Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Larguem o telemóvel

Eu defendo o uso do telemóvel, até mesmo nos adolescentes. Mas tenho que reconhecer que precisamos de aprender com o uso

É um texto que não me imaginava a escrever, mas que faz naturalmente parte da aprendizagem. Eu defendo o uso do telemóvel, até mesmo nos adolescentes. Mas tenho que reconhecer que precisamos de aprender com o uso.

Num qualquer congresso, já há uns anos, uma senhora presente, meio em jeito de desafio, conta que um daqueles dias no Metropolitano viu 4 pessoas todas sentadas frente a frente, todas com os olhos fixos a “olhar para o telemóvel”.

Muito de vez em quando há alguém que decide, erradamente, que eu sou em parte culpado do avanço do mundo, num sentido que não lhes agrada. No caso, a senhora diz-me, como se eu fosse um traficante empenhado em viciar o próximo nos pequenos ecrãs, que “aposta” que as tais pessoas não fariam nada se alguém caísse no meio do chão ao lado delas.

O alvo no palco, eu, lá tive que defender o inevitável. Tive que lhe dizer que não acreditava que as tais pessoas, que nunca vi na vida, ficassem indiferentes, o que fez o consenso na sala. Mas a minha mensagem consistiu sobretudo em combater a ideia de que os 4 estavam a “olhar para o telemóvel”. Estavam a fazer outras coisas, a jogar, a ler jornais ou livros, a falar com os amigos, tudo o que se pode fazer quando se está a “olhar” para o telemóvel, e por muito fútil que essa atividade pudesse ser, seria mais interessante do que olhar para as janelas do metropolitano enquanto este atravessa quilómetros de túneis fechados.

A senhora tinha o seu ponto, claro, e exagerou a situação para defender um ponto de vista, levou com uma resposta ao mesmo nível. Exagerada, mas com o seu fundamento. Como eu estava em cima do palco fiquei com a sensação de ter ganho a civilizada discussão.

Hoje talvez não lhe respondesse da mesma forma.

Não consigo encontrar o artigo mas li um texto em que uma psicóloga dizia que as crianças precisavam de tempo para se aborrecerem, argumentava que aqueles momentos em que um miúdo chateado diz à mãe “não sei o que fazer” e a mãe responde “inventa” são fundamentais para estimular o crescimento e a criatividade. O problema de muitas crianças e adolescentes, e aí não faltam artigos sobre o assunto, é que não têm o “tempo para se aborrecerem” têm sempre qualquer coisa num ecrã que lhes ocupa a mente e na prática lhes está a toldar a imaginação e a impedir o estímulo criativo.

Dei comigo a pensar muito seriamente nisto e no que tenho visto em muitos jovens que “têm tudo” e estão sempre insatisfeitos mas que parecem não fazer nada contra isso. Decidi começar por mim próprio. Tenho feito um esforço muito consciente para não pegar no telemóvel quando estou 3 minutos na fila para tomar um café na SIC, não pegar no telemóvel quando estou meia hora à espera de uma consulta médica, não pegar no telemóvel de cada vez que me encontro sozinho entre estranhos como se estivesse ali a criar uma barreira, sempre a pretexto de aproveitar o tempo para despachar uns “mails”.

Caiu-me literalmente em cima uma sensação de libertação que não esperava, uma estranha euforia de liberdade alcançada. De facto, daí a pouco, quando me sentar no computador, despacho os mesmos “mails” sem ter perdido grande tempo, ganhei muito no intervalo analógico desta vida digital. Talvez ainda mais por ter esta coisa de ser jornalista recuperei o poder de observação do que me rodeia. Passei a ter pelo menos tantas ideias nestas pausas como tenho no duche, onde de facto nunca introduzi o smartphone. Dou comigo a pensar o quão estranho é que tenha que fazer um esforço consciente, uma pequena luta interior para me “aborrecer”, para fazer uma pausa e olhar em volta quando estou no meio de outros. Imagino que a muitas pessoas este texto não diga rigorosamente nada, terão tido a sorte de não se deixarem dominar pelas muitas e úteis actividades que nos ocupam quando “olhamos para o telemóvel”, a maioria dessas pessoas a quem este texto não diz nada provavelmente já foram ler outra coisas antes de chegar aqui. Se esta obsessão digital o fez ler todos os caracteres que estão aí para trás, experimente! Largue o telemóvel, aborreça-se deliberadamente, aceite a conversa da chata que está ao seu lado mortinha por contar maleitas que não lhe dizem nada, arrisque o olhar insistente do puto mal educado que só procura uma cara que lhe dê atenção. Largue o telemóvel e tente entender, aquelas senhoras perto dos 70 que enquanto conversam casualmente não largam o seu joguinho casual no telemóvel, veja de fora a miúda apaixonada a olhar para o último vídeo piroso a fazer sucesso no YouTube, o casal que partilha os factos sem importância que lhe caiem no fio do Facebook. Largue o telemóvel um bocadinho só. Garanto que vale a pena admirar o ecrã grande da vida analógica, de cara destapada, sim porque os tais ecrãs também estão a servir para escondermos as nossas emoções. Acho que já disse, agora vou ali ouvir um bocadinho de música, só música sem mais.

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

TECNOLOGIA

Jornalista e editor de Novas Tecnologias na SIC