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“Gosto dele mas… falta qualquer coisa”. O fim do erotismo na relação

Nisto do amor e do erotismo não há caminhos certos ou errados. É como é para cada casal

O João é um companheiro para a vida, não tenho dúvidas nenhumas disso e é com ele que eu quero ficar. A relação corre bem, ele é giro, divertido, inteligente mas, não temos sexo. A maior parte do tempo eu estou feliz com ele. Temos muitas coisas em comum, conversamos sobre tudo, sabemos tudo um do outro e ele faz tudo para me agradar. E até agrada mas… falta-me qualquer coisa…A minha parte racional sabe que não é possível voltar a sentir aquelas borboletas na barriga que eu sentia no início. E também não quero estar insegura sobre o sentimento dele por mim, como acontecia no princípio da relação. Quero ter a segurança do compromisso mas… gostava de recuperar algum entusiasmo, alguma excitação. Olho para ele e vejo como é bom pai e bom companheiro, partilhamos tudo um com um outro mas, nunca me apetece sexo, falta-me qualquer coisa, não sei o que é…”

A Joana está com o Rui há 7 anos numa relação que lhe dá segurança, amor, família, e intimidade. Ainda assim, falta-lhe “qualquer coisa”. Passados sete anos de vida em comum, o desejo sexual da Joana não resistiu. O seu discurso mostra claramente a tensão entre o conforto do amor e o desejo de ter desejo. A segurança do compromisso e a necessidade do desejo erótico parecem inconciliáveis. Por um lado, ela quer manter o compromisso e gosta da segurança e familiaridade que tem com o companheiro. Mas ao mesmo tempo, ela quer recuperar a excitação e a tensão que o desejo envolve, e que se perdeu algures.

O impasse da Joana é comum a muitas mulheres. A história da deserotização da relação repete-se em muitos casais e apresenta-se como um problema sistémico e existencial. O que é isto que falta à Joana e a tantas outras mulheres? Esta “qualquer coisa que falta” chama-se vitalidade erótica, uma força que mobiliza o desejo. Estamos a falar do erotismo, uma energia essencial para salvar o sexo na relação de longa duração. É um investimento exigente, individual e relacional. É coisa de um, do outro, e dos dois um com o outro.

O que é que destrói o erotismo no casal?

As ameaças ao erotismo do casal são de vária ordem, afectam muitos casais mas não necessariamente todos.

1 - A falta de autonomia - Algumas pessoas tendem a abandonar os seus próprios interesses para poderem dedicar-se ao outro, agradar ao parceiro para se fazerem amar. A perseguição do prazer implica um certo grau de egoísmo. Algumas pessoas não são capazes disto porque estão demasiado absorvidas com o bem-estar do outro. Mas é difícil sentirmo-nos atraídos por alguém que abandonou o sentido de autonomia. A dependência do outro é anti-erótica.

2 - A fusão do casal - O desejo de fusão com o outro, o querer partilhar tudo, pode ser um factor predador do erotismo. Numa relação fusional a conexão já não é possível porque ser perdem os limites individuais, e por isso deixam de ser dois. Quando as pessoas desejam a fusão, o outro deixa de existir para ser desejado. Demasiada proximidade impede o desejo. O desejo precisa de espaço. Alguns casais dizem-me que sabem sempre tudo do outro, que não há segredos nenhuns. Eu desconfio que isto seja um bom sinal. O sentido de conhecer totalmente o outro, não deixa espaço para o mistério, para a curiosidade e descoberta. O erotismo precisa de alguma separação, como o fogo precisa de ar.

3 - A rotina e a previsibilidade - A sexualidade na conjugalidade assume um carácter doméstico e familiar. As rotinas do quotidiano trazem uma previsibilidade conhecida mas, o desejo é antes nutrido pelo desconhecido. O erotismo é activado pelo mistério e pela imprevisibilidade. O desejo choca com a repetição, a rotina e o hábito. O erotismo floresce no imprevisível e na incerteza. Anthony Robbins refere que a paixão numa relação é proporcional à quantidade de incerteza que se consegue tolerar.

Manter o desejo ao longo do tempo é difícil porque requer conciliar duas forças opostas: a liberdade e o compromisso. Esther Perel diz que o desafio das relações modernas consiste em reconciliar a necessidade de segurança e do previsível com o desejo de perseguir o que é excitante, misterioso e inspirador.

Mas este conflito de forças não se coloca a todas as pessoas. Alguns casais estão bem no remanso da intimidade e do carinho e não precisão tanto desta tensão erótica. Preferem um amor mais construído na paciência do que na paixão. Nisto do amor e do erotismo não há caminhos certos ou errados. É como é para cada casal.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.