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Agora no ensino superior. Em que curso?

Bolsa de Especialistas

José Morgado

A ideia tão divulgada de que somos um “país de doutores” não corresponde à realidade. Para além disso, Portugal é um dos países em que a formação superior se torna mais compensadora

No último texto falei da época de exames nacionais do secundário referindo que, posteriormente, conversaríamos sobre o passo seguinte, a escolha do curso a frequentar no ensino superior. Esperemos que a grande maioria dos alunos dê este passo, nunca é demais enfatizar a importância de níveis de formação superior no nosso país que ainda estão abaixo dos objectivos estabelecidos. A ideia tão divulgada de que somos um “país de doutores” não corresponde à realidade. Para além disso, Portugal é um dos países em que a formação superior se torna mais compensadora.

Quanto à escolha do curso, sendo certo que muitos jovens têm a sua decisão tomada, a questão é muito frequentemente colocada em formulações desta natureza, a escolha deve assentar no conhecimento e informação sobre o mercado de trabalho que forneça indicadores sobre “empregabilidade”, “saídas profissionais”, “estatuto salarial”, “oportunidades de carreira”, etc., ou por outro lado, a decisão deve ser tomada a partir dos interesses e motivações individuais?

Julgo que não errarei se disser que para muitos de nós a resposta não será difícil e será segura, qualquer que seja a opção.

Algumas vozes defenderão sem dúvidas que cada indivíduo deve considerar a sua motivação, os seus interesses e gostos. Só decidindo assim poderá ter um projecto de vida com mais probabilidade de realização pessoal.

Para outros, esta opção será ingénua ou romântica. Corre o enorme risco de não considerar a realidade e, mais grave, conduzir directamente ao desemprego. Estas decisões são “sérias”, devem ser tomadas com racionalidade, com pragmatismo, só vale a pena estudar, aceder a uma formação que garanta emprego e, melhor ainda, um estatuto salarial significativo e oportunidade de carreira. Por isso se torna tão importante fazer uma prospecção da oferta formativa com critérios desta natureza e então escolher de forma ponderada.

Os primeiros responderão que não seguir motivações e desejos pode ser um caminho seguro para mais cedo ou mais tarde “chocar” com a frustração e desencanto que germinam muito facilmente em quem “não faz o que gosta” e os segundos insistirão no pragmatismo do “mundo real”.

Esta escolha é ainda por vezes complicada pela pressão familiar ou de outras pessoas, conheço muito jovens que foram, são, pressionados para realizar formação de acordo com a “tradição” da família ou conforme o desejo dos pais.

Na verdade, para muitos jovens pode não ser uma tarefa fácil construir a “escolha acertada”.

Com base na experiência e no meu próprio entendimento afirmo muitas vezes a este propósito e não só que cada um de nós deve poder e tentar escrever a sua narrativa, sonhar e cumprir esse sonho. No entanto, a experiência e o conhecimento também nos sugerem a importância de considerar as circunstâncias de cada momento, as dimensões ou factores que as influenciam mas também não esquecer que volatilidade e mudanças rápidas são características muito fortes do mercado de trabalho das sociedades actuais. O tempo de uma formação universitária é um espaço de tempo significativo que deve ser tido em conta.

Neste contexto, importa que cada jovem deva sentir-se seguro do que a sua escolha representa nas circunstâncias actuais, enfatizo “actuais”, do mercado de trabalho, que a realize a partir das suas motivações ou vislumbrando o projecto de vida que tentará construir. Será então importante colher informação sobre as diferentes opções ao dispor no que respeita a cursos, escolas e respectivos indicadores de qualidade.

Finalmente, para além da escolha mas também considerando a escolha, parece-me de afirmar que apesar de a empregabilidade ser uma questão pertinente e a ter em conta, boa parte desta questão, mesmo em situações de maior constrangimento ou dificuldade, está profundamente associada à competência, esta é um factor essencial e começa a mostrar-se durante o curso, não apenas à saída.

Na verdade, o que frequentemente me inquieta, quer através da minha experiência, quer do contacto com muitíssimos colegas de outras instituições, é a forma pouco empenhada e de alguma “ligeireza” como alguns alunos do ensino superior parecem encarar o seu trajecto académico.

A forma como alguns “escolantes”, alunos que não estudam só vão à escola, vivem o seu percurso escolar parece evidenciar desde aí um comportamento e atitudes pouco “profissionais”. Dito de outra forma e para recorrer a uma expressão actual, cumprem os “serviços mínimos” e, posteriormente, ver-se-á o que acontece.

A formação académica traduzida no acesso a saberes, competências, visão, valores etc., é mais do que conseguir um título que se cola ao nome, é um imprescindível conjunto de ferramentas que alavancam a construção e desenvolvimento de um projecto de vida pessoal e profissional com melhores perspectivas de sucesso.

Mesmo considerando sectores actualmente com um baixo nível de empregabilidade, ou assim percebido, continuo a acreditar e a defender que, apesar dos maus exemplos que todos conhecemos, a competência e a qualidade da formação e preparação para o desempenho profissional, são a melhor ferramenta para entrar nesse "longínquo" mas ao mesmo tempo tão perto mercado de trabalho.

A verdade é que em condições “normais”, profissionais menos competentes, pior preparados, sentirão sempre maiores dificuldades, independentemente da maior ou menor abertura do mercado.

Assim sendo, importa que o investimento, a preocupação com a aprendizagem e a aquisição de saberes e competências possam ser uma preocupação que pode e deve coexistir com o desenvolvimento de uma vida académica socialmente rica, divertida e fonte de bem-estar e satisfação. É desejável resistir à tentação do facilitismo, do passar não importa como, da fraude académica, da competição desenfreada que inibem partilha, cooperação e apoio para momentos menos bons.

O futuro vai começar dentro de momentos.

Termino com um voto de boa sorte e boa viagem para todos, espero que sejam muitos, os que vão iniciar agora esta fase fundamental nas suas vidas.

De qualquer forma e como diz o Sérgio Godinho será “apenas” o primeiro dia do resto da vossa vida.

(Este texto está escrito conforme a antiga ortografia)

José Morgado

José Morgado

EDUCAÇÃO

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA - Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA - Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com