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Ditadura do Politicamente Correto: uma inquisição psicológica

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Pedro Varandas

Como cidadão não perfilho de muitas ideias do Dr. António Gentil Martins e naturalmente achei mais uma vez um disparate que considerasse a homossexualidade uma anomalia. Mas a sanha persecutória e o linchamento público de que foi vítima não é aceitável

Aprendi a respeitar e admirar o Dr. António Gentil Martins pela história pessoal que conhecemos, pelo seu currículo clínico e científico enquanto médico e, enquanto médico também, pelo seu passado de intervenção pública.

A sua proposta de Serviço Nacional de Saúde na altura desconsiderada como “corporativa” e “capitalista” até teria sido, se implementada, bem mais interessante para a população que o sistema que acabamos por implementar. Era uma proposta de Serviço Nacional de Saúde consubstanciado na livre escolha e semelhante aos bens testados e seculares sistemas Alemão, Francês ou Holandês. Para o bem e para o mal acabámos por copiar o sistema Inglês com os resultados positivos e negativos que hoje conhecemos.

Como cidadão não perfilho de muitas ideias que o Dr. António Gentil Martins afirma publicamente e naturalmente achei mais uma vez um disparate que considerasse a homossexualidade uma anomalia. Contudo, a admiração que tenho pela pessoa e a compreensão do que foi a sua formação de valores e princípios na cultura do seu tempo, permite-me condescender com a dita opinião expressa.

Aceito que sendo expressa publicamente mereça contestação e porque não correção por ofensa dos visados.

O que já não me parece aceitável foi a sanha persecutória de que foi e está a ser alvo, bem como, do linchamento público (sobretudo nas redes sociais) de que foi vítima.

Não houve da parte de um grupo de cidadãos qualquer contemplação na “pancadaria” que lhe deram e, sobretudo, não houve da parte de alguns médicos que se queixaram no Conselho Disciplinar Sul da Ordem dos Médicos, o cuidado de respeito pelo “mestre mais velho” ainda que tenha emitido um disparate sem consequências para a saúde pública.

Este exemplo de crucificação pública por delito de opinião exercido genericamente, pelos pares e pela elite da sociedade faz-me temer pelo regresso de velhas práticas inquisitoriais.

Tal como no passado uma maioria anónima aplaude o linchamento por delito de opinião (nem que seja um disparate) o que um grupo organizado de eleitos determina o que é moralmente aceitável dizer ou agir.

Tal como no passado, este grupo “ideologicamente correcto” pelos padrões actuais produz ataques destrutivos ao bom nome e reputação dos visados com inevitáveis consequências psicológicas, profissionais e sociais. Nos EUA são frequentes os despedimentos nas universidades e outras instituições de todos aqueles que ousarem questionar a opinião dominante.

Uma elite sobranceira, demasiado convicta do seu saber e impositiva normalmente esconde a sua pouca densidade intelectual. Dela só resta snobismo, pretensiosismo e o desejo de castigar os infiéis ideológicos que se atrevem a discordar do alinhamento imposto.

Felizmente que nos tempos modernos o linchamento através das redes sociais não tem qualquer comparação com as fogueiras inquisitoriais. A aniquilação física não existe mas acredito que o dano psicológico perdure.

Temo ainda assim por uma sociedade que se está a desequilibrar porque a sua própria elite ou parte dela que se apoderou do espaço público se comporta como facção inquisitorial. Na verdade, a história diz-nos que quando a elite perde a capacidade de tolerar, condescender e enfim balancear com equilíbrio e sensatez opiniões e movimentos, a “maioria silenciosa” que a segue ou que surdamente a poderá renegar (às vezes de forma perfeitamente inesperada), acabará por explodir e trazer de facto à tona todo o primarismo e primitivismo que a civilização felizmente mantem reprimidos. De facto, sem uma elite de qualidade o caminho fica aberto para tudo.

Como psiquiatra atento à sociedade em que vivo tenho-me questionado se este fenómeno explosivo não se terá já iniciado e se afinal a referida elite inquisitorial na sua imposição moral relativista não estará a fabricar o monstro que nos haverá de esmagar (vidé a construção do fenómeno Trump).

Certamente que a censura associada ao pensamento politicamente correto não será a única responsável, mas que está a contribuir muito para isso está. Por agora está a ser responsável por um enorme condicionamento psicológico.

Pedro Varandas

Pedro Varandas

PSIQUIATRIA

Psiquiatra Pedro Varandas é psiquiatra, e o atual secretário da Sociedade Portuguesa de Psiquatria e Saúde Mental. É diretor clínico da Casa de Saúde da Idanha e da Clínica Psiquiátrica de S. José, dois principais hospitais psiquiátricos de Lisboa.