidade, necessidade ou intimidade: os cães protegiam-nos a casa em troca de comida enquanto os gatos afastavam os ratos dos terrenos e das capoeiras, ao passo que os bois e cavalos ajudavam (e ajudam) na lavoura e nos transportes, enquanto outros animais eram criados para nos servirem de sustento, roupa ou moeda de troca. Esta relação nem sempre foi win-win, mas havia e continua a haver uma relação entre ambas as partes. A necessidade que temos de criar e ter animais à nossa volta é maior do que a necessidade que eles têm de nós. São mais autossuficientes do que os humanos. De qualquer forma, ainda bem que têm um papel grandioso ao nosso lado. A nossa vida seria eternamente mais pobre, a nossa saúde mental e física deficitária e a literatura menos rica se os animais não convivessem connosco nem tivessem a paciência que têm para as manias típicas dos humanos. São muitos os estudos que provam os benefícios dos animais de estimação na nossa vida e saúde pessoal.

Este ano houve uma alteração histórica no Código Civil português com a introdução de uma nova lei que assume e reconhece os animais como seres vivos dotados de sensibilidade. Tal como nós, eles são seres sencientes. Assume-se que não são objetos dos quais pomos e dispomos. Quem convive com animais e se liga a eles profundamente percebe com clareza que a sua influência no meio ambiente é fundamental e que eles sabem muito mais do que aquilo que achamos conhecer deles. A ciência lentamente, muito lentamente, vai provando competências e habilidades em animais que nos deixam espantados. Mas, se pensarmos bem, por que razão ficamos espantados se todo o ser vivo é único, tem identidade e integridade como qualquer ser humano, inteligência e linguagem própria, e, acima de tudo, um papel fulcral na manutenção da fina e complexa teia de inter-relações entre todos os seres vivos na Terra, que vai da lagarta do pinheiro à lagosta, e da coruja das torres ao coqueiro? Creio que esta nossa falta de visão para com a grandiosidade dos outros animais vem da tendência de acharmos que estamos no topo da cadeia alimentar. Mas se de repente ficarmos indefesos e com um urso adulto esfomeado à nossa frente, a nossa posição no topo da pirâmide vira fumo e nós viramos o pitéu do urso. Há que saber relativizar a história o poder.

Se é comum participarmos em conversas entre amigos onde muitas vezes são criticados o mau uso de redes sociais, aplicações e dispositivos criados para nos divertir, ocupar o tempo ou facilitar o quotidiano, imaginemos este mesmo cenário daqui a 10 ou 15 anos considerando o que os futurologistas prevêem acontecer: a imersão do ser humano no mundo da robotização, automatização, inteligência artificial e outras realidades distópicas a uma velocidade nunca antes verificada em nenhuma outra revolução cultural e industrial. Vamos ficar mais dependentes dos smartphones e de outros dispositivos virtuais do que já somos? A resposta parece-me ser um redondo ´sim´. E se entretanto não nos cair a ficha para reagirmos a tempo, o cenário pode ser negro e a nossa saúde mental estar em risco. O futurologista Gerd Leonhard diz que daqui a dois anos é previsível haver robôs a entenderem 100% da linguagem humana e que a humanidade vai mudar mais nos próximos 20 anos do que mudou nos passados 300. As implicações e consequências disto são incalculáveis. Vamos ter de passar pelo processo para saber e sentir o peso das mudanças, mas há vários especialistas em tendências de consumo e macrotendências que nas suas palestras têm vindo a alertar as pessoas para os perigos da desumanização da vida que aí vem. Eu não sou futurologista mas arrisco dizer que nas próximas décadas o número de doenças mentais e depressões irá aumentar exponencialmente graças ao distanciamento que haverá entre ser humano e a sua própria natureza, crescente isolamento e vivência equivocada dentro de realidades virtuais. Estaremos fritos…. a não ser que saibamos manter os pés na terra através de comportamentos e hábitos saudáveis, naturais e orgânicos, e quanto a isto os animais podem ter um papel altamente positivo e até reparador nas relações entre seres vivos. Tudo bem, até podemos arranjar um cão-robô pela graça de termos um, mas mantermos relações orgânicas de tato e empatia com animais de estimação tem um valor insubstituível na nossa sobrevivência. Até é expectável vermos a confusão entre real e virtual acontecer na cabeça de miúdos, mas o problema é que até os adultos de hoje estão confusos sobre as fronteiras de um e de outro agindo como se não houvesse limites. É verdade que a vida social é bastante mais confusa e complexa do que era há 10 anos, mas se hoje é assim, conseguem imaginar a loucura que será daqui a 10 ou 20 anos? É mesmo isto que queremos das nossas vidas? A ideia é estarmos continuamente a brincar ao faz-de-conta como se isso fosse a vida a sério? Parece-me uma proposta triste e limitadora que deixa pouca margem de manobra para o livre arbítrio e exercício de escolha. Na minha opinião, aproximarmo-nos da nossa dimensão mais íntegra e humana deveria ser a proposta mais razoável para o ser humano explorar nas próximas décadas, mas considerando que no futuro breve estaremos mais distanciados uns dos outros do que nunca, pelo sim pelo não o melhor é arranjarmos um cão.

Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Comecei a trabalhar em 1995 na revista do jornal A Bola enquanto tirava a licenciatura. Tive um ótimo editor que me pôs a entrevistar figuras de destaque da cultura portuguesa e a escrever sobre assuntos diversos, e esta experiência foi de extrema importância porque me deu confiança para escrever sobre (quase) qualquer coisa. Colaborei para diferentes media sobre viagens, música, cultura contemporânea, culturas africanas, comportamento, tendências de consumo, etc. Hoje sou gestora de comunicação independente para negócios, marcas e projetos artísticos. Defendo a importância de uma boa história na comunicação de qualquer marca e de conteúdos alinhados com os valores da cultura onde ela se insere. O antropólogo Igor Kopytoff diz que os objetos têm histórias de vida apesar de serem coisas. E eu concordo com ele. Se as histórias alimentaram o nosso imaginário em criança, na vida adulta elas continuam a inspirar-nos, a tocar-nos e a dinamizar o mercado. Quem não gosta delas? Sou licenciada em Ciências da Comunicação e pós graduada em Antropologia na vertente Cultura Material e Consumo.