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Histórias e desabafos sobre o iPhone

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Steve Jobs apresentou o primeiro iPhone na CES, a maior feira de electrónica de consumo do mundo, em janeiro de 2007

David Paul Morris

Com todas as suas fraquezas tornou-se o telefone mais famoso no dia em que Steve Jobs o apresentou ao mundo

Um gesto, chamaram-lhe pinch. Afastamos os dedos e as coisas ficam maiores, aproximamos e lá vão elas para o seu sítio. Um movimento, o discreto balanço dos gráficos no ecrã do iPhone que faz com que pareça que estamos mesmo a interagir com objectos físicos. O teclado virtual era odiado e gozado por quase todos. É impossível escrever naquilo, imitavam-se os esforços dos fãs, risada certa. A máquina fotográfica de 2 Mg não gravava vídeo. Não tinha 3G, o que já era claramente uma desvantagem técnica em 2007. Um preço tão absurdo que poucas semanas depois a Apple cortava 100 dólares, e via-se na obrigação de indemnizar todos os que tinham pago sem esse desconto, ofendidos com o corte abrupto em tão pouco tempo. Todos falavam dele e o sucesso foi relativo. Era uma máquina com inovações, sem dúvida, mas tecnicamente fraca em muitos aspectos, em relação ao que já se usava. Com todas as suas fraquezas tornou-se o telefone mais famoso no dia em que Steve Jobs o apresentou ao mundo.

O descarado escolheu um dia de Janeiro em que decorria a CES, a maior feira de electrónica de consumo do mundo. Todos os jornalistas que interessavam nesta área estavam em Las Vegas a ver as novidades. Todos não, Jobs escolheu bem uns poucos e convenceu-os, um a um, a irem ver uma coisa nova, supostamente sem lhes dizer sequer o que era. Ainda hoje os que não aceitaram se arrependem e são de certa forma gozados pelos que correram o risco. Só alguns anos depois teriam a certeza de ter de facto assistido a um momento histórico. Vale a pena ver essa apresentação, Jobs no seu melhor. Quando estava a editar a reportagem dos 10 anos para a SIC e chegou o momento em que é revelado o nome, a Vanda Paixão, que estava a trabalhar comigo, disse - até arrepia. E 10 anos depois até arrepia. Steve Jobs vai num crescendo, criando expectativa, falando do tempo que levou, da importância que vai ter, começa por dar a entender que vai mostrar três coisas novas, um telefone, um iPod (leitor de música) e um navegador revolucionário para a Internet. Ao longo do discurso leva facilmente a pequena multidão a concluir por si própria que está a falar de um único aparelho. Quando revela o nome estão prontos para o delírio, além das palmas os olhos dos convidados brilham, os sorrisos parecem paralisados em grande parte daquelas caras. O novo aparelho fez correr tanta tinta pelo que trazia de novo que houve gente a acampar dias à porta das lojas para estar entre os primeiros que foram a comprar no dia 29 de Junho nos Estados Unidos. Hoje, estas filas, apesar do que se vê na TV não têm nada que ver com as originais. Há muito mais lojas, há portas que cheguem para todos, na icónica loja da 5ª avenida juntam-se sobretudo grupos patrocinados por outras marcas que procuram a visibilidade das TV’s que todos os anos entram no jogo.

O que Jobs e a sua equipa fizeram foi repensar o interface, a forma como nos relacionamos com a máquina. Criaram uma relação táctil com objetos virtuais que têm vindo a aperfeiçoar, os iPhones e até os computadores de hoje reagem à intensidade do nosso toque e respondem com toques e vibrações na nossa pele. Na tal apresentação é notória a forma como fala das funções de leitor, diz que é como se tocássemos na música que vamos ouvir. Perceberam a importância que a navegação na Internet iria ter. Só há muito pouco tempo os browsers de outros telefones começaram a aproximar-se do que o iPhone trazia. Navegar lado a lado com um iPhone e outro qualquer aparelho fazia a outra marca parecer uma anedota. Claro que hoje já não é assim.

O golpe de génio seguinte seria a abertura da loja aos programadores. E de que maneira. Qualquer tipo capaz de programar umas coisas que fizesse um programa interessante poderia, quando muito, ganhar 30% do preço de venda. Um pouco como acontece com os livros, mas com os livros é pior ainda. A Apple inverteu a coisa e passou a dar 70% aos criadores. Além disso facilitou o processo e criou ferramentas que ajudavam. Foi só ao fim de um ano que os programadores puderam então vender os seus pequenos programas aos utilizadores de iPhone. Isto provocou uma explosão de funcionalidades e de escolhas. Começaram nas 500 aplicações, depois lembro-me do dia em que só de meteorologia já existiam 400 aplicações diferentes. A certa altura houve uma guerra com a Apple e o Android a competir no número de apps disponível no seu sistema. Hoje já terão ultrapassado os 2 milhões e 200 mil. E o Windows Mobile não descola em boa parte porque os programadores não investem no sistema.

Os designers da Apple acertaram em tanta coisa que obrigaram todo o mercado a seguir. É verdade, a Apple copia muito do que o Android vai fazendo de inovador e o inverso também. Passam a vida nisso para grande satisfação dos fãs de um ou outro sistema que assim se podem insultar à vez. A verdade é que todos, todos os telefones que hoje usamos são um ecrã táctil num corpo o mais fino possível. Se olharem para as fotografias dos telefones daquele tempo verão uma maravilhosa profusão de cores e de designs, redondos, em meia lua, quadrados, com teclas grandes ou teclas pequenas, com teclados partidos ao meio, em concha, em tablet, metade de cada lado. Hoje caímos numa triste monotonia, porque os designers de Jobs tinham razão e ninguém inventou coisa melhor. Se está a pensar no último Blackberry que para aí apareceu, é apenas a exceção necessária para confirmar a regra que acabei de enunciar. A riqueza dos aparelhos de hoje está nos programas que correm, cada um usa o que precisa e o que gosta, dos milhões disponíveis, a preços ridículos, quando não gratuitos.

Só um ano depois chegaria a Portugal, com a versão 3G. 10 jornalistas portugueses tiveram que assinar um contrato que quase parecia um pacto para terem a possibilidade de conhecer a máquina como deve ser durante 10 dias, antes do lançamento. O meu contrato (NDA - Non Disclosure Agreement) proibia-me de mostrar o aparelho fosse a quem fosse. Bom, admitia uma excepção, a minha mulher, mas só com a condição de ela se considerar vinculada pelas mesmas regras. Claro que houve mais gente que o viu e experimentou, mas o essencial foi respeitado. Nenhum dos 10 publicou uma linha, nenhum transmitiu informação publicamente antes da data marcada. Foi uma experiência bem divertida explicar em poucos minutos o que fazia e como se interagia com o tal aparelho, um verdadeiro desafio às nossas capacidades de comunicação, só possível porque tivemos os tais dez dias para estudar. Isto continua a ser a regra com as novidades da marca. Infelizmente não em Portugal, depois de alguns pequenos disparates de comunicação que não vêm ao caso, a Apple abandonou a comunicação em Portugal. Tudo o que vamos conseguindo fazer é em muitos casos, furando as regras, alguns operadores de comunicações, que queriam ajudar, chegaram a ser pressionados para não nos deixarem testar nada antes dos dias de lançamento. As notícias aqui em Portugal sobre as novas versões são feitas como se estivessemos a lutar contra a marca, a tentar mesmo assim fazer um trabalho decente sem os instrumentos que têm até os bloggers em Espanha. É um direito deles claro, mas vamos fazendo porque a mesma marca que tomou esta decisão soube tornar-se quase obrigatória nas notícias. Uma escolha que confesso que me custa a entender.

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

TECNOLOGIA

Jornalista e editor de Novas Tecnologias na SIC