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Novo manifesto – Não aos TPC!

Bolsa de Especialistas

Hugo Rodrigues

Mais um ano lectivo em que vai continuar tudo na mesma?

Este é um tema extremamente controverso e, como tal, não existe uma opinião consensual sobre ele. O debate entre vantagens e desvantagens é infindável e há sempre quem defenda ou critique os tão “famosos” TPC. Por esse motivo, acho que vale a pena tentar abordar este assunto de forma mais ou menos objectiva, ressalvando apenas de que me irei debruçar sobre o 1º Ciclo do Ensino Básico, ou seja, entre o 1º e o 4º anos de escolaridade.

Como decerto já percebeu ao ler o título do texto, a minha opinião é de que os TPC nessas idades não deveriam existir, mas entendo perfeitamente que há pontos de vista diferentes, até porque não existem verdades absolutas. No entanto, confesso que eu, enquanto pediatra, estou plenamente convencido de que a maior parte das crianças estaria muito melhor sem TPC. Por tudo o que li e vejo diariamente, isso é algo em que eu acredito piamente…

VANTAGENS (aceito que possam ser usadas como um argumento a favor dos TPC, mas na verdade não concordo muito com elas):

- Ajudam a sedimentar a matéria

Este argumento fazia sentido quando as crianças tinham aulas só de manhã ou só de tarde. Nesses casos poderia ser útil fazer alguns trabalhos em casa para ajudar a consolidar o que aprenderam. No entanto, actualmente as aulas são de manhã E de tarde, pelo que me parece questionável até que ponto se torna necessário trabalhar também para além do horário estabelecido.

- Ajudam a disciplinar as crianças

É verdade que trabalhar implica alguma disciplina. No entanto, penso que esse tipo de aprendizagem pode também ser conseguido com outro tipo de actividades em que é necessário haver rigor, nomeadamente o desporto ou a música.

- Envolvem os pais

Sem dúvida que esta pode ser uma mais valia dos TPC (a meu ver, talvez a única). Contudo, o que se vê muitas vezes são os pais a fazer os trabalhos pelos filhos, só “para despachar”. Ou então, pior ainda, pagarem prolongamentos escolares ou centros de estudos para as crianças poderem fazer os trabalhos de CASA sem ser em CASA (estranho, não?). No fundo, “estica-se” as aulas e resolve-se o assunto sem que os pais tenham problemas. Esses ficam só para as crianças…

- São importantes quando as crianças têm mais tempo livre, para não esquecer o que aprenderam (por exemplo, aos fins de semana)

Para a maior parte das pessoas, a semana é (ou deveria ser) composta por 5 dias de trabalho e 2 de descanso. O que nós fazemos às crianças, quando as obrigamos a trabalhar mais um bocadinho ao fim de semana é exactamente “castigá-las” por terem tempo para descansar. Sei que pode parecer um pouco estranho ver as coisas desta forma, mas se todos nós fôssemos obrigados a levar trabalho para casa ao fim de semana, só porque temos 2 dias de descanso íamos certamente achar injusto.

DESVANTAGENS:

- São muitas vezes monótonos e pouco estimulantes

A maioria dos TPC são a réplica do que se fazia há 20-30 anos atrás. Exercícios em que a repetição é a regra e não acrescentam nada de novo à capacidade de raciocínio das crianças. Se elas não se sentirem motivadas, torna-se ainda mais difícil aceitar que têm que trabalhar fora da escola.

- “Roubam” tempo às crianças

As crianças precisam de tempo para brincar e para ser crianças. Depois de 8 horas (pelo menos) na escola, com intervalos livres de tamanho “micro”, é preciso que elas tenham tempo para não fazer nada ou então para descobrir actividades diferentes, que lhes despertem outras áreas do desenvolvimento (desporto, música, arte, …). Não é à toa que as crianças digam que TPC significa Tortura Para Casa e não Trabalhos Para Casa!

- “Roubam” tempo às famílias

Grande parte dos pais trabalha até tarde ou tem horários laborais tão rígidos que lhes limitam o tempo disponível para estar com os filhos. Esse tempo deve ser de entrega total, de brincadeira sem regras e dirigida pelas crianças, pelo que os TPC são claramente um entrave a que isso aconteça. Entre banhos, cozinha e refeição pouco sobra para os momentos em família. Se lhes juntarmos os TPC (e os gritos e confusões que acarretam), o tempo acaba por fugir todo.

- São uma fonte de “guerras” e zangas

Apesar de haver excepções, em grande parte das famílias os TPC são uma fonte de discussões e outras “guerras”. As crianças estão cansadas, os pais estão cansados e preocupados com a hora de dormir dos filhos e acaba por se gerar a confusão. Entre gritos, ameaças e castigos chega a hora de dormir, porque no dia seguinte… há mais!

Estes são apenas alguns argumentos, muitos mais haveria ainda para discutir. Contudo, acho que o mais importante é mesmo que se pense seriamente sobre este assunto, de forma a que as pessoas não tenham medo de assumir as suas ideias.

Sei que há muitos pais e profissionais de saúde e educação que não partilham deste meu ponto de vista. E também sei que há crianças que precisam mais de trabalhar do que outras. Por isso mesmo, defendo que os pais dessas crianças possam trabalhar com elas se, em conjunto com o respectivo professor, chegarem à conclusão de que é a opção mais benéfica. Hoje em dia a oferta de exercícios e fichas (seja através da Internet ou livros específicos sobre o assunto) é tão vasta, que qualquer pai ou mãe que queira fazer alguns trabalhos com os filhos pode fazê-lo sem problema nenhum. Não me parece é que precisem de fazer todas as crianças, apenas por rotina.

Mais do que ser tempo de DIZER basta, é hora de PENSAR que se calhar basta mesmo. Acredito que as crianças, as famílias e até os professores irão agradecer. E, atrevo-me a arriscar, duvido imenso que o sucesso escolar das nossas crianças fosse diminuir. Pelo contrário, estou convencidíssimo de que provavelmente até iria aumentar!

Senhores Professores, o ano lectivo está agora a começar. Porque não dar o benefício da dúvida nas vossas escolas e iniciar o ano sem TPC? Se não resultar podem sempre voltar atrás. Como diz o ditado, “para melhor muda-se sempre”!

Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues

PEDIATRIA

Hugo Rodrigues é pediatra no hospital de Viana do Castelo e docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto e na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Pai (muito) orgulhoso de 2 filhos, é também autor do blogue "Pediatria para Todos" e do livro "Pediatra para todos"