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Melhor educação = Mais e melhor emprego

Ter um diploma é, certamente, importante, mas aprender os valores da sociedade, aprender a viver em comunidade, a respeitar e ajudar os outros é ainda mais importante

Como educação deve ser considerado não só o processo de aquisição de conhecimento, mas também o sucesso que se tem ao aplicar esse mesmo conhecimento à realidade

E qual é o verdadeiro sentido de ter uma educação? Ter um diploma é, certamente, importante, mas aprender os valores da sociedade, aprender a viver em comunidade, a respeitar e ajudar os outros é ainda mais importante. O sistema educativo deve ajudar a integração dos jovens e crianças na sociedade. Logo, o facto de as escolas serem reconhecidas somente por um ranking quantitativo não ajuda a que se valorizem outros pontos para além da capacidade dos alunos em apreenderem (muitas vezes decorarem) a matéria ensinada.

A capacidade que um professor tem de motivar um aluno é fundamental para que este possa ter sucesso na aquisição e aplicação de conhecimento. Para além de que é o professor quem melhor pode avaliar o talento, ou predisposição dos alunos para as diferentes matérias, e então ajustar o conteúdo do programa a estes interesses.

Ultrapassar a mera transferência de conhecimento

A revolução que existiu no acesso ao conhecimento tem de ser acompanhada pelas escolas. Para os alunos tornaram-se críticas novas competências, como a capacidade de pesquisar e selecionar informação, bem como saber comunicar. Para além disso, o facto de ser cada vez mais fácil aprender sozinho leva a que autonomamente se possa enveredar por uma especialidade. Contudo, ao longo da vida é muito provável que os alunos de hoje venham a ter várias carreiras, logo diferentes áreas de especialidade.

Terá de haver uma abordagem muito mais pragmática e prática, substituindo o antiquado sistema da mera exposição de conhecimentos, em que os alunos não tenham de se preparar somente para testes ou exames. Já não é suficiente transferir conhecimento do professor para o aluno. O desafio passa por conseguir captar a atenção de um aluno, sobre qualquer matéria, quando este sabe que tem acesso esse mesmo conhecimento, em minutos, no seu smartphone. Para isso será imprescindível desafiá-lo a pensar e assim desenvolver outras das competências fundamentais que é a resolução de problemas complexos.

Urgentemente, tem de se avançar para esta personalização do ensino, em que o professor continua a ter um papel crucial, mas onde tenha ferramentas à sua disposição, que o ajudam a gerir o seu tempo, de forma mais eficiente com os alunos que acompanha. Um bom exemplo é o projecto da academia Khan que está a ser testado em várias escolas dos Estados Unidos da América e em que o software para além de ajudar na aprendizagem também dá métricas sobre o nível de conhecimento de cada aluno.

Personalização do ensino

Terá de ser possível avaliar alunos diferentes com exames e outras metodologias diferentes e adequadas a cada um. Hoje todos são avaliados de forma igual, achando-se que assim se cria uma base para todos competirem de forma idêntica. Contudo, este sistema acaba por aumentar desigualdades, pois as crianças na escola não têm todas a mesma base familiar nem vivem no mesmo contexto socioeconómico. Esta forma de avaliar leva mesmo a que muitos alunos que são considerados médios, ou nem isso, a mais tarde serem as estrelas de algumas empresas ou mesmo os líderes de centenas ou milhares de pessoas. E o contrário também é verdade, ou seja, não são sempre os melhores alunos aqueles que mais sucesso têm na vida profissional.

Para se chegar a este nível de personalização do ensino muito terá de mudar. Contudo, já existem sistemas mais avançados, como o caso do Finlandês. Este sistema, que é um dos mais inovadores e com maior sucesso, também tem um programa base definido pelo Ministério, mas depois os professores têm a autonomia para poderem ajustar o programa a cada aluno. Há imenso potencial em todas as salas de aulas, que tem de ser exponenciado, libertado e não amarrado ou frustrado só porque se quer ser diferente ou fazer de forma diferente, justificando-se tudo com o objectivo de se cumprir um programa, muitas vezes pouco motivante ou até obsoleto.

Em Portugal temos de elevar a discussão sobre o nosso sistema educativo. Mas para tal é necessário que o básico exista, ou seja, os professores têm de ser reconhecidos pelo trabalho que desenvolvem. A responsabilidade que têm é enorme, pois são eles que efectivamente ensinam toda a sociedade. É, portanto, fundamental que exista um reconhecimento social e financeiro por esta profissão, pois só assim será possível atrair os melhores para esta nobre função.

Educação como atração de talento e investimento

Será necessário incluir no debate sobre a estratégia para a educação a forma como esta se adequa ao mercado de trabalho no futuro, bem como como pode ajudar a criar mais e melhor emprego e a posicionar Portugal como um País onde a educação funcione sendo assim uma das pedras basilares da sociedade. A educação pode, inclusivamente, ser abordada de um ponto de vista empresarial, ou seja, através de um moderno e adequado sistema educativo, público ou privado, podemos ter a capacidade de atrair mais estudantes internacionais, e consequentemente famílias e empresas. Um bom exemplo é o programa CEMS MIM (Mestrado em Gestão Internacional) da Universidade Nova e que conta com alunos de diferentes nacionalidades. O talento português é já um dos factores que leva empresas a virem para Portugal, mas devemos apostar cada vez mais na formação de pessoas qualificadas, o que só poderá beneficiar a criação de novos empregos.

Esta adequação dos currículos das escolas ao mercado de trabalho não deverá acontecer somente ao nível universitário mas deve ser transversal a todo o sistema de ensino, tendo sempre em consideração o que está a acontecer ao nível socioeconómico, e acompanhando os novos desenvolvimentos tecnológicos.

Educação contínua

Saindo da formação de base e passando para a formação profissional, assistimos ao surgimento de várias academias de verdadeira reconversão profissional. Assistimos a pessoas com backgrounds totalmente distintos a aprenderem a programar, pois o mercado necessita muitos profissionais nesta área e não há a capacidade das Universidades em satisfazerem esta procura, e por outro lado há pessoas que não encontravam emprego e assim tornam-se verdadeiramente empregáveis.

Os adultos têm assim a oportunidade de aprender just-in-time, ou seja, quando têm necessidade e motivação para o fazer. Esta pode também ser uma oportunidade para as Universidades saírem do modelo habitual das pós-graduações, mestrados e cursos para executivos. Existem muitos profissionais a precisarem de ajuda numa fase em que muitas carreiras estão em vias de extinção e outras estão a surgir.

Esta capacidade de adaptação que alguns profissionais já revelam ser-lhes-á fundamental para vencerem no novo mercado de trabalho, aliás como já foi abordado no último artigo na temática sobre o quociente de aprendizagem.

Concluindo, numa fase de enorme mudança existe uma oportunidade para podermos liderar o processo, em vez de, mais uma vez, irmos somente atrás do que vier a ser feito por outros países. É fundamental gerar confiança no sistema, logo as alterações que vierem têm de ser efectivas e duradouras.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.