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Tempo: Uma vivência que mudou radicalmente

O aqui e o agora estão a infiltrar-se na nossa vida subjectiva, na nossa vida intersubjectiva, na nossa relação com o mundo

Houve um tempo em que demorava 9 dias a viajar de barco entre São Tomé e Príncipe e Lisboa. No barco brincava, comia e dormia e desse tempo lembro-me da minha felicidade.

Agora, muitas vezes, observo que me ultrapassam arriscando um acidente para chegarem mais depressa ao sinal vermelho onde, também pararei.

Houve um dia em que falei com o meu pai entre São Tomé e Príncipe e Quiculungo (Angola), via rádio, e esta conversa foi combinada por carta um mês antes. Cada frase minha tinha uma resposta do meu pai dezenas de segundos depois.

Agora muitas vezes observo as pessoas a “teclar” rapidamente o botão de chamada do elevador, na esperança vã de conseguir apressar o seu movimento.

Houve um tempo em que eu comprava um LP de vinil e corria para casa para o ouvir na íntegra no meu gira-discos.

Agora observo as minhas filhas com o telemóvel nas mãos, em qualquer lugar que estejamos, a perguntar-me: “Pai que música é que queres ouvir já?”.

Houve um tempo em que se escreviam cartas e o tempo para a sua leitura variava com o meio de transporte que as levava.

Agora comunicamos por muitos meios em qualquer lugar em tempo real.

Houve um tempo em que havia tempo para pensar.

Agora ou pensamos depressa ou nem pensamos e só agimos.

Tenho saudades do tempo antigo mas gosto muito do tempo actual. Tenho o privilégio de ter vivido o outro e estar a usufruir do actual.

No entanto sinto e penso que esta mudança tão rápida no tempo vivido terá que ter algum impacto entre nós. Ou será que não é isso e não foi a rapidez da mudança mas tão só a mudança.

Tanto faz, seja assim ou seja assado, o pensar pouco e muito depressa e o agir muito há-de ter por certo algum impacto na vida de todos nós.

Esse impacto é algo que ainda não compreendemos bem.

Contudo, há um algo que nós psiquiatras vamos observando nos nossos pacientes - a presença constante do aqui e do agora.

O aqui e o agora estão a infiltrar-se na nossa vida subjectiva, na nossa vida intersubjectiva, na nossa relação com o mundo.

Quanto não se consegue o já fica-se frustrado, com angústia, sobrevêm a irritação e a instabilidade e há prontidão para agir. Isto sempre foi assim, mas agora parece estar a piorar.

O momento é o já mesmo que não reflectido, o sucesso é o imediato nem que seja efémero.

O que é facto é que o “malvado” DSM (Manual de Diagnóstico Psiquiátrico da Associação Psiquiátrica Americana) classifica as pessoas mais activas, mais instáveis, mais irritadas e com angústia, mais impulsivas e também com tendências depressivas, como Bipolares e muitas vezes como Borderline e por vezes com as duas coisas.

Nós psiquiatras se não estivermos atentos vamos neste embalo e damos o mesmo nome e os mesmos medicamentos a estes pacientes (que o são porque sofrem) que aos “Velhos” “Bipolares” e “Borderline”. Às vezes já não os distinguimos. Às vezes eu próprio penso: “E são distintos?”.

Na verdade tudo foi tão rápido que ainda não temos uma compreensão do que aconteceu e está a acontecer. Se assim é com a “normalidade psicológica”, então, perdoem-me, que mais difícil ainda é perceber o que se passa com a “doença psicológica”.

Vamos ter que estudar, investigar e reflectir muito nesta relação do homem com o tempo.

Pedro Varandas

Pedro Varandas

PSIQUIATRIA

Psiquiatra Pedro Varandas é psiquiatra, e o atual secretário da Sociedade Portuguesa de Psiquatria e Saúde Mental. É diretor clínico da Casa de Saúde da Idanha e da Clínica Psiquiátrica de S. José, dois principais hospitais psiquiátricos de Lisboa.