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Pedro Graça

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Neste Verão - água ou hidratação – a escolha é sua

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Pedro Graça

Matt Cardy /Gettty Images

Recentemente começou a substituir-se a palavra “água” por “hidratação”. Nada a opor se por detrás deste formato de comunicação não existisse a ideia de promover o consumo de determinadas bebidas (com capacidade hidratante) compostas por garrafa de plástico ou metal, mais açúcar ou outro adoçante, corantes e água

A água é o mais importante alimento à nossa mesa. Sem um consumo adequado de água, o nosso cérebro funciona mal, os nossos músculos tornam-se mais lentos, os nossos rins filtram pior, a tensão arterial sobe mais facilmente, a pele, cabelos e unhas ficam mais frágeis…enfim, todo o nosso corpo se ressente.

Infelizmente, e apesar de toda a evidência científica sublinhar a importância do consumo regular de água, a cultura da água, ou seja, o reconhecimento social da importância da água pública, da sua promoção e do seu fácil acesso a todas as pessoas na nossa sociedade, independentemente do seu estatuto social e económico, ainda é frágil. A 28 de Julho de 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas, através da Resolução A/RES/64/292, declarou a água limpa e segura um direito humano essencial para gozar plenamente a vida. Apesar de tudo isto, ainda existem muitos obstáculos à concretização deste direito. Em Portugal e não só.

Recentemente começou a substituir-se a palavra “água” por “hidratação”. Ou seja, em vez de se dizer “beba mais água” sugeriu-se dizer que as pessoas deviam “estar mais hidratadas”. Isto porque existem muitos alimentos sólidos, como a fruta que fornecem uma quantidade significativa de água e porque a maioria das bebidas, por exemplo, os refrigerantes ou sumos, também são fornecedores de água por excelência. E porque, em ultima instância, o grau de hidratação dá uma ideia mais real da quantidade de água ingerida proveniente de diferentes fontes alimentares. Nada a opor se por detrás deste formato de comunicação não existisse a ideia de promover o consumo de determinadas bebidas (com capacidade hidratante) compostas por garrafa de plástico ou metal, mais açúcar ou outro adoçante, corantes e água. Que depois de transportadas por centenas ou milhares de quilómetros, com custos ambientais tremendos, fornecem 330 ml de água com aditivos, na sua maioria desnecessários à nossa saúde, para depois voltar a inundar o planeta de plástico ou outro tipo de embalagem. Um ou dois copos de “hidratação” em troca de uma agressão ambiental que pode demorar centenas de anos a desaparecer. E o mesmo gesto repetido por milhões de pessoas em todo o planeta a cada hora tem consequências ambientais muito graves. Segundo a ONU, o plástico representa 80% do lixo nos oceanos. Se o aumento de resíduos como garrafas de plástico, sacos e copos de plástico se mantiver ao ritmo atual, em 2050, haverá mais plástico do que peixe em peso no mar e 99% das aves marinhas terão consumido restos deste material.

Por causa desta poluição, pequenas partículas plásticas, designadas por “micro-plásticos” com tamanho inferior a 5mm e provenientes da degradação de plásticos de maiores dimensões, entram através das guelras dos peixes e de organismos filtradores, como os mexilhões ou ameijoas, na nossa alimentação com consequências ainda pouco estudadas nos seres humanos. Sabemos hoje como alguns tipos de plástico se comportam quando contactam com alimentos. Mas muito pouco quando o plástico e seus aditivos (compostos por centenas de compostos químicos) é abandonado no meio ambiente e à medida que se degrada entra na cadeia alimentar. As preocupações são grandes e a precaução na redução da utilização de plástico comum deve ser um objetivo da nossa sociedade.

Segundo a ONU “todos os seres humanos têm direito a serviços de água e saneamento que sejam fisicamente acessíveis dentro, ou na proximidade imediata, do lar, local de trabalho e instituições de ensino ou de saúde.” Por esta razão, a Direção-Geral da Saúde lançou no início deste verão a campanha #aguapublica destinada a alertar para a importância da disponibilidade de água em locais públicos. Apesar de muitos de nós reconhecermos que a água da rede pública deveria chegar a todos, independentemente do local onde se vive e do poder económico de cada família, são ainda muitos os locais públicos que não facilitam o acesso à agua de forma gratuita. A começar por praias onde os bebedouros são insuficientes, inexistentes ou não funcionam. E onde se vende água engarrafada a preços absurdos. Em aeroportos, estações de comboios, escolas, hospitais, pavilhões desportivos, museus, universidades … onde o acesso fácil à água pública não é uma preocupação. Mas nestes locais vende-se com facilidade todo o género de bebidas açucaradas e engarrafadas. Locais onde, por vezes, é mais fácil e apelativo comprar refrigerantes do que encontrar água gratuita.

Todo um caminho ainda a fazer junto de autoridades locais, das escolas e universidades ou até junto dos centros de saúde, hospitais e outros locais públicos onde a voz do cidadão pode fazer a diferença.

Pedro Graça

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Pedro Graça é Diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direcção Geral da Saúde. É doutorado em Nutrição Humana pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) onde é professor associado.

É membro do Conselho Científico da ASAE e ponto focal português da OMS e Comissão Europeia na área da alimentação.