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Carla Isidoro

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Como barbear o meu pai: uma arte de homem para homem

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Carla Isidoro

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Fazer a barba é uma arte que tem passado de pai para filho. Depois, cabe a cada um ir afinando a sua prática ao longo dos anos para dominar a técnica e tornar-se hábil. Contudo, um dia, tudo pode mudar

Seguramente que o filme da Gillete, multi premiado com ouro há poucas semanas no festival Cannes Lions, seria menos impactante se a personagem do filho fosse feminina, se fosse uma filha. Na realidade, acredito que haja bastante mais mulheres do que homens a cuidarem diariamente ou com regularidade dos seus parentes mais velhos, sejam os pais ou os sogros quando estes necessitam de apoio em tarefas simples como tomar banho, caminhar ou comer. Ou fazer a barba. Aqui, neste campo exclusivo do universo masculino, ninguém domina a arte de barbear com lâmina como um homem. Ninguém, senão um homem, passou pelas infeções no pescoço causadas por lâminas, queimaduras, vermelhidão e infinitos cortes no rosto tantas vezes estancados com um pequeno pedaço de papel. As mulheres observam o ritual, ouvem os comentários dos companheiros zangados por terem mais um corte na cara, mas não passam pelo mesmo ainda que usem lâmina para depilar as pernas. O grão do pelo, a curva do queixo, a pele das pregas, o desenho reto ou curvo do maxilar, o desenho que se dá à barba, ao bigode ou às patilhas com a lâmina é uma arte aprendida e afinada pelo homem ao longo da sua vida. Tenha aprendido a barbear-se com o seu pai ou não, é sozinho que faz a barba pela vida fora e este é um ritual seu.

A nova Gillete Treo foi concebida para quem tem de ajudar um homem a barbear-se. No filme, o velho pai que já perdeu forças e necessita de ajuda para as tarefas básicas do dia a dia conta com as mãos do filho para que a sua barba seja feita, e fique bem feita. E isto tem importância no que diz respeito à dignidade da pessoa que perde faculdades. Fazer a barba a alguém de maneira a ficar bem feita não deve ser fácil para quem não é barbeiro nem tem experiência em fazê-lo a outros. Levando isto em consideração, a marca desenhou uma lâmina adaptada para quem tem de barbear outra pessoa. Aparentemente é mais ergonómica, flexível e suave que as tradicionais. O filme mostra um filho que fala emocionado do pai que era um homem forte e musculado, ativo, e que um dia ficou praticamente inválido. O filho lava o pai, barbeia-o, abraça-o e ver isto é tão tocante que facilmente nos leva às lágrimas. Muitos dos que irão envelhecer poderão um dia precisar do apoio de outros para que a dignidade do quotidiano se mantenha intacta apesar das dificuldades, seja para ter a barba bem feita, a gravata alinhada ou a saia ajustada. Com a esperança média de vida alargada até aos 80 anos, o mais provável é termos de contar com realidades como a do filme nas nossas vidas, e é importante que o mercado apresente soluções e produtos adequados às exigentes necessidades da vida contemporânea. Viver até mais tarde pode ser uma ideia agradável considerando que não se perde qualidade de vida com o passar dos anos. Quanto a isto, acho que todos desejamos a mesma coisa para nós e para os outros: envelhecer envelhecendo bem.

Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Comecei a trabalhar em 1995 na revista do jornal A Bola enquanto tirava a licenciatura. Tive um ótimo editor que me pôs a entrevistar figuras de destaque da cultura portuguesa e a escrever sobre assuntos diversos, e esta experiência foi de extrema importância porque me deu confiança para escrever sobre (quase) qualquer coisa. Colaborei para diferentes media sobre viagens, música, cultura contemporânea, culturas africanas, comportamento, tendências de consumo, etc. Hoje sou gestora de comunicação independente para negócios, marcas e projetos artísticos. Defendo a importância de uma boa história na comunicação de qualquer marca e de conteúdos alinhados com os valores da cultura onde ela se insere. O antropólogo Igor Kopytoff diz que os objetos têm histórias de vida apesar de serem coisas. E eu concordo com ele. Se as histórias alimentaram o nosso imaginário em criança, na vida adulta elas continuam a inspirar-nos, a tocar-nos e a dinamizar o mercado. Quem não gosta delas? Sou licenciada em Ciências da Comunicação e pós graduada em Antropologia na vertente Cultura Material e Consumo.