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Quando comecei a dar aulas eu era feliz...

Estavam muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo, dentro e fora de mim, dentro e fora da sala, dentro e fora da escola. Dentro e fora da minha turma. E ainda não eram nove horas da manhã...

Quando comecei a dar aulas, eu era feliz. E talvez ainda seja...

Naqueles anos não havia telemóveis, computadores ou quadros inteligentes.

Havia apenas o velho quadro de giz e muitos afetos. Entretanto, o mundo mudou e hoje disputo diariamente a atenção dos meus alunos com um telemóvel topo de gama. Mas a sensação de fracasso que por vezes me assola nesta profissão de professora é sempre compensada quando um aluno me encontra e me sorri, cúmplice de tudo o que se pode viver dentro de uma sala ao longo de um ano letivo.

É claro que há dias, semanas e meses mais compridos do que outros na vida de um professor. Porém, quando nos deixamos envolver na complicada teia que é uma escola T.E.I.P (território educativo de intervenção prioritária), por vezes torna-se quase impossível resgatar a nossa paz. A verdade é que o primeiro período ainda não terminou e eu já começo a sair da escola sentindo-me um pêndulo desengonçado.

Na última semana, a Verónica pediu-me para sair da aula a meio, com lágrimas nos olhos. São duas aulas por semana e em ambas isto aconteceu.

Na última aula, saí com ela da sala e perguntei-lhe:

- O que se passa contigo, miúda?

- Deixei de me gostar, stora – respondeu-me a medo, já entre grossos soluços.

- O quê? – perguntei, sem perceber muito bem o que ela queria dizer mas quase convencida de que alguém a tinha deixado (imaginei logo um qualquer namorado ou namorada), habituada a que, nesta idade da adolescência, os amores e desamores sejam parte integrante do dia a dia escolar.

- Não, stora. Odeio-me! - afirmou, com raiva.

Fiquei surda e vazia. Antes de encontrar palavras, abracei-a. A minha aluna Verónica continuava a chorar e eu continuava sem saber o que lhe dizer. Ainda não eram nove horas da manhã e dentro da sala eu tinha vinte e nove seres expectantes que não poderia deixar muito mais tempo a sós. Pedi à Verónica para ir apanhar um pouco de ar e entrei na sala. A turma olhou-me com várias interrogações e eu atirei-lhes apenas com um vocês têm de ajudar a Verónica porque ela hoje está muito triste...

- Mas como é que nós a podemos ajudar sem sabermos o que ela tem, stora? – ouve-se a voz do aluno mais sociável da turma vinda do fundo da sala.

- Ela não gosta muito dela própria! - afirmou a Inês, aluna de olhos grandes e vivazes.

- Autoestima! – lançou o Pedro, rapaz alto e já muito sabedor destas coisas da vida.

- Mas se for isso, só ela é que se pode ajudar, stora! – responde a Beatriz, segura de si.

Entretanto, o Tiago chega atrasado à aula de Português e pergunta-me se pode entrar. Concordei. Ele vem na minha direção e diz, sem qualquer inibição:

- Stora, a polícia estava a fazer uma rusga lá no bairro e não podíamos sair.

Eu tinha parado para pensar. Não conseguia. Tentei a custo retomar a aula. O tema era o texto poético.

- O que é a poesia para vocês? - insisti perante um público mudo. Eles olhavam-me sem resposta. Estupidamente, achei que falar de poesia talvez ajudasse. A eles e a mim. Falei-lhes dos poetas, dos sonhadores, dos amores e desamores, dos carteiros e... de Pablo Neruda. Nada. Não reagiram. A dada altura, não sei se já farto da minha insistência ou se queria simplesmente que eu me calasse, o Hugo respondeu-me com alguma agressividade na voz:

- Poesia, stora? Poesia? Poesia? Atão, poesia é a alma do escritor na ponta da sua caneta...

Fiquei calada de novo. Não havia ali mais nada a dizer.

Estavam muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo, dentro e fora de mim, dentro e fora da sala, dentro e fora da escola. Dentro e fora da minha turma numa escola T.E.I.P.

E ainda não eram nove horas da manhã...

Carmo Machado

Carmo Machado

ENSINO

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).