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Cancro,

Queria gritar-te que não te quero aqui e que não vou sentir a tua falta quando desapareceres

Não te vou perguntar o porquê. Penso que a escolha de nos conhecermos também não foi tua e por isso deduzo que não me possas responder. Apesar disso, sinto a necessidade de te informar que mesmo nós já não sendo desconhecidos, nunca poderemos ser amigos. Também não acredito que saibas o porquê disso.

Foi a minha mãe que nos apresentou, através dela mostraste-te a mim. E ao contrário do que pensei, não foi com lágrimas que primeiro te cumprimentei. Por dentro, ria-me. Estava nervosa, como se estivesse a apertar a mão a alguém famoso. E no fundo, era mesmo isso que estava a acontecer. Toda a minha vida ouvi falar sobre ti e sempre tive medo de te conhecer. Quando te conheci, ri-me, eras uma espécie de Jet Set.

Não consigo imaginar o que pensaste da minha reação, acredito que estejas deveras mais habituado a lágrimas, do que a risos. O meu desejo era que te tivesses assustado com o inesperado e com espanto te fosses embora, mas não, escolheste ficar. Eventualmente, os nervos passaram e não me voltei a rir. Pouco a pouco, fui-te conhecendo melhor. Aprendi que nem todos os dias são cheios de ti. A maior parte deles até te encontras ausente ou pelo menos escondido, onde eu não te consigo ver. Noutros, não existe nada mais óbvio do que tu. Encontro bocados de ti em todo lado, na almofada repleta de cabelos caídos, nos medicamentos espalhados e na dor que provocas. Desejo que cada cabelo seja um bocado de ti a desaparecer e quando te encontro, atiro-te para a sanita e observo a água a levar-te para onde não possas voltar.

Os meus avós cuidam de uma filha muito depois de a verem crescer, porque nasceste nela e agora obrigas a que alguém tome conta de ti. Não existe alguém com pior karma, que nasceste para matar ou para morrer. Espero que morras, cancro, espero que desapareças e nunca mais voltes. A vida é pior para ti do que a morte.

Quando perguntei à minha mãe se podia escrever sobre ti, não pensei que iria acabar a escrever para ti. Não faz sentido pedir para ires embora, nunca vais ler as minhas palavras nem mesmo decidir ignorá-las... Não sabes ler.

Mas quando comecei a escrever, não existia ninguém a quem eu mais quisesse contar o que senti ao te conhecer, do que a ti próprio. Queria gritar-te que não te quero aqui e que não vou sentir a tua falta quando desapareceres. Queria dizer-te que os meus risos foram uma forma diferente de chorar. Queria que soubesses a dor que causas. Sabes bem e repito que nunca vamos ser amigos.

Acima de tudo, queria fazer-te uma pergunta que não consigo deixar de fazer. Porquê?

Benedita Mendonça

Benedita Mendonça

ADOLESCÊNCIA

O meu nome é Benedita Mendonça e tenho 18 anos. Frequento o 12º Ano no curso de Humanidades. Já fui jogadora de ténis...agora sou só preguiçosa. Sofro de um vício incurável por Coca-Cola, o que provavelmente me ajuda a perder horas de sono a ler ou a escrever. Dá-me jeito tornar essas horas em algo mais do que perdidas e é por isso que quero partilhar toda a vasta experiência que esta minha idade me oferece sobre a adolescência.