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Carla Isidoro

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Estou contigo, David Byrne: Queremos viver sem fricções?

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Carla Isidoro

Jeff J Mitchell / GettyImages

David Byrne publicou um artigo onde fala da não fricção, ou seja, da gradual eliminação de contacto e atrito entre humanos nas relações de trabalho hoje e no futuro. Preocupado com o impacto negativo da tecnologia nas relações humanas, o músico gerou discussão. Queremos viver sem fricções?

A questão que o artigo «Eliminating the Human» de David Byrne me levanta de imediato é: será que vamos ficar, com a eliminação da fricção nos relacionamentos de trabalho e comerciais entre pessoas, automatizados nos comportamentos e ‘mecanóides’ no pensamento, ou ao invés teremos um rasgo de luz para extrapolar a desumanização e assim potenciarmos em cada um de nós aquilo que distingue humanos de máquinas? Para bem da saúde mental e espiritual da humanidade, precisamos de respostas e de perceber qual é o antídoto contra os efeitos colaterais da mecanização da vida. A resposta, nesta fase, surgirá a partir da pergunta “mas afinal o que é que nos distingue de robôs que podem ser programados para mimetizar quase tudo?». É importante que cada um chegue às suas conclusões para agir em conformidade. Digo até que temos de começar já o processo de re-humanização da espécie porque podemos estar perto da extinção do Homo Sapiens Sapiens como o conhecemos até agora. Passarmos a ser biónicos e uma fusão entre gente e robô é uma possibilidade real no futuro próximo.

Ao delegarmos, mais ou menos conscientemente, para as máquinas algumas das nossas tarefas e escolhas orgânicas, estamos assim a fazer bypass aos fatores humanos de contacto e decisão. E assim afastamo-nos da avançadíssima e perfeita tecnologia com que nascemos e fomos programados enquanto seres humanos, a mais desenvolvida que existe e privilegia a interação social. Os grandes industriais e investidores veem no atrito humano um empecilho que faz perder muito dinheiro e tempo, seja nas vendas, no atendimento ao cliente, na devolução de produtos, nos procedimentos em si. Eliminar o atrito humano, colocando máquinas ou robôs a fazer as coisas, acelera os processos, faz poupar dinheiro, e elimina muita chatice. Megatendências como a automatização, a digitalização e a internet das coisas, entre outras, estão e vão introduzir transformações profundas no trabalho, na educação e nas relações humanas. Positivas e negativas. Vejamos negócios que já são exemplo de como as coisas poderão vir a ser de forma massificada no futuro breve: a Uber, o Spotify ou a Amazon. Digitaliza-se, retiram-se intermediários, e os processos ficam mais fáceis, rápidos e baratos. O lado negativo disto tem a ver com a potencial automatização do ser humano face às mudanças impostas no sistema de trabalho, no comércio e afins. Podemos ficar mais parecidos com as máquinas, enquanto elas se assemelham a nós. Isto não soa nada bem.

Retirar o ser humano do processo de interação, seja eliminando os indivíduos das lojas, do atendimento ao público, dos centros de apoio ao cliente, da condução de automóveis, dos hospitais, etc, poderá significar o início do declínio das competências humanas e da nossa capacidade inata para intuir, inferir, entender, aceitar e saber negociar. Ficaremos assim mais frios e inflexíveis ao erro, à falha e às diferenças? Iremos formatar os nossos comportamentos e critérios de acordo com uma normalização imposta por sistemas de inteligência artificial?

«Remove humans from the equation, and we are less complete as people and as a society», diz Byrne no seu artigo. Ao eliminarmos a fricção da vida comum como os impasses e as chatices próprias das relações entre humanos, apagamos da equação fatores únicos que estabelecem a fronteira entre humano e humanoide: aceitar o outro, saber lidar com diferenças, discutir e abolir preconceitos, argumentar integrando ideias opostas, ou, ainda mais complexo, olhar nos olhos e saber ler o que lá vai dentro.

Conseguiremos, se quisermos levar isto ao extremo, apagar lentamente as emoções da humanidade e controlar a natalidade da população colocando grande parte dos indivíduos alienados a terem relações emocionais com sistemas operativos ou a fazerem sexo com robôs. Basta alguém com poder e muito dinheiro querer alcançar este objetivo num mundo onde a ética estará fragmentada, os cidadãos privados de direitos e privacidade, e dependentes da vida virtual.

A posição de alguns especialistas deslocados da realidade de que seremos Deus ao vencermos a morte através da aplicação de sistemas tecnológicos altamente sofisticados como a edição do ADN, revela que há megalómanos a brincar com o futuro com ferramentas sofisticadas que não estão ao alcance do cidadão, conferindo domínio e poder a uns, e colocando a maioria no papel de submissos. Portanto, é previsível pensar que há ou haverá uma guerra de acesso ao poder tecnológico contra a qual temos de estar atentos, devemos proteger-nos como espécie e saber manter a democracia. Contra posturas radicais que levam ao tecnopânico realista de David Byrne, teremos que começar já a re-humanizar a mente e as ações, usando e abusando de competências exclusivas e belas do ser humano (compaixão, entreajuda, bondade) e não permitir que as aberrações ultrapassem o bom senso. A ética terá, muito em breve, que ser revista em cada país para adequar-se a novas e inesperadas realidades. Precisamos dela como de pão para a boca, não fosse o ser humano tão bom como diabólico. Podemos esperar tudo de nós.

Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Comecei a trabalhar em 1995 na revista do jornal A Bola enquanto tirava a licenciatura. Tive um ótimo editor que me pôs a entrevistar figuras de destaque da cultura portuguesa e a escrever sobre assuntos diversos, e esta experiência foi de extrema importância porque me deu confiança para escrever sobre (quase) qualquer coisa. Colaborei para diferentes media sobre viagens, música, cultura contemporânea, culturas africanas, comportamento, tendências de consumo, etc. Hoje sou gestora de comunicação independente para negócios, marcas e projetos artísticos. Defendo a importância de uma boa história na comunicação de qualquer marca e de conteúdos alinhados com os valores da cultura onde ela se insere. O antropólogo Igor Kopytoff diz que os objetos têm histórias de vida apesar de serem coisas. E eu concordo com ele. Se as histórias alimentaram o nosso imaginário em criança, na vida adulta elas continuam a inspirar-nos, a tocar-nos e a dinamizar o mercado. Quem não gosta delas? Sou licenciada em Ciências da Comunicação e pós graduada em Antropologia na vertente Cultura Material e Consumo.